Demolição de bairro densamente povoado de Macau enfrenta muros intransponíveis

As autoridades de Macau avançaram com um plano de demolição do bairro de Iao Hon, um dos locais mais densamente povoados do mundo, mas o projeto enfrenta muros intransponíveis e os residentes não acreditam que a reabilitação avance.

Demolição de bairro densamente povoado de Macau enfrenta muros intransponíveis

O bairro do Iao Hon na península de Macau foi construído nos anos 1970 com sete quarteirões, 46 edifícios e 2.566 unidades, maioritariamente residenciais.

Um inquérito da empresa pública Macau Renovação Urbana (MUR, na sigla em inglês) em julho de 2020 estimou que 12.014 pessoas viviam no bairro, número que remete para uma densidade superior a 140.000 por quilómetro quadrado, e faz do Iao Hon o complexo habitacional mais densamente povoado do planeta.

A deterioração dos edifícios do bairro há muito que começou fazer sentir-se, com fissuras visíveis no betão armado na generalidade das infraestruturas, saneamentos entupidos, e infiltrações.

Francisco Vizeu Pinheiro, arquiteto português a trabalhar em Macau há mais de 30 anos, disse à Lusa que os edifícios “deviam ser reconstruídos”, que “o sistema de água devia ser todo substituído”, e que os prédios deviam dispor de elevadores, atendendo à idade avançada de muitos residentes.

As atuais condições de vida no Iao Hon levaram vários residentes a pedir a renovação do complexo, mas, apesar de planos já aprovados pelas autoridades, ainda não existe uma data oficial para as obras.

Um plano, a cargo da MUR, foi divulgado em abril para apenas um edifício – Son Lei, que é, de facto, um complexo de sete edifícios -, tendo como objetivo aumentar as unidades residenciais do lote de 224 para 236.

O plano prevê o aumento de 20% da área útil bruta por fração, com a altura máxima dos edifícios a atingir os 90 metros e o índice de aproveitamento do terreno a crescer de seis para dez. Pelo menos 35% da área do terreno deverá ser ocupada por espaços verdes, uma raridade no bairro atual.

O ‘site’ Macaobuilding.net, uma plataforma ‘online’ local sobre engenharia e construção, apontou que o início da construção estaria previsto para 2028.

A Lusa questionou a comissão de Planeamento Urbano de Macau da Direcção dos Serviços de Solos, Construção Urbana e Habitação sobre a data prevista para a demolição do bloco em causa, mas não obteve resposta em tempo útil. A MUR também não confirmou a data prevista no ‘site’ de engenharia e construção.

O deputado e engenheiro civil, Leong Hong Sai, admitiu em declarações à Lusa que a data prevista “provavelmente não se concretizará”, devido ao facto de “não haver pessoas suficientes a concordar” com o plano.

Ao abrigo da lei de renovação urbana de Macau, edifícios com mais de 40 anos necessitam de 80% de concordância dos proprietários para qualquer projeto de renovação avançar.

Um estudo da MUR de 2021, que cobriu 70% das unidades do Iao Hon, concluiu que entre os proprietários 90% querem a reconstrução, mas apenas 55,2% estão “dispostos a pagar a sua parte”.

Lam Wing Ioi, ativista e presidente da associação não-governamental Macau Poder do Povo, dedicada à defesa dos direitos da população, em geral, disse à Lusa que o modelo de financiamento atual coloca problemas aos planos de renovação.

“Todos os projetos de reconstrução são autofinanciados. A menos que um promotor imobiliário o adquira, o que seria difícil com o mercado imobiliário atualmente em baixa, ninguém está interessado”, alertou, sugerindo que o Governo crie um fundo dedicado exclusivamente a este projeto.

Chen Wo In, de 81 anos, que comprou o apartamento no Iao Hon na década de 1980, luta há anos pela reabilitação do complexo.

Em abril deste ano, entregou uma carta na sede do Governo a pedir que este lidere o projeto de reabilitação. Quando confrontada pela Lusa que a lei impõe custos aos proprietários pela reabilitação, respondeu com um grito: “É impossível! Não pode ser!”.

Filipe Afonso, um arquiteto português sediado em Hong Kong e no Porto, estima que o plano da Macau Renovação Urbana prevê que cada apartamento T1 irá custar “pelo menos, dez milhões de dólares de Hong Kong (10.968 euros)”, de acordo com preços de mercado.

“Eles [os proprietários] compraram os apartamentos por 20.000 dólares de Hong Kong (2.193 euros) na época. Não têm dinheiro para pagar o preço de mercado atual”, sublinhou.

Numa visita ao bairro com a Lusa, o arquiteto apontou vários “problemas de segurança” e deixou um alerta: “os edifícios estão a desfazer-se, pedaço a pedaço”.

Afonso explicou ainda que os prédios foram construídos como “casas de legos”, com escadas e colunas pré-fabricadas, e que há infiltrações “por todo o lado” nas paredes exteriores, construídas apenas com cimento, o que faz com que “absorvam água como uma esponja”.

O Iao Hon não beneficiou de “qualquer manutenção desde que foi construído, nos anos 1970”, observou o arquiteto, apontando para uma parede exterior e mostrando secções destruídas pela humidade e com várias partes em falta.

Sou Fong, de 71 anos, residente e vendedora de fruta no mercado do Iao Hon, queixou-se à Lusa de que o seu apartamento no quarto andar do edifício apresentado como exemplo por Filipe Afonso “tem infiltrações nas paredes e no teto”.

Chan Kam Peng, de 67 anos, reformada da construção civil, vive no quinto andar do mesmo prédio. Em declarações à Lusa, apelou a que o Governo “deite o edifício abaixo rapidamente”.

“Na minha idade, a vida aqui está a ficar mais difícil, dia após dia. Hei de morrer antes de estes prédios serem mandados abaixo”, desabafou com a mesma frase ouvida pela Lusa aos residentes idosos do Iao Hon uma mão cheia de vezes.

*** Jing Wu (texto), Gonçalo Lobo Pinheiro (fotos), da agência Lusa ***

JW // APL/JMC

By Impala News / Lusa

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