No maior centro de deslocados das cheias em Moçambique corta-se cabelo à espera que água baixe
À sombra da árvore, em Chiaquelane, no maior centro de deslocados das cheias em Moçambique, Borge passa o tempo a cortar o cabelo, enquanto espera para regressar à África do Sul e que a água deixe a casa.
“É uma ajuda, estou a ajudar as pessoas a cortar o cabelo, não me pagam”, conta, o homem, de 30 anos, à Lusa, enquanto prepara novo corte, entre outros “clientes” já à espera, todos viver no centro de acomodação, instalado junto à estrada N101, na província de Gaza, 250 quilómetros a norte de Maputo.
Naquele centro, que partilha com cerca de 30 mil pessoas do distrito de Chókwè, incluindo dez da mesma família, Borge Chunguane está há mais de uma semana. Viajou para Gaza para as festas, em dezembro, e ali ficou, devido às cheias, sem poder regressar ao trabalho à África do Sul, onde também corta cabelo.
A máquina foi precisamente das poucas coisas que conseguiu tirar de casa, que deixou à pressa: “Por causa das cheias (…) tem água na minha casa, até agora”.
No seu espaço improvisado, juntam-se vários deslocados, a passar tempo, incluindo crianças, que esperam vez para o corte do cabelo ou simplesmente observam.
“Aqui não é salão. Só estou a cortar”, avisa.
Tal como Borge, Ana Chambale, 34 anos, fugiu com o que tinha à mão do bairro de Massavasse, a alguns quilómetros de distância, quando a água começou a subir e a tomar conta primeiro dos campos agrícolas e das ruas e depois das casas.
“Se não me engano foi no dia 16”, recorda, enquanto toma conta do filho mais pequeno, dos dois que tem. Junto com a mãe, todos caminharam quase um dia até chegar ao centro.
“Na minha terra está cheio de água (…). Não temos nada. Mobílias, camas também estragaram, muitas coisas”, diz.
Na machamba, como são conhecidos os campos agrícolas, ficou sem todo o arroz plantado.
“Não temos nada”, atira.
Queixa-se, como de resto quase todos, da insuficiente comida no campo e só pensa em voltar para casa, mas tem receio, até pelos filhos pequenos e água que ainda toma conta da zona.
“Quero voltar para casa. Mas a nossa casa está cheia de água, não tem como”, desabafa.
Chókwè, na província de Gaza, sul de Moçambique, foi um dos mais afetados pelas cheias de janeiro, mudando a vida de 170 mil pessoas, explicou à Lusa o administrador do distrito, Narciso Nhamuco. Em dias, 88% do território ficou inundado, ou seja 2.258 quilómetros quadrados submersos desde 15 de janeiro.
A situação obrigou à montagem de três centros de abrigo, um dos quais, este em Chiaquelane, com quase 30 mil pessoas, cerca de um terço de toda a população que devido às cheias foi abrigada em mais de 90 centros em todo o país.
“Nos três centros, 498 tendas. É por isso que nós dissemos que sempre havia essa necessidade de reforço de tendas, que era para aliviarmos as salas de aulas”, descreve, sobre as escolas que também abriram portas para receber os deslocados.
Nestes três centros, com mais de 55 mil pessoas deslocadas de todo o distrito, foram montados depósitos de água e sistemas sanitários, com o apoio de várias Organizações Não-Governamentais.
“Considerando o número da população aglomerada, queríamos evitar a eclosão de doenças”, sublinha Narciso Nhamuco, acrescentando: “As grandes doenças que nós registamos, reportadas pelos postos de saúde montados, ao nível desses centros de acolhimento, são apenas doenças no âmbito respiratório”.
“Em todos esses centros, felizmente, conseguimos colocar os abrigos. É verdade, entre tendas e lonas, mas também 47% da nossa população em todos os centros foi abrigada nas escolas e nos blocos administrativos, dada a dimensão dessas salas, mas também dada a urgência, porque calhou ao mesmo tempo das inundações, coincidia também com a grande intensidade da chuva que estava a se fazer sentir”, lamenta.
Susana Rodrigues está ali desde meados de janeiro, quando deixou a cidade de Chókwè para trás, a 30 quilómetros de distância, com seis familiares, incluindo três crianças, uma delas de apenas 2 anos.
“Já tenho duas semanas (…), lá só entra água”, explica, envergonhada.
Admite que lá na cidade a família perdeu quase tudo, mas é também para lá que querem voltar, mal seja possível. Até porque ali, apesar dos esforços, a comida nunca chega.
“Não tem comida”, lamenta.
Os três centros de abrigo de Chókwè, que funcionam enquanto as águas não baixam, dispõe de espaços amigos da criança, onde continuam a aprender e a brincar, preparando o próximo ano letivo, cujo arranque foi adiado de 30 de janeiro para 27 de fevereiro, devido às cheias.
“Sobretudo para manter este ambiente de recriação das crianças e manter vivo o sonho delas de se juntar em grupo, mesmo estando nesta fase de emergência”, conta o administrador Narciso Nhamuco.
Foram ainda montadas “cozinhas comunitárias” nos centros, evitando, nesta fase, a distribuição de ‘kits’.
“Porque também muitas famílias não traziam panelas, não traziam outros utensílios para isso (…). E nós dividimos as nossas cozinhas comunitárias pelos bairros de origem, que é para permitir evitar também a aglomeração maior da população, mas também um controlo efetivo a partir das lideranças da origem dessa população”, explica o administrador de Chókwè.
Só desde janeiro, as cheias em Moçambique já afetaram mais de 720 mil pessoas e chegaram a obrigar à ativação de perto de uma centena de centros de acomodação, com 100 mil deslocados.
*** Paulo Julião (texto), Fernando Cumaio (vídeo) e Luísa Nhantumbo (foto), da agência Lusa ***
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By Impala News / Lusa