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Leis de alcova na Malásia: O fantasma colonial que ainda pune o prazer

Conheça a história do Artigo 377 na Malásia. Da herança colonial britânica à perseguição política de Anwar Ibrahim, entenda como o país ainda criminaliza o sexo oral e anal.

Leis de alcova na Malásia: O fantasma colonial que ainda pune o prazer

O Código Penal da Malásia esconde, em pleno século XXI, um dos artigos mais controversos do Sudeste Asiático. O Artigo 377, herdado diretamente do domínio britânico no século XIX, continua a ser a base jurídica para criminalizar o que o Estado define como atos “contra a ordem da natureza”. No papel, as penas são draconianas; na prática, a lei serve muitas vezes como uma arma de arremesso político, mantendo a vida privada sob vigilância constante, como o caso da punição do sexo consensual.

O peso da herança britânica

Introduzida em 1860, durante a administração colonial da Malásia (então Malásia Britânica), esta legislação foi replicada em quase todas as colónias do Reino Unido, da Índia à Nigéria. Enquanto Londres descriminalizou a homossexualidade em 1967, e países como a Índia e Singapura seguiram o mesmo caminho recentemente, Kuala Lumpur mantém o dispositivo intacto.

O artigo 377A define o crime de forma explícita: qualquer relação sexual que envolva penetração anal ou oral é considerada “intercurso carnal contra a ordem da natureza”. O artigo 377B dita a sentença: até 20 anos de prisão e penas de chibatadas.

O caso Anwar Ibrahim e a Justiça sob suspeita

A aplicação desta lei é indissociável da história política moderna da Malásia, centrando-se quase exclusivamente numa figura: Anwar Ibrahim, o atual Primeiro-Ministro, que foi vítima do sistema que hoje lidera.

1998: Anwar, então vice-primeiro-ministro, é destituído e preso por acusações de corrupção e sodomia.
2000: É condenado a nove anos de prisão pelo crime de sodomia sob o Artigo 377.
2004: O Tribunal Federal anula a condenação e Anwar é libertado.
2008: Novas acusações de “sodomia consensual” surgem contra ele, num processo que duraria anos.
2015: Após uma breve absolvição, o Tribunal Federal confirma uma pena de cinco anos de prisão.
2018: Recebe o perdão real após a vitória da oposição nas eleições, sendo libertado.
2022: Toma posse como Primeiro-Ministro, prometendo reformas, embora o Artigo 377 permaneça nos livros.

Punir o sexo consensual e outros casos e a realidade regional

A Malásia não é caso único, mas a sua resistência à reforma é notável. Em Singapura, o equivalente (Artigo 377A) foi revogado em 2022, após anos de pressão civil. Na Índia, o Supremo Tribunal declarou a lei inconstitucional em 2018.

Contudo, na Malásia, o cenário é agravado pela dualidade do sistema jurídico. Para além do Código Penal federal, a população muçulmana (maioritária) está sujeita aos Tribunais da Sharia, onde as penas por “relação contra a natureza” podem incluir multas pesadas e castigos físicos públicos, como ocorreu em 2018 com o açoitamento de duas mulheres no estado de Terengganu.

Luís Martins; WiN

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