A terra das linhas de alta tensão

Uma localidade de Alcoentre uniu-se contra a passagem de uma terceira linha de alta tensão sobre a povoação e conseguiu mudar o traçado. Hoje os moradores aconselham quem trava batalhas ambientais: “Se ficarem parados nada vai acontecer”.

A terra das linhas de alta tensão

Entre vinhas e olivais, abrigada dos ventos de noroeste pela serra de Montejunto, Casais das Boiças é há muito atravessada por duas linhas de alta tensão.

As linhas transportam a energia da central termoelétrica do Carregado. Há moradores que apontam malefícios, falam de doenças, mas ao longo de 40 anos habituaram-se à paisagem.

Até há seis anos. Com a construção da grande central fotovoltaica da herdade da Torre Bela, ali mesmo ao lado, uma nova linha de alta tensão, a caminho da subestação de Rio Maior, ia passar em Casais das Boiças. A terceira linha.

A Torre Bela, no concelho da Azambuja, ficou conhecida em 2020 quando caçadores mataram naquela herdade cercada mais de 500 animais, entre veados, gamos e javalis.

O massacre indignou a opinião pública, associou-se a painéis solares. Os habitantes do pequeno povoado estavam também indignados, mas com o traçado dessa terceira linha de alta tensão por cima das suas cabeças.

António Loureiro, 70 anos, residente em Casais das Boiças, freguesia de Alcoentre e paredes meias com a prisão, deu o primeiro passo.

“Tomei consciência de que queriam pôr uma terceira linha a passar sobre a povoação onde resido e achámos que não devia ser, até porque havia histórias de há muitos anos” relacionadas com doenças, e fui ver o que era possível fazer, explica agora à Lusa.

Se era impossível ir contra a central, o foco teria de ser a terceira linha sobre a povoação.

Começou então o lento processo. Sensibilizar o presidente da Câmara da Azambuja, analisar o Estudo de Impacto Ambiental (EIA). “Não fui sozinho, juntámos esforços, houve várias reuniões”.

Numa colina, junto a um moinho de vento abandonado, sob o zumbido ininterrupto que vem dos fios elétricos, António Loureiro mostra onde passa hoje a linha e aponta onde a empresa queria que passasse. “Os responsáveis da empresa disseram que não tinham hipótese nenhuma de mudar a linha”, mas olhando para o EIA era viável o traçado que propúnhamos.

“Se nós não tivéssemos feito nada, nada acontecia. Nem tudo o que enfrentamos pode ser mudado, mas se não enfrentarmos as coisas elas não são mudadas. Foi isso que aconteceu, juntámo-nos, começamos a pressionar a câmara municipal”, admitimos recorrer à Provedoria de Justiça, apontámos fragilidades ao EIA.

Silvino Lúcio, presidente da Câmara da Azambuja, explica também à Lusa que o processo “não foi fácil”, mas resolveu-se com a colaboração e entreajuda das partes, a população, a autarquia e o ministro do Ambiente de então (Duarte Cordeiro).

O autarca diz que a linha passa agora sobre um olival, pertença da própria herdade da Torre Bela, o que aliás fazia sentido desde o início. Mas os EIA apontavam para aquela solução de Casal das Boiças, com a qual os populares não podiam estar mais em desacordo. Com as objeções apresentadas, recorda, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) mandou fazer um novo EIA, “com prioridade absoluta”, e considerou viável o novo traçado.

“Foi bom, porque as pessoas ficaram satisfeitas, nós ficámos satisfeitos e o Governo também saiu bem”, resume Silvino Lúcio, no gabinete na Câmara da Azambuja.

Do outro lado do concelho, junto ao moinho abandonado, António Loureiro acrescenta: “Tivemos uma luta de mais de dois anos para conseguirmos que fosse feito um novo estudo de impacto ambiental, que curiosamente defendeu que o (novo) traçado tinha cinco pontos de vantagem relativamente ao projeto inicial”.

Quando proliferam pelo país projetos de mega centrais solares, para cujos supostos impactos ambientais negativos as associações de ambiente alertam, e quando o Governo propõe mudanças na APA mas também no Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), simplificando processos relativamente a EIA, que conselho dá António Loureiro a quem se sinta lesado com EIA?

“Se (as pessoas) ficarem paradas, nada vai acontecer”, responde.

“O que eu digo é que devem ler os EIA porque muitas vezes há lá coisas que não correspondem ao que de facto vai acontecer”. E é “fundamental unirem-se para pressionarem os políticos locais”.

Em Casais das Boiças, a população conseguiu o improvável e hoje continua com duas linhas de alta tensão apenas.

Num outro olhar, o caso serviu ainda, segundo o presidente da Câmara, para desmistificar questões e mostrar que, ao contrário do que se disse, a Torre Bela é um projeto importante para Portugal, um país pobre em termos energéticos.

O Dia Mundial do Ambiente, que se assinala na sexta-feira, é este ano focado nas alterações climáticas, nos sinais que a Terra envia e nos sinais com os quais os humanos respondem.

Num apelo global para a ação climática a ONU aponta os sinais do planeta como as ondas de calor, incêndios ou subida do nível do mar, e fala de outros que se começam agora a ouvir, as torres eólicas ou os painéis solares nos telhados das casas.

FP // FPA

By Impala News / Lusa

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