Quando o eclipse começar isto é o que vai acontecer à sua volta
Durante o eclipse desta quarta-feira, não olhe apenas para o céu. A temperatura, as sombras, a luz e até o comportamento dos animais podem mudar.
O eclipse solar desta quarta-feira não será apenas um espetáculo para observar no céu. À medida que a Lua esconder o Sol, a luz poderá adquirir um aspeto estranho, a temperatura pode descer, as sombras vão mudar e até alguns animais poderão comportar-se como se a noite estivesse a chegar. Há muito para ver sem estar constantemente a olhar para cima.
Quando o eclipse solar começar esta quarta-feira, 12 de agosto, a reação mais natural será procurar o Sol. Mas algumas das manifestações mais curiosas do fenómeno vão acontecer precisamente na direção oposta.
Em Portugal Continental, a Lua esconderá entre 92% e 99% do disco solar, chegando aos 100% numa pequena área do Parque Natural de Montesinho, em Bragança. O máximo acontecerá ao final da tarde, com o Sol já relativamente baixo no horizonte, criando condições particularmente interessantes para perceber como uma redução tão acentuada da luz solar transforma temporariamente o ambiente.
A NASA tem estudado precisamente estes efeitos durante eclipses anteriores. As alterações podem ser sentidas na temperatura, na luz, nas sombras, no vento e até no comportamento de algumas espécies. Por isso, se vai acompanhar o eclipse, vale a pena passar alguns momentos sem olhar para o Sol e simplesmente prestar atenção ao que está à sua volta.
A temperatura pode começar a descer
Um dos efeitos mais fáceis de sentir é a alteração da temperatura. Quando a Lua começa a bloquear uma grande parte da radiação solar, o solo deixa temporariamente de receber a quantidade habitual de energia e o ar junto à superfície pode arrefecer.
Durante eclipses totais anteriores foram registadas descidas significativas. A NASA refere que, dependendo das condições de humidade e nebulosidade, a diminuição pode rondar os 5 ºC durante um eclipse total. Nas observações realizadas durante o eclipse de 2017 nos Estados Unidos, dados recolhidos através do programa GLOBE mostraram descidas próximas dos 4 ºC em alguns locais.
Isso não significa que a temperatura vá necessariamente cair esses valores em Portugal esta quarta-feira. O efeito depende da localização, da percentagem de ocultação, das nuvens e das condições meteorológicas locais. Além disso, o eclipse português acontece ao final da tarde, quando a temperatura já tende naturalmente a diminuir.
Ainda assim, sobretudo nas zonas onde o Sol ficará quase totalmente escondido, poderá ser possível sentir uma mudança no ambiente durante os minutos que antecedem o máximo.
Repare nas cores da paisagem
Outra transformação será mais subtil. À medida que a quantidade de luz diminui, a perceção das cores começa a alterar-se.
A NASA descreve a aproximação à totalidade como uma passagem para condições semelhantes às do crepúsculo, nas quais a nossa visão começa a adaptar-se à menor luminosidade. Os tons quentes podem perder intensidade e a paisagem adquirir temporariamente uma aparência mais fria e invulgar.
No eclipse desta quarta-feira há ainda um elemento adicional: tudo acontecerá perto do final do dia. Em vez de uma diminuição brusca da luz a meio da manhã ou da tarde, Portugal assistirá ao fenómeno com o Sol já baixo, fazendo com que os efeitos do eclipse se aproximem do próprio crepúsculo.
Procure pequenos crescentes no chão
Há um fenómeno especialmente curioso que pode passar despercebido a quem estiver concentrado apenas no céu. Se estiver junto de árvores, olhe para o chão.
Os pequenos espaços existentes entre as folhas funcionam como milhares de câmaras pinhole naturais. Em condições normais projetam imagens circulares do Sol que quase nunca notamos. Durante um eclipse parcial, essas projeções acompanham a forma da parte do disco solar que continua visível.
O resultado pode ser surpreendente: paredes, passeios e o próprio chão podem ficar cobertos por dezenas de pequenos crescentes luminosos. A NASA destaca este efeito entre as manifestações visuais características das fases parciais de um eclipse.
Quanto mais definida for a sombra da árvore, mais fácil poderá ser encontrar estas pequenas imagens do eclipse.
Ouça os pássaros e os insetos
Há séculos que existem relatos de alterações no comportamento dos animais durante eclipses solares. A explicação mais provável está na alteração súbita dos estímulos ambientais que regulam os ciclos diários de muitas espécies, sobretudo a luminosidade e a temperatura.
A NASA criou inclusivamente o projeto científico Eclipse Soundscapes para estudar o fenómeno. Durante eclipses recentes, investigadores e cidadãos registaram os sons produzidos pela vida selvagem antes, durante e depois do máximo.
Entre os comportamentos já observados encontram-se aves que deixam de cantar ou regressam aos locais onde passam a noite, grilos que começam a produzir os sons associados ao anoitecer e abelhas que regressam às colmeias. Isso não significa que todos os animais reajam da mesma maneira ou que estes comportamentos ocorram necessariamente esta quarta-feira em Portugal. Os próprios investigadores salientam que ainda há muito por compreender sobre a resposta das diferentes espécies aos eclipses.
Em Vila Franca de Xira, o EVOA — Espaço de Visitação e Observação de Aves — vai mesmo aproveitar o eclipse desta quarta-feira para realizar uma observação dedicada às aves e às possíveis alterações de atividade provocadas pela mudança de luminosidade.
Até o vento e as nuvens podem reagir
O desaparecimento temporário de grande parte da energia solar também pode produzir pequenas alterações atmosféricas.
Observações realizadas durante eclipses anteriores registaram mudanças na velocidade e na direção do vento. A NASA explica ainda que o arrefecimento da superfície pode reduzir temporariamente a convecção atmosférica. Em determinadas condições, pequenas nuvens convectivas podem diminuir, achatar ou mesmo desaparecer durante o fenómeno.
Não significa que esta quarta-feira as nuvens vão desaparecer precisamente quando mais precisamos delas fora da frente do Sol. As condições meteorológicas continuam a ser determinantes e estes efeitos variam muito de um lugar para outro.
Mas mostram até que ponto um eclipse é mais do que simplesmente a passagem da Lua diante do Sol.
Durante alguns minutos, experimente não fotografar
A distração com fotografias, vídeos e a tentação de acompanhar cada segundo através do telemóvel ou da câmara, pode ser fácil perder precisamente aquilo que torna um eclipse diferente de qualquer outra observação astronómica.
Quando o fenómeno estiver próximo do máximo, olhe para a paisagem. Veja as sombras, repare nas cores, sinta se a temperatura mudou e ouça o que acontece à sua volta.