Nesta ilha japonesa ninguém deve nascer nem morrer e a explicação tem mais de mil anos
Em Miyajima, no Japão, uma tradição secular procurava evitar nascimentos e mortes. A ilha sagrada é também famosa pelos veados e pelo torii sobre o mar.
Há uma ilha no Japão onde, durante séculos, nascer e morrer foram acontecimentos que se procurou manter longe do seu território. Chama-se Miyajima, fica ao largo de Hiroshima e é um dos lugares mais famosos do país, não apenas pelo enorme torii vermelho que parece flutuar sobre o mar, mas também pelos veados que circulam livremente pelas ruas.
Por detrás desta história está uma razão religiosa. Miyajima, cujo nome oficial é Itsukushima, é considerada um lugar sagrado do xintoísmo desde tempos muito antigos. Os primeiros edifícios do Santuário de Itsukushima terão sido erguidos no século VI e o conjunto que lhe deu a configuração pela qual é conhecido atualmente remonta ao século XII.
A relação com o sagrado não se limitava ao santuário. Era a própria ilha que despertava veneração. Segundo a Organização Nacional de Turismo do Japão, o santuário foi construído sobre o mar precisamente porque se considerava o território tão sagrado que se pretendia evitar profanar o seu solo.
Porque se evitava nascer e morrer em Miyajima
É neste conceito de pureza que está a origem de uma das histórias mais surpreendentes associadas a Miyajima. Durante séculos, procurou-se afastar da ilha acontecimentos relacionados com o nascimento e a morte, tradicionalmente associados à impureza ritual no xintoísmo.
Daí nasceu a história, hoje repetida frequentemente, de que em Miyajima “é proibido nascer ou morrer”. A formulação é tentadora, mas deve ser entendida apenas no seu contexto histórico e religioso e não como se existisse atualmente uma lei japonesa que tornasse ilegal uma pessoa nascer ou morrer na ilha, o que não acontece.
Atualmente, Miyajima deixou de ser um território reservado quase exclusivamente ao culto e foi-se abrindo a mercados, peregrinos e visitantes. É desde há muito tempo reconhecida como um dos três lugares de maior beleza paisagística do Japão.
O que permaneceu foi a ligação profunda da ilha ao sagrado. A UNESCO descreve Itsukushima como um lugar santo do xintoísmo desde os tempos mais remotos e destaca a integração entre o santuário, o mar e o Monte Misen, numa paisagem em que natureza e criação humana são praticamente inseparáveis.
Há veados por todo o lado
Quem desembarca em Miyajima depressa percebe que há outros habitantes a disputar as atenções com o famoso santuário. Os veados japoneses circulam livremente pela ilha, aparecem junto às ruas e às zonas frequentadas pelos visitantes e tornaram-se uma das imagens mais características deste destino.
E não é uma presença recente. Há cerca de 800 anos, Saigy? H?shi, um monge local, já mencionava a existência destes animais na ilha. Eram acarinhados como shinroku, expressão associada aos veados sagrados. Atualmente, estima-se que existam cerca de 500 veados em Miyajima.
A proximidade com os humanos também tem um lado curioso. Alguns animais estão tão habituados à presença de pessoas que se aproximam sem grande receio, embora os que vivem nas zonas florestais tendam a evitar os visitantes. Continuam, no entanto, a ser animais selvagens e as autoridades turísticas deixam um aviso particularmente útil: podem tentar comer papel e tecido, pelo que convém ter atenção a bilhetes e lembranças.
Há ainda um detalhe que torna toda esta história particularmente curiosa. Os veados nascem na própria ilha. As fêmeas têm normalmente as crias entre maio e julho e os pequenos conseguem pôr-se de pé poucos minutos depois de nascer. Ou seja, a tradição de evitar nascimentos em Miyajima dizia respeito às pessoas, não aos animais que há séculos fazem parte da paisagem da ilha.

foi construído sobre a água


de um dia, à ilha

há centenas de anos na ilha


um local de culto
O torii que parece flutuar
Se os veados acompanham os visitantes em terra, é no mar que se encontra o grande símbolo de Miyajima. O Otorii do Santuário de Itsukushima foi construído sobre a água e tem cerca de 16 metros de altura.
A experiência muda de acordo com a maré. Na maré cheia, o portão e o santuário parecem flutuar sobre o mar. Quando a água recua, é possível caminhar pela zona que antes estava submersa e aproximar-se do enorme torii.
O Santuário de Itsukushima está classificado como Património Mundial pela UNESCO desde 1996. Para chegar a Miyajima a partir de Miyajimaguchi é necessária uma curta viagem de ferry, com uma duração aproximada de dez minutos.