Escritor franco-argelino exilado em França condenado a três anos de prisão efetiva na Argélia 

O escritor franco-argelino Kamel Daoud anunciou hoje ter sido condenado à revelia a três anos de prisão efetiva na Argélia, onde era alvo de um processo judicial devido ao seu romance “Huris”, distinguido com o Prémio Goncourt em 2024.

Escritor franco-argelino exilado em França condenado a três anos de prisão efetiva na Argélia 

“Facto único na história argelina: o veredicto do julgamento de 07 de abril de 2026 foi proferido a 21 de abril corrente. Fui condenado a três anos de prisão efetiva e a cinco milhões de dinares argelinos [cerca de 32,3 mil euros] de multa, ao abrigo da Carta para a Paz e a Reconciliação Nacional”, indicou o autor exilado em França numa mensagem publicada na rede social X.

Em novembro de 2024, um tribunal argelino tinha aceitado uma primeira queixa contra o escritor e a sua mulher, psiquiatra, por terem revelado e utilizado a história de uma paciente na escrita do romance “Huris”, editado em Portugal em 2025 pelo Grupo Bertrand Círculo.

Foram então apresentados dois recursos contra Daoud e a sua mulher, que tratou Saâda Arbane, sobrevivente de um massacre durante a década negra da guerra civil na Argélia.

Por enquanto Kamel Daoud está sob proteção de França, país onde reside desde 2020 “exilado pela força das coisas” – nas suas palavras -, depois de em 2014 ter sido alvo de uma “fatwa” (decreto religioso) pela sua posição muito crítica em relação ao fanatismo religioso na Argélia.

Kamel Daoud, que recebeu também o Prémio Goncourt de primeiro romance em 2015 com “Meursault, Contra-Investigação” (obra escrita como uma resposta a “O Estrangeiro”, de Albert Camus), foi um dos principais nomes envolvidos na libertação do escritor também franco-argelino Boualem Sansal, 80 anos, eleito em fins de janeiro deste ano para ocupar uma cadeira da Academia Francesa.

Boualem Sansal foi libertado da prisão a 12 de novembro de 2025 após um ano detido na Argélia.

“Huris”, termo que na fé muçulmana designa as jovens prometidas ao paraíso, é um romance sombrio que decorre em parte em Orão, 400 quilómetros a oeste de Argel, e aborda o destino de Aube, uma jovem muda desde que um islamista lhe cortou a garganta a 31 de dezembro de 1999.

A obra não pode ser publicada na Argélia por violar uma lei que proíbe qualquer publicação sobre a década negra entre 1992 e 2002 da guerra civil, que causou pelo menos 200 mil mortos, segundo dados oficiais.

Kamel Daoud é ainda alvo de dois mandados de detenção internacionais emitidos pela Argélia em maio de 2025.

O romance é igualmente objeto de um processo na justiça francesa por alegada violação da vida privada.

 

JSD // SCA  

By Impala News / Lusa

Adicione a Impala como fonte preferida google share