Arquiteto defende que Portugal terá de fazer um grande esforço para se adaptar ao calor
O diretor executivo da Casa da Arquitetura, Nuno Sampaio, defende que Portugal terá de fazer um grande esforço para alterar edifícios e espaços públicos que não estão preparados para defender os cidadãos do calor extremo.
As medidas preconizadas pelo arquiteto, em entrevista à Lusa, passam por eliminar espaços de estacionamento para criar zonas com árvores, proporcionar sombras nos passeios e áreas de descanso ao ar livre, alterações estruturais em edifícios construídos sem proteção contra o calor e alterar o quadro legal, cujo somatório de regulamentos se apresenta aos técnicos como limitador da intervenção e “castrador da criatividade”.
“Isto vai tardar muitos anos, porque as cidades já foram feitas com determinados pressupostos, o tamanho da rua, se leva ou não arborização”, exemplificou Nuno Sampaio, curador da Bienal de Arquitetura Ibero-Americana, marcada para novembro, em Brasília, onde este será um dos quatro grandes temas em debate, a par da necessidade de construção de habitação, da relação com a água e do trabalho com as comunidades.
Recém-chegado de Barcelona, onde participou no Congresso Mundial dos Arquitetos, que decorreu entre 28 de junho e 02 de julho com o tema “Arquiteturas para um Planeta em Transição”, Nuno Sampaio deu o exemplo daquela cidade espanhola, onde foi plantado um milhão de árvores nos últimos anos.
“Têm de se redesenhar passeios, adotar medidas de escoamento de águas, porque a árvore no espaço público tem duas funções: permitir que os peões caminhem de forma protegida e não ao sol, e depois, quando as copas já são mais frondosas, proteger as fachadas da incidência direta dos raios solares”, explicou.
Jardins de proximidade são vistos pelo arquiteto como algo “muito necessário”, assim como a plantação de árvores “em grande quantidade” no espaço público, para torná-lo habitável e seguro face a altas temperaturas e ao sobreaquecimento de habitações de onde, por vezes, as pessoas têm de sair para se refrescarem.
“Isso vai ter de acontecer muito mais rapidamente. Acontece que temos outro problema, as chuvas intensas. Grande parte das ruas está pavimentada, não tem capacidade de absorção desta água que cai muita por metro quadrado em pouco tempo”, sublinhou Nuno Sampaio, temendo que possam acontecer em Portugal enxurradas como as que mataram 92 pessoas em Valência, em 2024.
O desafio que se coloca atualmente aos arquitetos é como construir, com que metodologias, para proteger as populações destas alterações.
“Necessitamos, naturalmente, de comunidades energéticas e que haja produção local de energia”, defendeu.
As coberturas dos edifícios, por seu lado, devem ser espaços de segurança face a uma cheia. “Estamos muito cientes, por exemplo, de que a ribeira do Porto é uma área inundável. Sabemos que tem cheias que acontecem de cinco em cinco anos, a cada 25 anos, a cada 50 anos e a cada 100 anos, com dimensões diferentes”, referiu Nuno Sampaio.
“Uma grande cheia antigamente acontecia de 100 em 100 anos. Agora talvez aconteça com mais frequência. Temos de perceber que as próprias coberturas dos edifícios são espaços que têm de ser aproveitados, não só para meter as estruturas que muitas vezes não cabem — os ares condicionados, os elevadores, essas coisas todas -, mas como zonas de usufruto para quem vive nos edifícios, com vegetação e espaços exteriores de permanência”, sugeriu.
“Os próprios edifícios provavelmente vão ter de mudar”, assumiu o arquiteto, acrescentando que a forma como são projetados os elementos arquitetónicos pode proteger as pessoas, como a instalação de ´brise-soleil´(quebra-sol) ou palas. “Podem proteger as nossas janelas, os nossos envidraçados da entrada do sol no verão”.
Os edifícios com fachadas envidraçadas não são uma boa solução.
“Tem de ser muito bem estudado na própria arquitetura como é que defendemos do sol esses envidraçados que hoje já existem e, sabemos nós, em muito grande escala”, afirmou.
No caso português, destacou, existe ainda “uma grande quantidade” de edifícios construídos nos anos 60, 70 e 80, feitos por profissionais que não eram arquitetos e que têm essa emergência mais “à flor da pele”.
“Há um esforço que o país precisa de fazer para transformar esses milhares de edifícios que hoje não estão preparados, não têm capacidade de defender as pessoas que lá vivem de calores extremos”, alertou o arquiteto.
As causas resultam não só da importação de modelos desadequados, mas também da herança do Estado Novo, segundo Nuno Sampaio. “Houve um decreto-lei de 1963 que permitia que um engenheiro de minas pudesse fazer arquitetura (…) quantos de nós não se lembram de ir a um edifício em que para se fechar a porta da casa de banho, quase tinha de se subir para cima da sanita?”, recordou.
*** Ana Mendes Henriques, da agência Lusa ***
AH // JMR
By Impala News / Lusa