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Injeção que elimina tumores resistentes já está a ser testada em Portugal

Uma injeção que conseguiu eliminar tumores resistentes à quimioterapia e à imunoterapia em 15 doentes já está a ser testada em Portugal. O primeiro ensaio arrancou em junho no Hospital CUF Descobertas e envolve cinco unidades de saúde portuguesas.

Injeção que elimina tumores resistentes já está a ser testada em Portugal

O cancro tem tratamento novo em Portugal. O fármaco chama-se amivantamab e os resultados que apresentou na maior conferência de oncologia do mundo são de uma eficácia que os próprios investigadores descrevem como “sem precedentes”. O nosso país faz parte da próxima fase dos ensaios clínicos e o primeiro doente já foi incluído.

“Estou no meu 17.º ciclo de tratamento e estou muito satisfeito com o progresso até agora” (paciente diagnosticado com cancro na língua)

Os resultados do estudo OrigAMI-4 foram apresentados neste fim de semana em Chicago, durante a conferência anual da ASCO, a Sociedade Americana de Oncologia Clínica. Os investigadores do Institute of Cancer Research, do Reino Unido, que lideraram o consórcio, revelaram ter conseguido erradicar ou diminuir significativamente a expressão do tumor em quase metade dos pacientes. Todas as 102 pessoas que participaram no estudo já haviam recorrido às técnicas habituais de imunoterapia e quimioterapia, mas sem efeito.

O que faz o amivantamab

O fármaco é administrado por injeção subcutânea, entre a pele e o músculo, em três doses iniciais, seguidas de reforços de três em três semanas. No ensaio com 102 doentes de 11 países, os tumores começaram a regredir em casos em que outros tratamentos tinham falhado. Em 15 participantes, o tumor foi totalmente eliminado. Os efeitos secundários descritos são maioritariamente leves ou moderados, como irritações na pele e níveis baixos de albumina.

O mecanismo de ação é diferente da quimioterapia clássica: o amivantamab atua como anticorpo biespecífico, bloqueando simultaneamente dois recetores que as células tumorais usam para crescer e escapar ao sistema imunitário. Ao inibir esses dois alvos ao mesmo tempo, o fármaco consegue atingir tumores que desenvolveram resistência aos tratamentos convencionais.

Casos em que outros tratamentos falharam

O estudo clínico focou-se especificamente em cancros da cabeça e do pescoço não associados ao HPV, geralmente mais difíceis de tratar, tornando os resultados ainda mais significativos. Das 102 pessoas que participaram, 43 viram melhorias sem precedentes naquela fase da doença, de acordo com Kevin Harrington, um dos autores do estudo.

Um dos participantes identificados pelo Institute of Cancer Research foi Carl Walsh, de 56 anos, diagnosticado com cancro na língua em maio de 2024. Depois de a quimioterapia e a imunoterapia terem falhado, aderiu ao ensaio OrigAMI-4. “Estou no meu 17.º ciclo de tratamento e estou muito satisfeito com o progresso até agora”, disse.

Portugal já está nos ensaios

O primeiro doente foi incluído no ensaio já em junho, no Hospital CUF Descobertas, de acordo com Diogo Alpuim Costa, oncologista e investigador principal do ensaio em Portugal. No nosso país, são diagnosticados entre 2500 e 3000 novos casos de cancro da cabeça e pescoço por ano, sendo que mais de metade surgem já em fase avançada.

Além do Hospital CUF Descobertas, as outras quatro unidades de saúde que vão recrutar doentes para a próxima fase dos ensaios são o IPO do Porto, o Hospital de Santa Maria, a Unidade Local de Saúde Gaia-Espinho e o Hospital de Braga. O mesmo medicamento está a ser avaliado em 60 ensaios clínicos para outros tipos de cancro, incluindo colorretal, cerebral e gástrico.

O cancro em Portugal

A notícia chega num momento em que a sobrevivência ao cancro em Portugal atingiu 66%, mas persistem desigualdades no acesso ao tratamento, sobretudo entre regiões. A Liga Portuguesa Contra o Cancro tem alertado para o agravamento das listas de espera em oncologia, problema que torna especialmente relevante a chegada de tratamentos mais rápidos e menos invasivos.

A investigação em oncologia avança em várias frentes. Em 2026, os ensaios de vacinas para o cancro cerebral glioblastoma geraram grande expectativa, e a extensão da vacina contra o HPV a mais idades reforçou a aposta na prevenção. O amivantamab acrescenta agora uma nova esperança para os doentes em que todos os outros tratamentos falharam.

Luís Martins; WiN

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