Candeeiros de rua estão a matar insetos em espirais da morte e a ciência acaba de perceber porquê

Investigadores descobriram que a luz artificial dos candeeiros de rua pode prender milhares de bichos-de-conta em espirais circulares que nunca foram observadas na natureza. O fenómeno foi publicado a 6 de julho na revista científica Current Biology e muda o que se sabe sobre o impacto da luz artificial nos insetos.

Candeeiros de rua estão a matar insetos em espirais da morte e a ciência acaba de perceber porquê

Durante décadas, a ideia de que a luz artificial atrai insetos foi aceite sem grande questionamento. Os insetos voam em direção às lâmpadas, ficam presos na luz, morrem. Simples. Mas um estudo publicado a 6 de julho na revista Current Biology revela que o fenómeno é muito mais estranho e muito mais perturbador do que se pensava.

Os investigadores descobriram que candeeiros de rua podem prender milhares de percevejos isópodes, os chamados bichos-de-conta, em espirais. Os animais caminham em círculos repetidos, incapazes de se afastar da fonte de luz, num comportamento nunca antes observado na natureza e que os cientistas descrevem como espirais da morte.

Como funciona o efeito espiral

A explicação está na forma como os insetos usam a luz para se orientar. Durante milhões de anos, evoluíram a usar fontes de luz distantes – a Lua, as estrelas – como bússola. Estas fontes estão tão longe que a luz chega praticamente em linhas paralelas, o que permite ao inseto manter uma posição angular constante em relação a ela e voar em linha reta.

Um candeeiro de rua emite luz em todas as direções a uma distância próxima. Quando um inseto tenta manter uma posição angular constante em relação a esta fonte próxima, acaba por girar em torno dela em espiral, cada vez mais perto, incapaz de escapar. É uma armadilha evolutiva: o instinto de navegação que funcionou durante eras torna-se uma sentença de morte perante a tecnologia humana.

Os investigadores usaram câmaras de alta velocidade para filmar o comportamento dos bichos-de-conta em torno de fontes de luz artificial, revelando pela primeira vez a geometria exata do movimento em espiral.

Um problema maior do que parece

O impacto da luz artificial nos insetos vai muito além do incómodo visual. São atraídos pela luz artificial de forma perturbadora, mas este estudo mostra que o efeito é ainda mais sistemático e letal do que se suspeitava.

A extinção dos insetos teria consequências gravíssimas para os ecossistemas e para a alimentação humana. Sem insetos polinizadores, o fim das abelhas significaria o fim de grande parte dos alimentos que consumimos. E o declínio das populações de insetos é uma das tendências mais documentadas da biologia contemporânea.

A poluição luminosa – o excesso de luz artificial noturna produzida por cidades, estradas e outras infraestruturas – é hoje reconhecida como uma das principais ameaças à biodiversidade dos insetos. Este novo estudo acrescenta um mecanismo concreto e visível a essa ameaça.

O que podemos fazer

A solução não é apagar os candeeiros. Mas a escolha do tipo de luz importa. As lâmpadas LED com espetros de cor mais quentes, que emitem menos comprimentos de onda azul e ultravioleta, atraem significativamente menos insetos do que as lâmpadas de mercúrio ou de sódio antigas. Reduzir a intensidade luminosa noturna nas zonas de maior biodiversidade e usar sistemas de iluminação direcionada, que iluminam apenas para baixo em vez de em todas as direções, são medidas que os investigadores recomendam com base em estudos como este.

Os insetos têm sido usados de formas inesperadas pela tecnologia humana — dos insetos-ciborgue para espionagem militar às propostas de incluir insetos na alimentação humana como fonte de proteína sustentável. Mas a relação entre a humanidade e os insetos tem uma dimensão que raramente recebe a atenção que merece: dependemos deles muito mais do que eles dependem de nós.

Luís Martins; WiN
Imagem artificial

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