Os habitantes de Istambul que conquistam todos os turistas
Istambul é uma cidade de imagens difíceis de esquecer. O Bósforo atravessado…
Istambul é uma cidade de imagens difíceis de esquecer. O Bósforo atravessado diariamente por ferries, as cúpulas e minaretes que desenham o horizonte, a imponência da Santa Sofia, o elétrico vermelho a percorrer a avenida Istiklal ou a Torre de Galata vista entre edifícios são alguns dos cenários que fazem parte do imaginário de quem visita a maior cidade da Turquia.
Mas basta começar a caminhar pelas ruas para descobrir outros habitantes que parecem estar em todo o lado. Dormem à porta das lojas, ocupam cadeiras nos cafés, passeiam pelos jardins dos palácios, entram em mesquitas e chegam a instalar-se tranquilamente em estações de metro. São os gatos de Istambul, uma presença tão habitual que se tornaram praticamente um símbolo da cidade.
Não são simplesmente gatos de rua. Muitos são alimentados e cuidados pelos moradores, comerciantes e autoridades locais, numa relação entre pessoas e animais que surpreende muitos dos turistas que chegam pela primeira vez a Istambul.
Porque há tantos gatos em Istambul?
A presença dos gatos está profundamente ligada à história da cidade. Durante séculos, Istambul foi um dos grandes centros comerciais entre a Europa e a Ásia, recebendo navios provenientes de diferentes partes do mundo. Os gatos viajavam frequentemente a bordo dessas embarcações para ajudar a controlar ratos e outros animais que ameaçavam alimentos e mercadorias.
Ao chegarem aos portos da antiga Constantinopla, muitos acabavam por permanecer em terra. Numa cidade com armazéns, mercados, casas de madeira e enormes quantidades de alimentos armazenados, os gatos desempenhavam um papel importante no controlo das populações de roedores.
Ao longo das gerações, passaram a fazer parte da própria cidade. A relação também foi favorecida pela tradição islâmica de respeito pelos gatos, animais considerados limpos e cuja presença é geralmente aceite nas mesquitas.
É por isso que aquilo que noutras cidades poderia causar surpresa faz parte do quotidiano em Istambul.



e ficaram para sempre



adoram os seus gatos
Os gatos entram até nas mesquitas
Um dos exemplos mais conhecidos desta convivência pode ser observado precisamente em alguns dos monumentos mais visitados da cidade. Não é invulgar encontrar gatos nos espaços exteriores das mesquitas e, ocasionalmente, no seu interior.
A própria Santa Sofia tornou famoso um dos seus habitantes. Gli, um gato de olhos verdes que viveu durante anos no monumento, tornou-se uma pequena celebridade internacional e chegou a ser fotografado durante a visita de Barack Obama a Istambul, em 2009. Morreu em 2020, depois de ter conquistado milhares de seguidores nas redes sociais.
A história de Gli ajudou a mostrar ao mundo algo que os habitantes de Istambul conheciam há muito: os gatos não são vistos apenas como animais abandonados que circulam pelas ruas, mas como parte da comunidade.
Há comida, água e casas espalhadas pelas ruas
Ao percorrer Istambul é frequente encontrar recipientes com água e comida junto a lojas, restaurantes, edifícios e jardins. Em alguns locais existem também pequenos abrigos construídos especificamente para os animais.
Comerciantes alimentam os gatos que vivem junto aos seus estabelecimentos e moradores conhecem aqueles que habitualmente aparecem no bairro. Alguns animais acabam por ter várias pessoas responsáveis pelo seu bem-estar, apesar de continuarem a viver livremente na rua.
Para um turista, pode parecer que determinado gato pertence ao café onde está instalado. Na realidade, poderá simplesmente ter decidido que aquela cadeira é sua e ser tratado como tal por quem trabalha no estabelecimento.
Onde encontrar os gatos de Istambul
Não é necessário organizar um roteiro específico. Quem passar alguns dias na cidade terá provavelmente dezenas de encontros, mas existem zonas onde a presença destes animais é particularmente fácil de observar.
Sultanahmet é uma delas. Nos jardins e ruas que rodeiam a Santa Sofia, a Mesquita Azul e outros monumentos históricos, os gatos circulam entre milhares de visitantes. Também podem ser encontrados nos jardins do Palácio de Topkap? e nas proximidades dos Museus Arqueológicos de Istambul.
Eminönü é outro excelente ponto de observação. Nas imediações do Bazar das Especiarias e junto ao Bósforo, os gatos partilham o espaço com pombos e gaivotas enquanto milhares de pessoas atravessam diariamente esta zona movimentada da cidade.
Fener e Balat são dois dos melhores bairros para os encontrar
Quem quiser afastar-se ligeiramente dos monumentos mais conhecidos pode seguir para Fener e Balat. Estes bairros históricos, conhecidos pelas fachadas coloridas, ruas inclinadas, pequenos cafés e edifícios antigos, são também território de numerosos gatos.
Aqui, os encontros acontecem quase a cada esquina. Há gatos instalados nos degraus das casas, junto às montras, nas esplanadas e sobre os muros, compondo uma das imagens mais características destes bairros.
Do outro lado do Corno de Ouro, Beyo?lu, Galata e sobretudo Cihangir são igualmente conhecidos pela presença dos felinos. Cihangir tornou-se mesmo um dos bairros mais associados aos gatos de Istambul.
Também estão do lado asiático
A procura não precisa de ficar limitada à parte europeia. Basta atravessar o Bósforo de ferry para continuar a encontrá-los.
Kad?köy, com os seus mercados, restaurantes e ruas movimentadas, é um dos melhores exemplos. Mais adiante, Moda oferece um ambiente mais tranquilo, com jardins e zonas junto ao mar onde os gatos fazem parte da paisagem.
Kuzguncuk, no distrito de Üsküdar, é outra possibilidade. O pequeno bairro junto ao Bósforo, conhecido pelas casas coloridas e pelas suas ruas tranquilas, oferece uma imagem bastante diferente da Istambul monumental de Sultanahmet e permite observar esta relação entre moradores e animais num contexto mais residencial.
Istambul tem até um museu dedicado aos gatos
A relação chegou também aos espaços culturais. Na zona de Galata existe um museu dedicado aos gatos e à ligação destes animais com a cidade, reunindo obras e objetos relacionados com o universo felino.
Mas provavelmente nenhum museu consegue explicar esta relação tão bem como alguns minutos passados numa rua de Istambul. Basta observar um comerciante a colocar comida diante da loja, alguém a parar para fazer festas a um gato ou um animal a dormir tranquilamente no meio da agitação.
Tornaram-se estrelas das redes sociais
Os gatos de Istambul ultrapassaram há muito as fronteiras da cidade. Fotografias e vídeos dos animais acumulam milhões de visualizações nas redes sociais e ajudaram a transformar alguns deles em verdadeiras celebridades.
Já foram vistos em estádios, concertos, teatros, transportes públicos e nos principais monumentos. Há vídeos de gatos instalados junto às máquinas de venda de bilhetes do metro ou a ocuparem os melhores lugares de cafés e restaurantes.
O fenómeno ganhou ainda maior dimensão com o documentário “Kedi”, lançado internacionalmente em 2017, que acompanha vários gatos pelas ruas de Istambul e mostra a relação que mantêm com os habitantes.
Para muitos visitantes, estes encontros acabam por tornar-se numa das recordações mais inesperadas da viagem. Pode chegar-se a Istambul à procura da Santa Sofia, do Grande Bazar ou de um passeio pelo Bósforo e regressar a casa com dezenas de fotografias de gatos no telemóvel.
Não acontece apenas em Istambul
Embora Istambul seja internacionalmente conhecida pela relação com os gatos, esta convivência pode ser encontrada noutras regiões da Turquia. Os animais aparecem junto a restaurantes, lojas, zonas costeiras e até em alguns dos sítios arqueológicos mais importantes do país.
Éfeso é um dos exemplos mais curiosos. Entre as ruínas daquela que foi uma das grandes cidades do mundo antigo, os visitantes encontram frequentemente gatos a descansar sobre pedras com milhares de anos ou a caminhar entre colunas e vestígios arqueológicos.
O mesmo acontece noutros destinos turcos. Ainda assim, é em Istambul que esta relação assume uma dimensão difícil de ignorar. Numa metrópole com milhões de habitantes, os gatos conseguiram conquistar o seu próprio espaço e tornaram-se parte da experiência de descobrir a cidade.