Preço do gás doméstico está a sufocar o poder de compra das famílias portuguesas

Portugal regista o 2.º preço mais alto de gás doméstico da UE em Paridade de Poder de Compra. Saiba como a inflação energética afeta as famílias.

Preço do gás doméstico está a sufocar o poder de compra das famílias portuguesas

As famílias portuguesas enfrentam uma das faturas de gás doméstico mais pesadas da União Europeia. Dados recentes do Eurostat, analisados no fecho do segundo semestre de 2025, confirmam que Portugal é o segundo país onde o gás natural é comparativamente mais caro, quando ajustado à Paridade de Poder de Compra (PPC). Esta métrica, essencial para compreender o esforço real do consumidor, revela que o custo da energia consome uma fatia do orçamento familiar muito superior à média europeia.

“A rigidez da estrutura de custos em Portugal impede que as famílias beneficiem de períodos de maior estabilidade nos mercados internacionais”

O peso real no orçamento familiar

Embora o preço nominal em euros possa oscilar, a Paridade de Poder de Compra serve como o fiel da balança para aferir quanto custa, efetivamente, aquecer uma habitação ou cozinhar em Portugal face aos rendimentos médios. Com um valor de 17,04 euros por 100 kWh em PPC, os consumidores nacionais apenas encontram pior cenário na Suécia (17,16 euros).

Para termos de comparação, a média da União Europeia situa-se nos 12,28 euros. Na prática, um agregado familiar em Portugal faz um esforço financeiro cerca de 40% superior ao da média dos vizinhos europeus para manter o mesmo nível de consumo. No extremo oposto da tabela, países como a Hungria ou o Luxemburgo apresentam valores que não chegam sequer a metade do custo registado em solo português.

Fiscalidade impede descida de preços

O agravamento do custo do gás doméstico é indissociável da carga fiscal e da estrutura de custos do setor. Com o fim progressivo das medidas excecionais de apoio que foram implementadas durante a crise energética, os impostos voltaram a pesar significativamente na fatura final. Atualmente, os tributos representam cerca de um terço do valor pago pelos consumidores, o que anula grande parte das descidas registadas nos mercados grossistas internacionais.

“A rigidez da estrutura de custos em Portugal impede que as famílias beneficiem de períodos de maior estabilidade nos mercados internacionais”, apontam especialistas do setor energético. Esta barreira fiscal, aliada ao baixo poder de compra médio em Portugal, cria um fosso entre o acesso à energia e a capacidade financeira da população.

Assimetrias na Península Ibérica

A comparação com Espanha reforça o isolamento de Portugal neste indicador. Apesar de partilharem o mercado ibérico, a diferença no poder de compra real torna a fatura portuguesa substancialmente mais penosa. Enquanto noutras geografias a energia é vista como um serviço básico de custo controlado, em Portugal o gás natural consolidou-se como fator de pressão económica constante sobre as classes média e baixa.

A tendência de subida observada no final de 2025 reflete o regresso à sazonalidade pré-pandemia, mas com uma agravante: os preços base estabilizaram num patamar muito superior ao de há cinco anos. Para o consumidor final, o resultado é uma perda direta de rendimento disponível para outras necessidades básicas.

Perspetivas de estabilização

Sem novas intervenções regulatórias ou uma revisão profunda da fiscalidade energética, o cenário dificilmente sofrerá alterações drásticas no curto prazo. A dependência de fontes externas e os custos de infraestrutura continuam a ser repassados para o cliente doméstico. Portugal mantém-se, assim, num pódio europeu indesejado, onde a energia é tratada quase como um artigo de luxo face aos salários praticados no país.

Luís Martins; WiN
Imagem Lusa

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