Portugal trabalha mais do que a média europeia e ganha menos

Portugal é o 5.º da UE em carga horária semanal. Trabalha 39,7 horas por semana e o salário médio fica abaixo da média europeia.

Portugal trabalha mais do que a média europeia e ganha menos

Em média, as horas de trabalho em Portugal são superiores à da Europa, mas ganha-se menos cá do que lá fora.. Segundo a análise da Pordata baseada em dados do Eurostat de 2025, os trabalhadores portugueses fazem em média 39,7 horas por semana, colocando o país no 5.º lugar da UE com maior carga horária semanal. A média da União Europeia fixa-se nas 37 horas semanais, uma diferença de quase três horas por semana, o equivalente a mais de duas semanas de trabalho extra por ano.

Apenas a Grécia (41 horas), a Polónia (40 horas), a Roménia (40 horas) e a Bulgária (39,9 horas) registam valores superiores aos portugueses. Do lado oposto, os Países Baixos têm a semana de trabalho mais curta da UE, com apenas 31,9 horas, seguidos de Dinamarca e Alemanha, ambas com 33,9 horas.

Portugal trabalha mais e ganha menos

O paradoxo português não é apenas o das horas. É também o do salário. O salário médio ajustado a tempo completo em Portugal era, em 2024, de cerca de 2.068 euros mensais, bastante abaixo da média europeia de 3.317 euros, segundo a Pordata. Por outras palavras: os portugueses trabalham das semanas mais longas da Europa e recebem menos de dois terços do salário médio europeu.

O salário mínimo nacional subiu para 920 euros brutos em 2026, o que representa um aumento progressivo nos últimos anos. Ainda assim, o valor português mantém-se distante do patamar médio dos países da UE com remuneração mínima, fixado nos 1.346 euros mensais, segundo o Eurostat.

Quem trabalha mais perto das 50 horas

Para além da média, Portugal destaca-se também pela percentagem de trabalhadores que operam perto das 50 horas semanais, um dos indicadores mais usados para medir o excesso de trabalho. Segundo dados do Eurostat, Portugal é um dos países da UE com maior percentagem de trabalhadores neste patamar, a par de países do leste europeu.

Este fenómeno é mais pronunciado em sectores como a construção, a restauração, o comércio e a agricultura, sectores em que Portugal tem presença muito acima da média europeia e onde os horários irregulares e as horas extraordinárias não pagas são uma realidade comum.

A precariedade que agrava o problema

A carga horária elevada coexiste com níveis de precariedade laboral igualmente preocupantes. Em Portugal, 15,1% dos trabalhadores por conta de outrem têm contratos temporários, colocando o país entre os cinco com valores mais altos na UE, a par dos Países Baixos, Polónia, França e Espanha.

Entre os jovens, a situação é ainda mais grave: o trabalho temporário é a realidade de um em cada três trabalhadores com menos de 30 anos. É uma geração que trabalha mais horas, ganha menos e tem menos estabilidade, e que, por isso, continua a emigrar em números significativos. A família é, aliás, a principal razão apontada pelos emigrantes de primeira geração para terem deixado Portugal.

O que dizem os especialistas

A Pordata sublinha que “países com maior prevalência de trabalho a tempo parcial, como os Países Baixos, Dinamarca ou a Alemanha, registam cargas horárias médias significativamente mais baixas”. A lição parece clara: mais horas não significa mais produtividade nem mais salário. Significa apenas mais tempo passado no trabalho.

Portugal aprovou em 2023 legislação que regula o teletrabalho e limitou os contactos laborais fora de horas. Mas os dados do Eurostat mostram que, na prática, os horários longos continuam a ser uma realidade para muitos portugueses, que trabalham mais do que os parceiros europeus e ganham menos por cada hora que passam a trabalhar.

Luís Martins; WiN
Imagem Pexels

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