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O que têm em comum as pessoas que vivem até aos 100 anos

Cinco regiões do mundo têm taxas de centenários dez vezes superiores à média. Não é genética, não são suplementos, não são dietas milagrosas. O que descobriu a ciência vai surpreendê-lo.

O que têm em comum as pessoas que vivem até aos 100 anos

Há regiões no mundo onde viver até aos 100 anos é quase banal. Não por acaso, não por genética privilegiada, mas por um conjunto de hábitos tão simples que a medicina convencional demorou décadas a levá-los a sério. O investigador e explorador da National Geographic Dan Buettner passou mais de 20 anos a estudá-los com equipas de epidemiologistas, geneticistas e demógrafos, em cinco regiões que batizou de Zonas Azuis.

O ponto de partida da sua investigação é, por si só, desconcertante. Segundo o Danish Twin Study, apenas 20% da longevidade humana é determinada pelos genes. Os restantes 80% dependem do estilo de vida e do ambiente em que vivemos. Por outras palavras: a maior parte do nosso destino biológico está nas nossas mãos.

Em Portugal, a esperança de vida tem crescido de forma consistente nas últimas décadas, com as mulheres a ultrapassar os 83 anos e os homens a aproximar-se dos 78. Mas viver até aos 100 anos, e fazê-lo com saúde e autonomia, é uma aspiração completamente diferente. É exatamente isso que as Zonas Azuis ensinam.

Cinco lugares, uma mesma lição

Sardenha, Okinawa, Loma Linda na Califórnia, a península de Nicoya na Costa Rica e a ilha grega de Ikaria não têm praticamente nada em comum à primeira vista. Culturas diferentes, línguas diferentes, histórias completamente distintas. E, no entanto, quando os investigadores começaram a comparar os dados, tinham padrões quase idênticos.

Na região de Barbagia, no interior da Sardenha, encontra-se a maior concentração de homens centenários do mundo. Não por nenhuma fórmula mágica, mas porque os homens sardos caminham todos os dias em terreno acidentado, comem pouco, bebem vinho local com moderação ao fim do dia e mantêm laços familiares e comunitários muito fortes.

Em Okinawa, as mulheres são as mais longevas do planeta, e a sua longevidade não se explica só pela batata-doce ou pela cúrcuma. Explica-se pelo Moai: os grupos de cinco amigos formados na infância e mantidos pela vida inteira, que funcionam como rede de suporte emocional, financeiro e social.

Na Califórnia, no meio da cultura do fast food e do consumo acelerado, uma comunidade de Adventistas do Sétimo Dia em Loma Linda vive em média dez anos mais do que os seus vizinhos. Não fumam, não bebem, comem sobretudo vegetais e descansam rigorosamente aos sábados.

Na Costa Rica, os habitantes da península de Nicoya têm a taxa mais baixa de mortalidade por doenças cardíacas do mundo e vivem guiados pelo que chamam plan de vida: um propósito claro para cada dia. Em Ikaria, a demência é quase inexistente, as doenças cardíacas são raras e ninguém parece ter pressa para chegar a lado nenhum.

O que a ciência concluiu

Quando Buettner e os seus colaboradores sistematizaram as conclusões, o que emergiu não foi uma dieta nem um regime de exercício. Foi um modo de estar no mundo.

Em todas as Zonas Azuis, o movimento é constante, mas nunca formal. Nenhum centenário vai ao ginásio. Caminham até ao campo, sobem e descem escadas, cuidam da horta. A tendência para manter este estilo de vida ativo passa de geração em geração. A alimentação é maioritariamente vegetal, com carne em pequenas quantidades e poucas vezes por semana. Ninguém conta calorias.

Mas o fator que mais surpreendeu os investigadores foi outro. As pessoas das Zonas Azuis têm um propósito, uma razão clara para acordar de manhã. Em Okinawa chamam-lhe Ikigai. A ciência confirmou o que estes povos sempre souberam: as pessoas com um propósito de vida vivem em média sete anos mais do que as que não o têm, segundo um estudo publicado no JAMA Network Open.

A isto junta-se o que talvez seja o elemento mais subestimado de todos: a pertença a uma comunidade. Não existe uma única Zona Azul onde as pessoas envelheçam sozinhas. A solidão, pelo contrário, tem consequências físicas documentadas, e em Portugal, 70% dos idosos são afetados por ela.

O que o sangue dos centenários revela

Nos últimos anos, a ciência começou a olhar para dentro. Um estudo publicado na revista GeroScience analisou os biomarcadores sanguíneos de mais de 44 mil suecos ao longo de 35 anos. Destes, 1.224 chegaram aos 100 anos. A conclusão foi clara: quem vive mais tempo tinha, a partir dos 60 anos, níveis consistentemente mais baixos de glicose, creatinina e ácido úrico. Quem tinha estes marcadores elevados tinha significativamente menos probabilidade de chegar ao século.

Os dados não contradizem o que as Zonas Azuis ensinaram. Confirmam-no: a longevidade não é uma questão de um único fator, mas de escolhas consistentes ao longo de décadas.

O espelho português

Portugal tem todos os ingredientes de uma Zona Azul em potencial. A dieta mediterrânica, o azeite, as leguminosas, o peixe, o convívio à mesa, a cultura do café e da conversa. Tudo isto está na nossa tradição. O problema está noutro lado: no isolamento crescente dos idosos, na perda das redes de proximidade e numa sociedade que envelhece rapidamente mas ainda não sabe como cuidar dos seus mais velhos.

As portuguesas com mais de 65 anos são das mais afetadas: têm pior saúde do que os homens da mesma idade, menos anos de vida saudável após a reforma e maiores dificuldades no acesso a cuidados. É exatamente o perfil oposto ao das mulheres de Okinawa. A diferença não está nos genes. Está nas escolhas e nas condições que a sociedade cria, ou não, para que essas escolhas sejam possíveis.

Luís Martins; WiN
Imagem Pexels

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