Afinal, até onde podemos facilitar as regras às crianças durante as férias? Psicóloga explica
Em tempo de férias devem-se aliviar regras e ser mais permissivo? Esta é uma das questões que muitos pais colocam. Maria Serra Brandão, psicóloga especialista na área do sono, responde a estas e outras dúvidas.
Viajar com crianças não significa levar para as férias todos os horários e regras de casa ao minuto. Mas também não significa esquecê-los durante uma ou duas semanas. Jantares mais tardios, dias inteiros fora, uma cama diferente e até uma mudança de fuso horário alteram inevitavelmente a rotina dos mais novos. A questão é perceber até onde se pode facilitar sem que as férias acabem por ser prejudicadas pelo cansaço.
Maria Serra Brandão, psicóloga especializada em sono e autora do livro Solução Para Noites Tranquilas, defende que viajar com crianças é saudável, mas considera fundamental encontrar um equilíbrio entre a liberdade própria das férias e as necessidades de sono de cada criança.
“Tem que se encontrar um equilíbrio entre alguma flexibilidade, mas também as rotinas que a criança tá habituada a ter e às quais ela deveria desejavelmente já responder bem”, explica.
Férias não significam esquecer os horários
Sair da rotina faz parte das férias e Maria Serra Brandão não vê nisso um problema. A psicóloga admite que se pode abandonar alguma da rigidez dos horários existentes durante o período de escola e trabalho, desde que continuem a ser respeitadas as necessidades fisiológicas da criança.
“A criança não é por chegar às férias que de repente pode passar a dormir só 8 horas durante a noite em vez de 12. Pode haver uma noite pontualmente em que isto acontece porque vamos jantar fora e a criança deita-se naturalmente mais tarde”, exemplifica.
O problema pode surgir quando aquilo que deveria ser uma exceção se transforma na nova rotina das férias. O cansaço vai acumulando e pode acabar por afetar não apenas a criança, mas os programas de toda a família.
“Fomos jantar fora, deitamos todos tarde, a criança não foi dormir à hora que era para dormir e tá tudo bem e vamos todos e divertimos e a criança teve ótima. Agora, no dia seguinte, se calhar acumulou o cansaço e o cansaço acumulado é que às vezes começa a ser um problema.”
Ficar uma manhã no hotel não é perder férias
É precisamente para evitar essa acumulação que a especialista admite que, por vezes, seja necessário alterar os planos. Depois de vários dias mais exigentes ou de uma noite particularmente longa, reservar uma manhã ou mesmo um dia para recuperar pode ser uma estratégia.
“Não é um dia perdido”, sublinha Maria Serra Brandão. Pode significar, por exemplo, regressar ao alojamento para a sesta em vez de insistir que a criança durma na praia ou durante um passeio, sobretudo quando ainda não se adaptou ao novo ambiente. E não há uma fórmula que resulte com todas.
“Há crianças mais sensíveis à saída da rotina do que outras”, lembra a psicóloga, que alerta também para a tendência dos pais para compararem os filhos com outras crianças. “Não podemos comparar, temos é que estar atentos e conhecer bem o nosso filho e as necessidades da nossa criança, do nosso bebé.”
O boneco, a música ou o livro também podem ir de férias
Dormir num quarto de hotel, num apartamento ou numa casa desconhecida representa uma mudança de ambiente, sobretudo para bebés e crianças pequenas. Há, no entanto, elementos de casa que podem viajar na mala e ajudar a tornar esse espaço mais familiar.
“Quanto mais pequeninos os bebés são, mais estas pequenas pistas são importantes”, explica Maria Serra Brandão. A especialista recomenda levar o objeto de consolo e tentar manter um ritual de deitar semelhante ao que existe em casa.
Um boneco, uma música ou o livro que habitualmente antecede o sono podem funcionar como referências num ambiente desconhecido. A ideia é “tentar replicar no ambiente de férias algumas das pistas comportamentais que as crianças reconhecem da sua casa”, proporcionando-lhes maior sensação de confiança e segurança.
E se a sesta calhar a meio de um passeio?
Nem sempre será possível regressar ao alojamento para dormir e isso também não significa que toda a programação das férias tenha de ficar condicionada. Uma criança que habitualmente faz uma sesta a meio do dia pode dormir noutro local, desde que lhe seja dada essa oportunidade.
“Uma criança de um ano ou de um ano e meio que tem que dormir uma sesta a meio do dia, se não dormir essa sesta vai ficar muito impertinente, vai ficar muito rabugenta, vai se calhar condicionar toda a tarde ou toda a noite desta família”, alerta.
A solução pode passar por dormir na praia, no carrinho ou até num restaurante. “As crianças habituam-se a dormir assim também”, assegura a psicóloga. Mais importante do que reproduzir exatamente o local onde a criança dorme habitualmente é tentar respeitar a altura em que o organismo lhe pede descanso e, sempre que possível, manter algumas das referências associadas ao sono.



para o sono das crianças

é autora do livro Solução Para Noites Tranquilas


com crianças
As boas férias começam antes de sair de casa
Há outro conselho que Maria Serra Brandão considera particularmente importante: não esperar pelas férias para resolver dificuldades que a criança já apresenta em casa.
Se os pais sabem antecipadamente que vão viajar, podem trabalhar as rotinas de sono antes da partida, para que a criança reconheça os rituais que depois serão replicados no destino.
“Planeiem para que as crianças em casa se habituem às rotinas, se habituem a ter os rituais de dormir e elas comecem a conhecer estas pistas, porque depois vamos de férias com crianças que sabem dormir e que dormem bem, em vez de irmos de férias com crianças que já trazem de casa hábitos difíceis de governar.”
Uma hora de diferença já pode ter impacto
Quando as férias implicam atravessar fusos horários, o planeamento ganha ainda maior importância. E não são necessárias viagens para o outro lado do mundo para que as crianças sintam a alteração.
“Uma disrupção de uma hora ou uma alteração, a mudança de uma hora já causa disrupção”, explica a profissional. “Se formos atravessar fusos horários, seja de 2 horas ou de uma hora para a frente, já cria impacto, mas quanto mais horas, mais impacto vai criar”, prossegue.
Isso não significa que se devam evitar destinos longínquos. Questionada sobre se é desaconselhável viajar com crianças, a resposta da psicóloga é clara: “Não, de todo.” E acrescenta: “Acho que é saudável para todos fazermos viagens e conhecermos novas culturas, novos ambientes, novas realidades.”
Começar a combater o jet lag antes da viagem
Quanto maior for a diferença horária, mais útil pode ser começar a preparar o organismo ainda antes da partida. A estratégia sugerida por Maria Serra Brandão passa por pequenas alterações progressivas nos horários da criança.
Numa viagem para um destino onde o relógio está várias horas atrasado, como o Brasil, pode começar-se por acordar, almoçar e deitar a criança um pouco mais tarde. “Estamos a falar em diferenças de 15 minutos. Se fizermos todos os dias 15 minutos, ao fim de quatro dias temos 1 hora.”
Se houver mais tempo para preparar a viagem, a diferença torna-se ainda maior. “Ao fim de 8 dias temos 2 horas.” Assim, mesmo numa viagem com quatro horas de diferença, uma semana de preparação pode permitir reduzir antecipadamente uma ou duas horas do desfasamento que o organismo terá de enfrentar no destino.
A escolha dos voos também pode ajudar. “Os voos noturnos é fácil. Dormimos durante a noite, as crianças também”, explica a especialista.
Depois da aterragem, a adaptação deve continuar. Maria Serra Brandão aconselha a começar a fazer as refeições de acordo com o horário do destino assim que possível e a utilizar também a exposição solar para ajudar o organismo a reconhecer o novo horário.