Por que vemos rostos em nuvens, árvores, torradas e paredes: a ciência explica
Já viu um rosto numa nuvem, numa torrada ou numa mancha na parede? Não é imaginação excessiva nem superstição. É pareidolia, o fenómeno pelo qual o cérebro humano deteta padrões familiares, sobretudo rostos, em estímulos aleatórios. E acontece a toda a gente, inevitavelmente.
Chama-se pareidolia e é uma das características mais fascinantes do cérebro humano. O termo vem do grego: “para” significa “ao lado de” ou “além de”, e “eidolon” significa “imagem” ou “forma”. Em conjunto, descrevem o fenómeno de perceber uma imagem reconhecível onde não existe nenhuma de forma objetiva.
A pareidolia manifesta-se de formas quase infinitas. O rosto de Jesus numa torrada. A cara de um homem na superfície da Lua. Um animal nas nuvens. Dois olhos e uma boca numa tomada elétrica. Uma cara assustada numa placa de carro. O rosto de Marte, a famosa fotografia captada pela Viking 1 em 1976 que alimentou décadas de especulação sobre vida no planeta vermelho, é talvez o exemplo mais famoso da pareidolia na história da exploração espacial.
Por que faz isto o cérebro
A pareidolia não é uma falha do sistema. É uma consequência direta de como o cérebro humano evoluiu para processar informação visual. O cérebro é, acima de tudo, uma máquina de reconhecimento de padrões. E os rostos são os padrões mais importantes que aprendemos a identificar ao longo de milhões de anos de evolução.
A capacidade de reconhecer rapidamente um rosto, e em particular os olhos de outro ser humano, foi determinante para a sobrevivência: permitia detetar ameaças, identificar aliados e interpretar intenções em frações de segundo.
O resultado é um sistema tão sensível e tão bem calibrado para a deteção de rostos que acaba por disparar mesmo quando não há nenhum rosto presente. O cérebro prefere ter um falso positivo, ver um rosto onde não existe nenhum, do que correr o risco de perder um rosto real. Do ponto de vista evolutivo, enganar-se ao ver um rosto numa pedra não tem consequências. Deixar de ver o rosto de um predador ou de um inimigo podia ser fatal.
O que acontece na nossa cabeça
A neurociência identificou as estruturas cerebrais envolvidas na pareidolia. A região central é o giro fusiforme, área do córtex temporal que está especialmente dedicada ao reconhecimento de rostos. Esta área ativa-se automaticamente, antes mesmo de o pensamento consciente entrar em ação, sempre que o cérebro deteta algo que se assemelha à configuração básica de um rosto: dois elementos simétricos no topo e um elemento mais baixo ao centro, a configuração olhos-nariz-boca.
Estudos de neuroimagem mostram que, quando as pessoas veem imagens ambíguas que interpretam como rostos, o giro fusiforme e outras regiões associadas ao processamento social e emocional ativam-se da mesma forma que ativam ao ver rostos reais. O cérebro não distingue, nesse primeiro momento automático, entre um rosto verdadeiro e um padrão que apenas se parece com um.
Pareidolia auditiva
A pareidolia não se limita à visão. Existe também a pareidolia auditiva, que leva as pessoas a ouvir palavras ou frases em sons aleatórios, como ruído branco, música a tocar ao contrário ou gravações ao telefone com muito ruído de fundo. Este fenómeno está na origem de muitas das alegadas “mensagens subliminares” em músicas e de relatos de vozes em gravações de locais supostamente assombrados.
A pareidolia auditiva funciona pelo mesmo princípio: o cérebro humano está tão treinado para reconhecer linguagem e voz que encontra padrões sonoros familiares mesmo onde não existem.
Quem tem mais pareidolia
A intensidade da pareidolia varia de pessoa para pessoa. Estudos sugerem que pessoas mais criativas e com maior tendência para o pensamento associativo tendem a experimentar pareidolia com mais frequência. Pessoas com maior atividade dopaminérgica no cérebro, como acontece em alguns estados de euforia ou em certas condições psiquiátricas, também reportam pareidolia mais intensa.
A crença religiosa e a tendência para atribuir intenção a eventos aleatórios, o que os psicólogos chamam de “pensamento agentivo”, também estão associadas a uma maior frequência de pareidolia. Não é coincidência que a maioria dos casos mediáticos de pareidolia, o rosto de uma figura religiosa numa torrada, numa janela embaciada ou numa nuvem, envolva pessoas com forte sentido de significado e propósito.
Por que partilhamos tanto
Há uma razão para as imagens de pareidolia se tornarem virais tão facilmente. Quando alguém partilha uma fotografia de uma tomada elétrica que parece um rosto assustado ou de uma árvore que parece gritar, está a partilhar uma experiência universal. Toda a gente vê o mesmo. Toda a gente sorri. É uma das formas mais simples de envolvimento social que o mundo digital criou: a pareidolia une as pessoas porque é, literalmente, um traço humano partilhado por todos.
Da próxima vez que vir um rosto numa nuvem, já sabe: não é a sua imaginação a pregar-lhe partidas. É o seu cérebro a fazer exatamente aquilo para que foi construído.