Salários sobem, mas Portugal continua longe da média europeia
A remuneração bruta mensal média por trabalhador chegou aos 1.611 euros no primeiro trimestre de 2026, uma subida de 5,0% face ao mesmo período do ano anterior. Em termos reais, descontando a inflação, o aumento foi de 2,7%, revela o INE.
Os salários em Portugal continuam a crescer. A remuneração bruta mensal média por trabalhador subiu 5,0% para 1.611 euros no primeiro trimestre de 2026, face ao mesmo período de 2025, divulgou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE). Em termos reais, descontando a inflação medida pelo Índice de Preços no Consumidor (IPC), a subida foi de 2,7%.
Tanto a componente regular como a componente base da remuneração aumentaram 5,1%, situando-se em 1.428 euros e 1.335 euros, respetivamente. Em termos reais, ambas cresceram 2,8%.
Os dados abrangem 4,8 milhões de postos de trabalho — correspondentes a beneficiários da Segurança Social e a subscritores da Caixa Geral de Aposentações — mais 1,9% do que no mesmo período de 2025. Para perceber a evolução, o salário médio por trabalhador ficou nos 1.602 euros em 2024, com uma subida real de 3,8%.
Ligeiro abrandamento face ao trimestre anterior
O INE nota uma desaceleração relativamente ao trimestre terminado em dezembro de 2025, quando as remunerações reais tinham crescido 3,1%. Neste primeiro trimestre de 2026, esse crescimento recuou para 2,7% na remuneração total. A inflação manteve-se estável, com as taxas de variação homólogas a fixarem-se em 2,2%.
Agricultura e alta tecnologia lideram subidas
Os maiores aumentos foram observados nas atividades de agricultura, floresta e pesca (10,0%), nas empresas de 10 a 19 trabalhadores (6,0%), no setor privado (5,3%) e nas empresas de alta tecnologia industrial (7,2%). O aumento registou-se em quase todas as dimensões analisadas: tipo de atividade económica, dimensão de empresa, setor institucional, intensidade tecnológica e intensidade de conhecimento.
Portugal ainda longe da média europeia
Os dados do INE surgem num momento em que Portugal regista uma tendência consistente de valorização salarial — mas o fosso face à Europa mantém-se significativo. Segundo o Eurostat, o salário médio anual do trabalhador a tempo inteiro em Portugal foi de 24.818 euros em 2024, abaixo dos 39.800 euros medianos na União Europeia, mantendo o país entre os dez Estados-membros com salários mais baixos.
A diferença em termos absolutos é de cerca de 15.000 euros por ano, o que significa que um trabalhador médio da União Europeia ganha cerca de 60% mais do que um trabalhador português. No topo da tabela europeia estão o Luxemburgo (83.000 euros anuais), a Dinamarca (71.600 euros) e a Irlanda (61.100 euros). Portugal é superado não apenas por estes países, mas também pela Croácia, República Checa, Polónia, Roménia, Letónia, Eslováquia, Hungria e Grécia.
O Governo reconhece o caminho a percorrer. Em comunicado, o Ministério do Trabalho sublinhou que a produtividade por hora trabalhada em Portugal se situa ainda 28% abaixo da média europeia, e que a valorização sustentável dos salários exige a conjugação de incentivos fiscais com ganhos reais de produtividade.
Reforma laboral como resposta estrutural
Os dados do INE surgem no próprio dia em que o Governo aprovou a reforma laboral ‘Trabalho XXI’, que segue agora para a Assembleia da República. Entre os seus objetivos declarados estão precisamente o aumento da produtividade, a melhoria dos salários e a modernização do mercado de trabalho — três vetores diretamente ligados ao fosso que separa Portugal da média europeia.
O crescimento salarial em 2025 foi liderado pelo setor privado de bens e serviços transacionáveis, com uma subida de 6,3%, demonstrando que o tecido empresarial exportador está a mobilizar os instrumentos criados pelo Executivo, nomeadamente a isenção de IRS e TSU sobre prémios de produtividade.
A tendência positiva é inegável. Entre 2022 e 2024, o salário médio anual português passou de 21.131 euros para 24.818 euros — um salto de quase 3.700 euros em dois anos. Mas para se aproximar da média da UE seria necessário crescer ainda cerca de 15.000 euros por ano — um objetivo que, a este ritmo, levará décadas a concretizar.