Sociedade – Vagos, Algés e Maia: após três crimes, há uma pergunta que ainda ninguém fez [EXCLUSIVO]
Depois de vários crimes violentos envolvendo jovens em poucos dias, uma psicóloga deixa uma reflexão sobre aquilo que, enquanto sociedade, é preciso questionar.
Os recentes casos de violência extrema envolvendo jovens têm deixado Portugal em choque. Em poucos meses, foram conhecidos vários crimes, incluindo os casos dos dois jovens suspeitos de matarem as próprias mães, em Vagos e Algés, e o jovem da Maia suspeito de matar o padrasto.
Após esta sucessão de acontecimentos, Patricia Câmara, psicanalista e psicóloga explicou em declarações exclusivas à VIP os ‘motivos’ que podem levar a tamanha tragédia, deixando uma profunda reflexão sobre aquilo que, enquanto sociedade, é necessário questionar.
Perante acontecimentos de uma violência tão extrema, temos uma enorme necessidade de encontrar depressa uma explicação. Talvez porque dar-lhes um sentido nos ajuda a suportá-los. Procuramos o diagnóstico, a falha, a causa, qualquer coisa que possa arrumar o horror num lugar reconhecível e, de alguma forma, afastá-lo de nós. Mas, nessa pressa de compreender, podemos perder justamente aquilo que importa pensar: a dimensão da dor coletiva e a brutalidade da desumanização que estes acontecimentos também revelam. Nenhum ato destes nasce de uma única causa, nem pertence inteiramente a quem o pratica.
É preciso pensar também no desespero. No que pode acontecer internamente para que, a certa altura, alguém deixe de conseguir imaginar uma alternativa. Quando já não há palavra, espera, saída ou um terceiro possível entre aquilo que se sente e aquilo que se faz, a violência pode ocupar o lugar do pensamento. E isto acontece num tempo em que convivemos diariamente com uma enorme banalização da violência: vemo-la, consumimo-la, repetimo-la, quase nos habituamos a ela. Não significa que a violência produza violência de forma linear, mas talvez torne menos longínquo aquilo que nunca deveria deixar de nos perturbar.
Por isso, perante estes acontecimentos, a pergunta não pode ser apenas “o que se passa com estes adolescentes?”. Tem também de ser: que solo de contenção estamos a oferecer às pessoas para crescerem nele? Que lugar damos à frustração, aos limites, à espera, ao conflito, ao sofrimento e à possibilidade de pedir ajuda antes de tudo se tornar insuportável? Os problemas nunca são apenas das pessoas. São também das famílias, das escolas, das comunidades e da sociedade inteira. Talvez pensar verdadeiramente estes acontecimentos implique suportar esta parte mais incómoda: olhar para quem os pratica sem deixar de olhar por inteiro para o mundo que todos estamos a construir.
Fotos: Magnific