Vereador PS em Gaia considera “gravíssima” postura do executivo perante notícia da Lusa
O vereador socialista na Câmara de Gaia João Paulo Correia considerou hoje “uma preocupante intolerância ao escrutínio público” a postura do executivo de Luís Filipe Menezes que acusou a agência Lusa de “tentativa de manipulação”.
“O ataque do presidente da Câmara Municipal de Gaia à agência Lusa e ao jornalismo livre é gravíssimo e revela uma preocupante intolerância ao escrutínio público. A linguagem e os termos usados são inaceitáveis em qualquer circunstância”, considerou João Paulo Correia.
Num texto publicado na sua conta na rede social Facebook, o vereador socialista, que é oposição em Gaia, no distrito do Porto, ao executivo eleito pela coligação PSD/CDS-PP/IL, considerou a reação da liderança de Luís Filipe Menezes “ainda mais injustificável perante uma notícia assente em factos e informação publicada pela própria Câmara Municipal de Gaia em Diário da República”.
Em causa está um comunicado publicado nas redes sociais da câmara de Gaia que acusou a Lusa de “tentativa de manipulação”, que qualifica de “lastimável, mentirosa e reles”, além de “habitual”, na sequência da publicação de uma notícia que dava conta da anulação de um concurso para 136 funcionários no dia seguinte à informação da abertura de concursos para 93 cargos de chefias na mesma autarquia.
“A anulação de 16 concursos de admissão de pessoal não poupam recursos à Câmara. Alguns deles serão substituídos por contratações externas, mais caras. Estavam em causa concursos maioritariamente para áreas operacionais, que continuarão deficitárias. Por outro lado, o comunicado da Câmara Municipal, ao afirmar que as chefias para as quais abriu 93 vagas são ‘quase 100% de funcionários/quadros’ já integrados na autarquia, pelo que não oneram as finanças municipais, está a faltar à verdade e, ao mesmo tempo, a anunciar (!) uma ilegalidade”, escreveu João Paulo Correia.
O socialista, que é recandidato à liderança da concelhia do PS em Gaia e foi o cabeça de lista deste partido nas autárquicas de outubro do ano passado, questionou ainda: “Se estão em curso concursos públicos como é que a Câmara (presidente) pode estar já a concluir que nenhum candidato externo vai ganhar?! As escolhas estão feitas antes mesmo de lançar os concursos?!”
Lembrou, ainda, que “nas primeiras semanas do mandato o presidente da câmara substituiu parte das chefias por dirigentes vindos de fora dos quadros da câmara. Há seis meses não pertenciam aos quadros da câmara! Faltou dizer isto! Por que será?!”
A Lusa pediu uma reação à Câmara Municipal de Gaia que, numa mensagem enviada por escrito, referiu hoje que “95% dos candidatos são funcionários da Câmara”.
“Há vários para cada cargo mas, mesmo assim, e não sabendo quem vai ganhar, será um funcionário da Câmara já que quase 100% são funcionários da Câmara. Em metade dos concursos só há um candidato, também funcionário da Câmara”, respondeu o executivo.
Na sexta-feira, também a Federação Distrital do Porto do PS expressou preocupação com o ataque “grave e incompatível com os princípios de uma sociedade democrática” do executivo municipal de Vila Nova de Gaia à Lusa.
Numa nota divulgada na quinta-feira, a Direção de Informação (DI) da Lusa disse ter enviado uma carta a Luís Filipe Menezes “repudiando acusações que o seu executivo dirigiu à agência”.
Na carta a Menezes, a DI criticou a postura do executivo, depois de acusar a agência de “tentativa de manipulação”.
O comunicado, em termos que a DI considerou “muito gravosos para a agência e para o jornalismo”, refere-se a uma notícia da Lusa publicada no Jornal de Notícias e baseada em informações publicadas no Diário da República.
A DI da Lusa disse ter falado com os jornalistas, que apontaram que “foi dada oportunidade à câmara de se pronunciar sobre os factos noticiados, o que não foi aceite”, acabando o comunicado por ser publicado “pouco depois”.
“A DI manifestou ainda o seu repúdio pelos termos em que o comunicado se refere ao assunto, extrapolando para o exercício da profissão de jornalista, por palavras que só podemos considerar ofensivas e lamentáveis”, de acordo com a nota.
A DI disse estar preocupada com a repetição de casos deste tipo, apontando que o jornalismo “é uma profissão que só pode ser exercida em liberdade”.
O Conselho de Redação da Lusa expressou, em comunicado, apoio à DI.
“As acusações dirigidas à Lusa pela Câmara Municipal de Gaia são injustas e desproporcionadas, sobretudo quando a notícia em causa se baseou exclusivamente em informação oficial publicada em Diário da República”, referiu o organismo representante dos trabalhadores.
O Conselho de Redação da Lusa reforçou que estes ataques “não só desvalorizam o papel essencial da imprensa livre, como procuram fragilizar o exercício responsável da profissão”.
Em abril, a presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa, acusou o jornalista da Lusa João Gaspar de ter cometido uma falha deontológica grave e de ter uma agenda política. A autarca acabou por retratar-se publicamente das acusações que tinha feito ao jornalista, admitindo que teve “um momento infeliz, que não se voltará a repetir”.
Em 04 de maio, a Comissão de Trabalhadores da Lusa denunciou que foi alvo de comportamentos intimidatórios por um funcionário do gabinete do ministro da Presidência, que detém a tutela sobre a comunicação social – conduta considerada inadequada pelo chefe de gabinete de Leitão Amaro.
No comunicado, a CT salientou que, “contrastando com a reunião formal com o ministro António Leitão Amaro, a qual decorreu de forma cordata apesar das divergências de pontos de vista, o alto funcionário interpelou” a Comissão de Trabalhadores “em tom insultuoso e intimidatório pondo em causa a idoneidade dos representantes dos trabalhadores”.
PFT (AFG/JO/FAC/DMC) // NS
By Impala News / Lusa