Marchas populares de Lisboa: é o grande dia das Festas de Lisboa, com 16 casamentos e 20 marchas
As marchas populares de Lisboa descem esta noite a Avenida da Liberdade, no momento mais alto das Festas de Lisboa dedicadas a Santo António. Antes do desfile, 16 casais disseram o sim perante o santo casamenteiro de Lisboa, numa tradição que une história, fé e festa popular há quase um século.
Hoje, sexta-feira, 12 de junho, é o grande dia das Festas de Lisboa. As marchas populares de Lisboa descem a Avenida da Liberdade esta noite, na véspera do feriado municipal, que este ano calha num sábado. É o momento mais aguardado de um mês inteiro de celebrações dedicadas a Santo António, padroeiro da cidade. Mas antes de as marchas começarem, há um outro ritual que define o espírito desta véspera: os casamentos de Santo António.
O dia começou com 16 casamentos
A festa começou hoje com a cerimónia civil da união de cinco casais, às 11h30, no Salão Nobre dos Paços do Concelho. Outros 11 casamentos decorreram numa cerimónia religiosa na Sé de Lisboa, a partir das 14h00.
Segundo a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural da Câmara de Lisboa, os 16 casais selecionados este ano têm idades entre os 27 e os 51 anos, são provenientes de 11 freguesias e representam mais de seis nacionalidades. Depois da troca de alianças e do copo-de-água, celebrado na Estufa Fria, os casais de Santo António descem à Avenida da Liberdade para se juntarem às marchas populares Lisboa que desfilam esta noite.
Quem foi Santo António
Para entender por que Lisboa celebra com tanta intensidade este santo, é preciso recuar ao século XIII. Santo António nasceu e cresceu em Lisboa, mas viveu e morreu em Pádua, na Itália, cidade que também o reivindica como seu. A disputa sobre a quem pertence o santo é tão antiga que o Papa Leão XIII, no final do século XIX, terá resolvido a questão com uma frase simples: “É o santo de todo o mundo”.
Formalmente, Santo António é o padroeiro secundário de Portugal, sendo Nossa Senhora da Conceição a padroeira principal. Em Lisboa, é o padroeiro da cidade, enquanto São Vicente é o padroeiro principal do Patriarcado. Na devoção popular lisboeta, no entanto, Santo António acabou por eclipsar todos os outros.
A fama do santo como “casamenteiro” é o que está na origem de uma das tradições mais bonitas das Festas de Lisboa. Diz-se que Santo António tinha um talento especial para reconciliar casais e ajudar pessoas solteiras a encontrar par. Essa reputação consolidou-se ao longo dos séculos e tornou-se parte central da identidade do santo em Lisboa.
A origem dos Casamentos de Santo António
Os Casamentos de Santo António, que hoje juntaram 16 casais, têm uma história concreta e relativamente recente. A primeira edição aconteceu a 12 de junho de 1958, com 26 casais a casarem-se na Igreja de Santo António, no local onde se acredita que o santo nasceu. A iniciativa foi patrocinada pelo jornal Diário Popular, com um objetivo social claro: permitir que casais com dificuldades financeiras pudessem casar-se, com despesas suportadas pela organização.
A tradição foi interrompida pela Revolução de 25 de Abril de 1974 e ficou suspensa durante 23 anos. Só foi retomada em 1997, pela Câmara Municipal de Lisboa, que passou a incluir, além da cerimónia religiosa na Sé, a cerimónia civil nos Paços do Concelho. Desde então, os Casamentos de Santo António tornaram-se tradição anual incontornável, parte da identidade cultural da cidade.
A origem das marchas populares
Se os casamentos têm uma data de nascimento concreta, as marchas populares Lisboa têm uma história mais longa e mais disputada. Em Lisboa já se realizavam marchas desde o século XVIII, com raízes na tradição francesa da marche aux flambeaux, popularmente conhecida como “marcha ao flambó”, em que pequenos grupos desfilavam transportando balões iluminados pendurados em canas.
Mas as marchas populares como hoje as conhecemos, em formato de concurso, remontam a 1932. As primeiras decorreram a 12 de junho desse ano, no Parque Mayer, organizadas sob orientação de José Leitão de Barros, então diretor do Notícias Ilustrado, com o apoio do Diário de Lisboa. Participaram os ranchos de seis bairros: Campo de Ourique, Bairro Alto, Alto do Pina, Madragoa, Alfama e Alcântara.
O sucesso foi imediato e levou à oficialização das marchas, que passaram a estar integradas nas Festas de Lisboa sob organização da Câmara Municipal. O objetivo inicial era também promover o próprio Parque Mayer, mas as marchas rapidamente ganharam vida própria e tornaram-se um dos pontos altos da identidade festiva da cidade.
As marchas atravessaram décadas com altos e baixos. Sofreram interregnos até 1950, mas voltaram sempre com mais vitalidade. Em 1980 regressaram à Avenida da Liberdade, dez marchas sem concurso, e em 1981 o concurso e o júri voltaram, mantendo-se até hoje.
O programa de hoje
A noite tem início às 21h00 com a tradição folclórica chinesa Dança do Dragão e dos Leões Dourados, apresentada pela Associação Geral Desportiva de Macau Lo Leong. Antes das marchas em concurso, desfilam ainda a Marcha Infantil das Escolas de Lisboa, a Marcha Infantil A Voz do Operário, a Marcha dos Mercados e a Marcha Santa Casa.
Sob o tema “Somos Lisboa. Somos Europa”, as 20 marchas a concurso, que já se apresentaram previamente na MEO Arena, vão ser avaliadas e pontuadas por um júri consoante os figurinos, as músicas e as coreografias originais, retratando os vários bairros lisboetas participantes.
O que se segue nas Festas de Lisboa
Além das marchas, casamentos e arraiais, a programação das Festas de Lisboa inclui este ano, durante todo o mês de junho, mais de 40 iniciativas maioritariamente gratuitas espalhadas pela cidade, com concertos, cinema ao ar livre, exposições e festivais multiculturais.
O encerramento das Festas de Lisboa decorre no dia 26 de junho, nos Jardins da Torre de Belém, com um concerto de Matias Damásio, Rita Guerra, Ivandro e Héber Marques, terminando com um espetáculo de fogo-de-artifício a iluminar o céu da cidade.
Esta noite, como há quase um século, Lisboa pára para ver os seus bairros desfilarem. É a tradição mais antiga da cidade a continuar a fazer o que sempre fez: juntar as pessoas na rua.