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Manuela Couto “Às vezes sabe bem sentir-me anónima”

Tem 62 anos e uma carreira recheada de prémios e de reconhecimento. Atualmente, dá vida a Amália na novela da SIC Páginas da Vida e, nesta entrevista, fala do seu próprio percurso, dos filhos, dos pais e da infância em Setúbal.

Manuela Couto

Estas Páginas da Vida foram um presente que o Daniel Oliveira lhe deu.

Eu entendo todos os trabalhos que tenho como um presente. Todos, em televisão, em teatro, o que quer que seja, porque é sempre alguma coisa que alguém nos está a oferecer. É assim que eu vejo as coisas. E também aceito coisas de que gosto e trabalho com pessoas de quem gosto. Mas foi duro de interpretar esta personagem. Foi muito difícil.

Porquê?

Por causa da doença, da decisão dela de não fazer tratamentos. O facto de ela estar a omitir e,  às vezes, a mentir à família sobre o estado em que está da doença era uma dinâmica que, para mim, era difícil. Era difícil saber que ela tinha dores muito fortes e que estava a disfarçar.

É um tema que é delicado e que é preciso tratar com muito cuidado, porque há pessoas em sofrimento, com doenças terminais…

E também abordamos a questão da eutanásia. Portanto, não foram temas fáceis. Apesar de ela ser uma personagem muito luminosa e muito generosa e com uma inteligência emocional muito grande, esta parte da doença e do sofrimento dela não é fácil. A novela Páginas da Vida original foi uma marca na dramaturgia brasileira, de uma ficção mais realista, com a violência entre casais, a violência entre os mais velhos, a personagem do Marcos Caruso, que é agora o avô das crianças.

E que é interpretada agora pelo Felipe Vargas.

Exatamente. O Marcos Caruso e a Lília Cabral, aquilo era uma coisa muito desagradável. Portanto, houve muito essa questão do preconceito.

Sente que é amor quando alguém esconde da família que tem um cancro para não os fazer sofrer?

Sim, acho que sim. Eu, por acaso, conheço um caso real assim, que aconteceu há uns anos. Ela teve um cancro e não contou a ninguém. Nem aos pais. Ela tinha perdido o marido num acidente e não contou aos pais, nem aos filhos, nem a ninguém da família. E fez os tratamentos, tratou-se, comprou uma peruca, fez tudo e não disse nada a ninguém. Eu acho que isto é uma prova de amor e de grandeza moral.

Mas é uma violência.

É muito violento, mas eu acho que só pessoas muito estruturadas e emocionalmente muito fortes é que conseguem passar por estes processos. E eu acho que a Amália é uma mulher emocionalmente muito forte e que consegue fazer esse caminho sozizinha. Claro que há coisas que não se vêem, até porque é uma personagem que não tem muita incidência.

É uma história secundária em relação à trama principal.

Sim, mas eu pensava muito nisso. Ou seja, em preencher os caminhos que ela fazia entre uma cena e outra, porque se viam poucas cenas. E eu preenchia essas ausências na narrativa. O que é que eu fiz nestes dias? Quantas dores tive? Foram mais fortes? Foram menos fortes? Qual é o estado físico em que eu estou? Eu tomava nota disso para, quando chegasse às cenas, perceber qual era o caminho. Fiz essa curva física e emocional, que nós fazemos sempre de alguma forma, que são os rascunhos emocionais das personagens, e vamos seguindo o nosso percurso. Mas, neste caso, era uma situação muito concreta, porque havia dias em que ela tinha mais dores e eu fui, de alguma forma, decidindo isso sozinha, porque no texto, às vezes,  não dizia nada. Portanto, eu ia doseando isso ou manifestando uma dor quando ninguém estava a ver e depois disfarçava. Foi um trabalho muito gratificante, mas foi duro, porque eu estava a fazer outras coisas ao mesmo tempo. Estava a ensaiar uma peça e repus outro espetáculo em Braga.

Entretanto, na novela, a sua personagem já morreu.

Nas gravações, sim.

O que é que esta Amália tem da Manuela?

O sentido de humor que ela tinha, alguma forma mais divertida de tratar os problemas dos filhos. Havia ali uma benevolência e uma compreensão que ela tinha com os filhos, o não fazer um grande julgamento e tentar sempre estar lá. E eu faço isso com os meus filhos, sou muito assim. Tento sempre estar lá quando é preciso.

É muito mãe galinha?

Não, não sou mãe galinha. Acho que a liberdade é um bem preciosíssimo. Claro que me custa, por exemplo, o mais velho não estar cá, mas sei que é ótimo para ele, que é o caminho dele e que é a vida dele, e nunca lhe digo nada do género: “Agora vais-te embora e eu vou ter saudades.” Eu sou incapaz de fazer isso, porque sei que não é disso que ele precisa, não é disso que ele está à espera. Respeito muito o espaço deles, a liberdade deles, tal como também gosto que eles respeitem o meu.

E eles têm que idades?

O mais velho tem 31 e o mais novo faz agora 26 em maio.

Aos 57 anos, decidiu sair de casa, após três décadas de união com o pai dos seus filhos. Uma decisão destas não se toma de ânimo leve…

Não, não foi de ânimo leve. Não é uma coisa que se decida de hoje para amanhã. Eu acredito mesmo que nós temos várias vidas na mesma vida e somos pessoas bastante diferentes. Eu sou muito diferente da mulher que era com 30 anos, da mulher que era com 20, até com 40 ou 50. Nós vamos aprendendo com a vida e mudamos de opinião em relação a muitas coisas. É um caminho que se vai fazendo e o caminho não é uma linha reta, a direito, não é? Tem muitas curvas, muitas montanhas, muitos vales, tem percursos muito acidentados e muito difíceis. E, pronto, nós chegámos à conclusão que estaríamos melhor separados. E mantemos uma relação cordial. Temos filhos, portanto, ninguém se zangou com ninguém.

 

Leia a entrevista na íntegra na NOVA GENTE desta semana. Já nas bancas!

Texto: Nuno Azinheira; Fotos: Helena Morais

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