Hantavírus – uma biografia parcial [por Margarida Bakker]
Margarida Bakker tem um olhar muito próprio sobre o hantavírus. E todas as semanas sobre outras coisas mais ou menos importantes, mais ou menos entrelinhas.
Hantavírus. Um vírus com relatos há já dois mil anos provenientes da China. Um vírus sábio. Um vírus carregado de experiência, um vírus que tanto viu – impérios cair, desaparecimento de dinastias, o fascismo nascer, morrer e renascer…
Andou pela Coreia do Sul nos anos 70, sendo ultrapassado em 1981 pelo VIH, que pode ter como consequência a sida e que, só nos Estados Unidos, causou 100 mil mortes numa década. Em 1995, o hanta é pela primeira vez reconhecido como domador da raça humana, na América Latina.
“Injustamente ignorado, o hantavírus decidiu reaparecer, à socapa, num navio com nome de carro – MV Hondius”
Depois de uma existência injustamente ignorada, decidiu, após o êxito da covid, reaparecer em 2026. Fê-lo à socapa, num navio com nome de carro – MV Hondius – tentando, desta forma, reafirmar a sua fama nunca anteriormente reconhecida pelo grande público.
Não deixo de pensar, no meio de tudo isto, que embora de nacionalidade oriental, a sua personalidade tenha algo de francês, um je ne se quois, uma certa arrogância, já para não falar da escolha de roedores para se alojar… Além do mais, em França, surge sempre a dúvida sobre qual a espécie invasora: ratos ou humanos?
Curiosamente, a grande investida do vírus para ultrapassar o corona está a ter grande sucesso. E compreende-se a preocupação, dada a elevada taxa de pessoas que adoram a convivência com roedores – vivos ou mortos – a sua urina, as fezes ou a sua saliva, principal fonte de transmissão. Outra pode ser uma dentadinha, um arranhão descuidado… – o que coloca em causa a expressão “és um homem ou um rato?” como questão primordial para evitar transformar um date numa roleta russa de contaminação.
“A síndrome renal, aparentemente, ‘só’ dói como o c_____o (preencher à vontade)”
Os sintomas após a contaminação – seja por que via for: boca-a-boca, ligeiro abraço, pancadinha de amor… – são genericamente dois, associados à síndrome pulmonar e à febre hemorrágica com síndrome renal. Com sorte, a infeção é assintomática. Para o hipocondríaco moderno, no entanto, outra questão se levanta: o problema pode não ser a doença e passar a ser o de não saber se está infetado.
O indivíduo contemporâneo adora pesquisar os seus sintomas no Google e concluir que vai morrer daí a uma hora. Ou duas, no máximo. Claro, como os sintomas usam a psicologia inversa, atraindo o portador do vírus para o desejo de ser sintomático e, em vez da cura… mais dúvidas. A síndrome pulmonar é a mais perigosa, por causar insuficiência respiratória e uma séria probabilidade de morrer. A síndrome renal, aparentemente, ‘só’ dói como o c_____o (preencher à vontade). Em termos médicos, para resumir, significa ‘paninho de água quente, paracetamol’ e mimo (já agora).
“As recomendações de prevenção são confusas e contraditórias: evitar acumulação de lixo, mas não varrer nem aspirar para não levantar pó”
Vivemos em tempos em que a Ciência consegue criar inteligência artificial para fins médicos. No entanto, quando um rato tosse para um contentor de lixo, a resposta científica continua a ser “evite tocar nele”. A cura não existe. Ou, pelo menos, está guardada algures até se resolver o problema da sobrepopulação, segundo algumas teorias da conspiração.
Torna-se difícil não desconfiar quando as recomendações de prevenção são confusas e contraditórias: evitar acumulação de lixo, mas não varrer nem aspirar para não levantar pó. Portanto, habitar numa casa irrepreensivelmente limpa, sem podermos atrever-nos a limpá-la. Premissa muito semelhante à forma como lidamos com as emoções: não deixar que os problemas se acumulem, mas não falar sobre eles para não levantar poeira.
“O passo final: a promoção do turismo interno. A recomendação é simples e adquire-se em praticamente qualquer lojinha de esquina: mala às costas e meia dúzia de ratoeiras”
Outra medida de prevenção é a de evitar viajar, coisa que o português comum já não conseguiria pagar de qualquer das formas. Sobretudo, viagens intercontinentais. E daí o passo final: a promoção do turismo interno. A recomendação é simples e adquire-se em praticamente qualquer lojinha de esquina: mala às costas e meia dúzia de ratoeiras.
Bon voyage e até para a semana.