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A geração de filhos únicos que cresceu sozinha e o que isso mudou

Mais de metade dos agregados familiares com crianças na União Europeia são compostos por um filho único. Em Portugal, a tendência agrava-se com mães cada vez mais velhas e menos filhos. O que muda na vida de quem cresce sozinho?

A geração de filhos únicos que cresceu sozinha e o que isso mudou

Pela primeira vez, mais de metade dos agregados familiares com crianças na União Europeia são compostos por filhos únicos. Os dados do Eurostat relativos a 2025 revelam que, das habitações na UE onde existem crianças, 50,2% têm apenas um filho único, tendência que se tem vindo a agravar nos últimos anos.

Em Portugal, o cenário é ainda mais marcante. A taxa de fecundidade fixou-se em 1,41 em 2024, menos de metade dos 3,16 registados em 1960. Uma em cada quatro mulheres portuguesas não tem filhos nem virá a ter. E as que os têm, fazem-no cada vez mais tarde: a idade média do primeiro filho é hoje de 31 anos, segundo dados da investigadora Luísa Loura, diretora da base de estatísticas Pordata.

O que diz a ciência sobre como os filho únicos crescem

Durante décadas, o filho único carregou um estigma: mimado, egoísta, solitário. A ciência, porém, desmentiu esta narrativa de forma consistente. Uma meta-análise de Toni Falbo e Denise Polit, da Universidade do Texas, que reuniu 115 estudos sobre filhos únicos, concluiu que estas crianças não apresentam qualquer desvantagem de desenvolvimento em relação a crianças com irmãos. Pelo contrário, superaram os pares em personalidade, inteligência, adaptabilidade e relação com os pais.

A relação mais intensa com os pais é apontada como o principal fator explicativo. Sem a diluição de recursos que acontece quando há vários filhos, o filho único beneficia de mais tempo, atenção e estimulação intelectual dos progenitores. Estudos confirmam que filhos únicos tendem a ter melhor desempenho académico e maior autoestima do que a média.

O que realmente muda

Crescer sem irmãos tem características próprias que moldam a personalidade de formas distintas. Os filhos únicos desenvolvem habitualmente maior capacidade de entretenimento autónomo, criatividade e independência. Passam mais tempo com adultos do que com pares, o que pode acelerar o desenvolvimento da linguagem e da maturidade emocional.

A principal diferença surge nas competências de negociação e gestão de conflito. Quem tem irmãos aprende desde cedo a disputar, ceder e partilhar num contexto de segurança afetiva. O filho único pode chegar à adolescência com menos prática neste domínio, embora a escola e as relações de amizade compensem frequentemente essa lacuna.

A geração que hoje é maioritariamente filha única é a Geração Z, que enfrenta desafios próprios no mundo do trabalho e nas relações interpessoais. Os pais desta geração, os millennials, foram também pioneiros em adiar a parentalidade e optar por famílias mais pequenas.

O mito do egoísmo

O estereótipo mais persistente sobre os filhos únicos é o do egoísmo. Os estudos não o confirmam. A investigação de Falbo e Polit não encontrou diferenças significativas nos níveis de generosidade, empatia ou capacidade de cooperação entre filhos únicos e filhos com irmãos.

O que os estudos sugerem é que o egoísmo, quando existe, está mais relacionado com o estilo parental do que com a ausência de irmãos. Pais que compensam a culpa de ter um só filho com excesso de cedências criam condições para comportamentos egocêntricos, independentemente da estrutura familiar.

Os millennials, geração que mais filhos únicos criou, são também aqueles que mais tarde perderam a virgindade e mais se focaram na carreira em detrimento da família.

Hábitos que os pais transmitem

Crescer com um pai ou mãe muito presente tem também consequências positivas documentadas. A tendência para o exercício físico é transmitida de pais para filhos de forma mais eficaz em famílias com menos crianças, onde cada filho recebe mais atenção individualizada.

A proteção digital é também um tema central na criação de filhos únicos. A maioria dos pais apoia a proibição de crianças nas redes sociais, numa tendência crescente de hipervigilância parental que se observa sobretudo em famílias com um só filho.

O impacto no envelhecimento da população

A tendência para ter menos filhos ou apenas um tem consequências que vão muito além da dinâmica familiar. As projeções do INE apontam para que, em 2070, Portugal tenha cerca de um milhão de pessoas com 75 ou mais anos que, no máximo, terão uma pessoa da família que lhes pode prestar apoio. São pessoas que hoje têm entre 30 e 40 anos e que, quando precisarem de apoio familiar, não terão irmãos, muitas vezes não terão filhos nem netos.

Um estudo recente sobre solidão em Portugal confirma que o isolamento social é já um problema de saúde pública com dimensão crescente, precisamente nas faixas etárias mais velhas.

Filho único por escolha ou por circunstância

Nem todos os filhos únicos o são por opção dos pais. Em muitos casos, a ausência de irmãos resulta de infertilidade, doença, separação, condições económicas ou simplesmente do adiamento da maternidade. Em Portugal, a infertilidade afeta já um em cada seis casais.

O custo de vida, a precariedade habitacional e a instabilidade laboral são também fatores determinantes. A família foi a principal razão para emigrantes de primeira geração terem deixado Portugal, numa equação que inclui a dificuldade de criar filhos num país com salários baixos e habitação cara.

Luís Martins; WiN
Imagem Pexels

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