Moçambique regista 11 mortos em superstições de magia que atrofia órgãos genitais
Pelo menos 11 pessoas morreram por agressões físicas em três províncias de Moçambique, na sequência de superstições de alegada magia que atrofia órgãos genitais a partir de um toque, anunciaram as autoridades.
Os óbitos ocorreram nas províncias de Nampula (02) e Cabo Delgado (05), no norte de Moçambique, e na província da Zambézia (04), no centro do país.
Em causa estão superstições que correm, desde 18 de abril, em Cabo Delgado, que se espalharam pelas restantes províncias e nas redes sociais, sobre alegado atrofiamento, encolhimento e até desaparecimento de órgãos genitais, principalmente masculinos, a partir de um toque.
Em Nampula, as superstições causaram dois óbitos e oito feridos por agressão física, em 16 casos de desinformação registados entre quarta-feira e domingo, em alegações de magia negra nos distritos de Eráti e Monapo.
“Infelizmente [as vítimas] eram acusadas de prática de magia negra. Estes sofreram vários golpes e depois dos golpes os indiciados teriam ateado fogo e infelizmente [as vítimas] acabaram perdendo a vida”, disse hoje Dércio Samuel, porta-voz da Polícia da República de Moçambique (PRM), em Nampula, durante uma conferência de imprensa.
Segundo Dércio Samuel, a polícia deteve 24 pessoas por desinformação e incitamento à desobediência coletiva, alertando para o envolvimento de crianças supostamente “aliciadas para criar pânico”.
Em Cabo Delgado, as superstições causaram a morte de cinco pessoas nos distritos de Mocímboa da Praia (01), Ancuabe (02), Montepuez (01) e Metuge (01), além do ferimento de outras 20, todas vítimas de agressão física.
“Chamamos toda a sociedade a denunciar e confiar na Polícia da República de Moçambique. Como já nos referenciamos aqui, estamos em prontidão sobre este fenómeno. Não podemos ficar distraídos, a nossa província está a viver um momento de terror”, disse o comandante provincial da PRM em Cabo Delgado, Assane Fikir, citado hoje pela comunicação social local, referindo que foram detidas 25 pessoas e lavrados nove autos.
Já na Zambézia, a Lusa noticiou, no domingo, que pelo menos quatro pessoas morreram após a propagação das superstições, segundo Miguel Félix, chefe do posto administrativo de Macuse, onde ocorreram os incidentes.
As vítimas foram linchadas e carbonizadas, num ambiente de pânico instalado após a difusão de boatos de que um aperto de mão poderia provocar o encolhimento dos órgãos genitais, situação que obrigou à intervenção da polícia.
Em declarações aos jornalistas, as autoridades de Saúde de Cabo Delgado e Nampula esclareceram que não há encolhimento de órgãos genitais, referindo tratar-se de pânico social coletivo, tendo sido, por isso, criado um grupo técnico multissetorial composto por médicos de clínica geral, médicos legistas, psiquiatras e psicólogos para analisar a ocorrência e avaliar os pacientes que chegam às unidades hospitalares queixando-se de atrofiamento dos órgãos.
“Tendo os casos sido avaliados pelos médicos (…) não houve evidência de nenhuma alteração da anatomia dos órgãos genitais”, afirmou o diretor do Serviço Provincial da Saúde em Cabo Delgado, Edson Fernando.
“Após avaliação médica constatou-se que não havia nenhuma alteração a nível da região genital. Submetidos a avaliação psicológica [os pacientes] apresentaram alteração de comportamento, mas após apoio psicológico eles voltaram a ter a sua vida de forma normal”, disse o psicólogo clínico do Hospital Central de Nampula, Ibrahimo Manuel.
A Polícia da República de Moçambique pede que a população denuncie os “agitadores” sob o risco de o fenómeno causar a paralisação de serviços, referindo que há forças operativas no terreno em prontidão, principalmente em locais de maior aglomerado.
“A polícia será dura e implacável a todos aqueles que forem a se envolver nessa questão de desinformação. São pessoas inocentes que estão a perder a vida”, declarou o porta-voz da polícia em Nampula.
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By Impala News / Lusa