Tem apenas três mil habitantes e Hollywood acabou de a transformar num dos destinos mais desejados de Itália
Favignana tem cerca de três mil habitantes e foi transformada em Ítaca por Christopher Nolan. Saiba o que fazer e ver nesta pequena ilha da Sicília.
Favignana é uma pequena ilha italiana ao largo da costa ocidental da Sicília, tem cerca de três mil habitantes e, até há pouco tempo, permanecia relativamente afastada dos grandes circuitos internacionais. Mas isso pode estar prestes a mudar. A ilha serviu de cenário para Ítaca em “A Odisseia”, de Christopher Nolan, e o sucesso do filme está a colocar este pequeno pedaço do Mediterrâneo no mapa mundial do turismo.
Matt Damon e Zendaya estão entre os nomes de uma produção que passou vários meses por Favignana e que deixou marcas muito para além das imagens que chegaram ao grande ecrã. Agora, terminado o trabalho das câmaras, começa a sentir-se aquilo a que alguns chamam o “efeito Hollywood”: mais curiosidade internacional, novos investimentos e a expectativa de um aumento significativo do número de visitantes.
Favignana é a maior das ilhas Egadi e encontra-se a cerca de sete quilómetros da costa ocidental da Sicília. No filme, os seus cenários naturais representam Ítaca, a terra natal de Ulisses, interpretado por Matt Damon. O Castello di Santa Caterina, situado no ponto mais elevado da ilha, foi utilizado como palácio do herói.
Hollywood deixou milhões na ilha
A passagem de uma das maiores produções cinematográficas dos últimos anos teve efeitos imediatos na economia local. A equipa de “A Odisseia” permaneceu na ilha durante vários meses, entre o final de 2024 e a primavera de 2025, envolvendo cerca de 500 figurantes e trabalhadores.
Segundo Giuseppe Pagoto, presidente da Câmara de Favignana, as filmagens terão gerado diretamente entre €1 milhão e €2 milhões em despesas na economia local. Hotéis, restaurantes e outros serviços beneficiaram da presença da equipa durante a produção.
A passagem das estrelas também entrou no quotidiano dos habitantes. Christopher Nolan era visto a andar de bicicleta pela localidade e a cumprimentar quem encontrava, enquanto Zendaya, que interpreta Atena, chegou a ser vista sentada na praça a ler um livro.
O efeito Nolan já está a atrair investidores
O impacto poderá tornar-se ainda mais evidente com o aumento do turismo cinematográfico. Investidores da América do Norte, Médio Oriente e Índia já abordaram o município à procura de oportunidades relacionadas com turismo de gama alta, tendo como horizonte a temporada de 2027.
Entre os projetos previstos encontra-se a recuperação do antigo aldeamento turístico Valtur, atualmente abandonado, que deverá dar lugar a um resort de cinco estrelas. O histórico Palazzotto Florio, situado na praça principal, também está a ser convertido num projeto de alojamento de luxo, com abertura prevista para junho de 2027.
Favignana quer transformar “A Odisseia” numa atração
As autoridades querem que a relação com Christopher Nolan permaneça na ilha mesmo depois de terminado o fenómeno em torno da estreia. Com o apoio do departamento de Cultura da Sicília e da Universal Pictures, está prevista uma exposição permanente dedicada a “A Odisseia” na antiga fábrica de processamento de atum Florio, que serviu de quartel-general à produção.
A exposição poderá abrir já em outubro e a intenção é mostrar aos visitantes diferentes etapas da produção, incluindo figurinos e equipamento utilizado durante as filmagens.
O que fazer e ver em Favignana
O cinema pode ser o novo motivo para descobrir Favignana, mas está longe de ser o único. A ilha já era conhecida pelas águas transparentes, enseadas, antigas pedreiras de tufo e por uma paisagem mediterrânica que pode ser facilmente explorada ao longo de alguns dias.
Cala Rossa é provavelmente o postal mais conhecido de Favignana. As águas de diferentes tonalidades de azul contrastam com as antigas pedreiras e formações rochosas que envolvem a enseada. É um dos locais mais procurados para nadar e fazer snorkeling, sobretudo durante os meses de verão.
Bue Marino oferece uma paisagem diferente, marcada pelas antigas pedreiras de tufo que chegam praticamente ao mar. Não é uma praia tradicional de areia, mas uma zona de rocha banhada por águas profundas e transparentes.
Quem procura uma experiência mais próxima de uma praia convencional encontra Cala Azzurra, conhecida pelas águas pouco profundas e pelo fundo claro, ou Lido Burrone, uma das principais praias de areia da ilha e uma opção particularmente procurada por famílias.
Na costa ocidental, Cala Rotonda é outra das enseadas que vale a pena conhecer, enquanto Punta Sottile é especialmente procurada ao final do dia, quando o sol se põe sobre o Mediterrâneo.






Há também uma vila para descobrir
Favignana não se resume às praias. Junto ao porto encontra-se a vila com o mesmo nome, principal núcleo habitado da ilha e um lugar que merece algumas horas de passeio.
O centro é suficientemente pequeno para ser descoberto a pé, percorrendo ruas estreitas entre casas mediterrânicas, pequenas lojas, restaurantes, cafés e esplanadas. A Piazza Madrice é a principal praça da ilha e funciona como um dos pontos de encontro da localidade. O próprio município identifica-a como a praça principal de Favignana.
É sobretudo ao final da tarde e à noite que esta parte da ilha ganha outra vida, depois de muitos visitantes regressarem das praias. É uma boa oportunidade para passear sem pressa pelo centro, jantar ou simplesmente sentar-se numa das esplanadas.
Conhecer a história dos Florio
Um dos edifícios mais emblemáticos da vila é o Palazzo Florio. A história do palácio remonta a 1874, quando Ignazio Florio comprou as ilhas Egadi e encarregou o arquiteto Giuseppe Damiani Almeyda de projetar uma residência, cuja construção começou dois anos depois.
A influência dos Florio permanece visível em diferentes pontos da ilha. Existe inclusivamente a “Via dei Florio”, um percurso que liga locais relacionados com a família, incluindo Palazzo Florio, o monumento dedicado a Ignazio Florio, a igreja de Sant’Antonio, a Camparia, antigas âncoras da tonnara e o Ex Stabilimento Florio.
Entrar na antiga fábrica de atum
O Ex Stabilimento Florio delle Tonnare di Favignana e Formica é um dos lugares mais importantes para compreender a história da ilha. Depois de décadas ligado à pesca e transformação do atum, o enorme complexo industrial foi recuperado e transformado num espaço museológico.
No interior permanecem máquinas, equipamentos, redes, barris, latas utilizadas nas conservas e embarcações associadas à tradicional pesca do atum. O espaço inclui ainda exposições, instalações multimédia e elementos arqueológicos relacionados com a Batalha das Ilhas Egadi.
Segundo os preços divulgados pelo município em 2026, a entrada no Ex Stabilimento Florio custa €10. Existe também um bilhete conjunto para o Ex Stabilimento e Palazzo Florio por €12, enquanto a visita apenas ao Palazzo Florio custa €5.
Subir ao Castello di Santa Caterina
No ponto mais elevado de Favignana encontra-se o Castello di Santa Caterina. A antiga fortificação domina a paisagem da ilha e oferece uma ampla perspetiva sobre Favignana e o Mediterrâneo.
Agora existe outra razão para olhar para o castelo com atenção. Foi este o local escolhido por Christopher Nolan para representar o palácio de Ulisses em “A Odisseia”, tornando-se num dos lugares da ilha mais diretamente associados ao filme.


de Ulisses em “A Odisseia”

merece ser visitado
Descobrir a ilha de bicicleta
Uma das formas mais interessantes de conhecer Favignana é de bicicleta. As dimensões relativamente reduzidas da ilha permitem combinar num mesmo dia diferentes praias, enseadas e locais de interesse, regressando depois à vila.
A bicicleta elétrica pode ser uma alternativa para quem pretende percorrer maiores distâncias com menos esforço. Outra possibilidade é descobrir a costa a partir do mar, através dos passeios de barco que dão a volta à ilha e permitem chegar a enseadas e zonas onde a perspetiva é completamente diferente daquela que se tem em terra.
Aproveitar para conhecer as outras ilhas Egadi
Favignana pode ainda funcionar como base para descobrir as restantes ilhas principais do arquipélago. Levanzo é a mais pequena e destaca-se, entre outros motivos, pela Grotta del Genovese e pelas suas manifestações de arte pré-histórica.
Marettimo oferece uma experiência diferente. Mais montanhosa e selvagem, é conhecida pelos trilhos, grutas marinhas e por uma paisagem menos urbanizada.
Quem tiver vários dias pode, por isso, combinar Favignana, Levanzo e Marettimo numa viagem pelas Egadi, em vez de limitar a estadia apenas à ilha que Christopher Nolan transformou em Ítaca.
De três mil habitantes para 50 mil pessoas no verão
O novo interesse internacional também está a levantar preocupações. Favignana tem cerca de três mil habitantes, mas em determinados dias de verão a população presente pode aumentar para entre 40 mil e 50 mil pessoas.
A pressão já se faz sentir sobre os serviços e poderá aumentar caso o filme provoque uma nova vaga de visitantes. As autoridades locais querem evitar que a ilha enfrente os mesmos problemas de excesso de turismo sentidos noutros destinos italianos.
O município instalou 200 boias de amarração em redor da ilha para impedir que os barcos lancem âncora demasiado perto da costa e está a estudar outras formas de controlar os fluxos turísticos. Uma das possibilidades passa por associar a autorização para levar veículos para Favignana a uma estadia mínima.
Curiosamente, o objetivo não é necessariamente fazer com que os turistas fiquem menos tempo na ilha. As autoridades gostariam de aumentar a duração média das estadias, atualmente de cinco ou seis dias, para entre dez e 15 dias, procurando distribuir melhor os visitantes e os benefícios económicos do turismo.
Onde fica Favignana e como chegar
Favignana pertence ao arquipélago das ilhas Egadi e situa-se ao largo de Trapani, na costa ocidental da Sicília. É a maior das três principais ilhas do arquipélago, juntamente com Levanzo e Marettimo.
A ilha não tem aeroporto. Para quem parte de Portugal, a viagem implica primeiro chegar à Sicília e depois seguir até à costa ocidental da ilha italiana. Trapani é a principal porta de entrada para Favignana, com ligações marítimas que permitem fazer o percurso até à ilha.
Uma vez em Favignana, grande parte da vila pode ser percorrida a pé, enquanto a bicicleta, a bicicleta elétrica e os passeios de barco são algumas das opções para explorar as praias e restantes pontos de interesse.
O que poderá mudar nos próximos anos é a quantidade de pessoas interessadas em fazer precisamente esse percurso. Depois de ter sido escolhida para representar a mítica Ítaca de Ulisses, Favignana ganhou uma exposição mundial que uma pequena ilha mediterrânica dificilmente conseguiria através de uma campanha turística convencional.