Quase metade das cidades europeias bate recordes de stress térmico na onda de calor

Quarenta e cinco por cento das cidades europeias bateram ou estão prestes a superar os máximos históricos de stress térmico durante a atual onda de calor. Um estudo do World Weather Attribution analisou 854 cidades em 30 países e concluiu que este fenómeno teria sido “praticamente impossível” há apenas 50 anos.

Quase metade das cidades europeias bate recordes de stress térmico na onda de calor

A nova onda de calor que está a atingir a Europa está a bater recordes históricos em quase metade das cidades do continente. Um estudo publicado hoje pelo World Weather Attribution analisou 854 cidades em 30 países europeus e concluiu que 385 localidades, 45% do total, ultrapassaram ou poderão ultrapassar nos próximos dias os registos mais elevados de stress térmico alguma vez registados.

O indicador utilizado, conhecido pela sigla WBGT, combina temperatura, humidade, velocidade do vento e radiação para calcular o impacto real do calor no organismo humano. É uma medida mais precisa do que a simples temperatura do ar para avaliar os riscos para a saúde, e é precisamente por isso que os resultados são tão preocupantes.

Onda de calor teria sido impossível há 50 anos

O dado mais perturbador do estudo é a comparação histórica. A atual onda de calor teria sido “praticamente impossível” há apenas 50 anos: as temperaturas registadas numa onda de calor equivalente em 1975 seriam 3,5 graus Celsius mais baixas, tanto de dia como de noite.

As noites quentes, que são um dos fatores que mais afetam a saúde porque impedem o organismo de recuperar, são hoje 100 vezes mais prováveis do que eram em 2003, quando a Europa viveu a sua onda de calor mais mortífera do século XX, com mais de 70 mil mortos. As temperaturas máximas diurnas são até 10 vezes mais frequentes do que eram nessa mesma data.

Em Portugal, a onda de calor de maio foi a segunda mais longa de sempre e a foi também a terceira mais longa com 9,3 dias, o que enquadra a atual vaga num padrão de agravamento progressivo. O país já enfrentou uma segunda onda de calor mas no futuro pode ter dez por ano.

Os riscos para a saúde

Os investigadores alertam que a combinação de temperaturas extremas e elevada humidade aumenta significativamente os riscos para a saúde, especialmente entre idosos, trabalhadores ao ar livre, crianças e pessoas com condições de vulnerabilidade. O calor húmido perigoso é um fenómeno que mais do que duplicou desde 1970 e os seus efeitos são particularmente insidiosos porque dias aparentemente amenos, com temperatura moderada mas humidade elevada, podem ser mais perigosos do que uma onda de calor seco.

É importante reconhecer os sinais de alarme do calor extremo e saber o que fazer. Tonturas, dores de cabeça intensas, pele seca e quente sem transpiração, confusão mental e cansaço extremo são sinais de que o organismo está em dificuldade. Em dias de calor, a alimentação também pode ajudar o corpo a manter-se fresco e hidratado.

Um ‘disco riscado’

A investigação atribui a intensidade crescente destes fenómenos ao impacto do aquecimento global, provocado pelas emissões contínuas de combustíveis fósseis. As declarações dos cientistas envolvidos são reveladoras da frustração que o tema gera.

“A ciência que explica como as alterações climáticas estão a agravar as ondas de calor é indiscutível e a velocidade da mudança é alarmante. A cada poucos anos temos assistido a recordes de calor na Europa, mas este ano isso aconteceu em meses consecutivos”, afirmou Theodore Keeping, investigador do Imperial College de Londres.

A professora Friederike Otto, do mesmo instituto, foi mais direta. “Sim, isto são as alterações climáticas. Sim, somos nós os responsáveis. Não, não é o El Niño. Sim, temos as soluções. Não, não as estamos a aplicar com a rapidez suficiente.” E acrescentou com amargura que os cientistas começam a parecer “um disco riscado”.

O secretário executivo da ONU para as alterações climáticas, Simon Stiell, apelou a uma “transição mais rápida para as energias limpas, que agora são muito mais baratas do que os combustíveis fósseis, bem como a proteção das florestas e a promoção da resiliência climática”. Os dados são claros. A urgência também. A velocidade da resposta é que continua a ser a grande questão.

Luís Martins; WiN
Imagem Lusa

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