Dia do Pai Entre partidas, ternura e muitas gargalhadas. As histórias dos famosos

No Dia do Pai, várias figuras conhecidas aceitaram voltar atrás no tempo e partilhar episódios especiais vividos com os respetivos pais. Há histórias ternas, outras divertidas e algumas absolutamente improváveis, mas todas mostram o mesmo: há memórias que ficam para sempre.

No meio da correria dos dias e das responsabilidades da vida adulta, há recordações de infância e juventude que continuam guardadas num lugar especial. No Dia do Pai, celebrado a 19 de março, várias caras conhecidas abriram esse baú de memórias e contaram à NOVA GENTE episódios que ajudam a desenhar, com humor e carinho, a relação que têm – ou tiveram – com os respetivos pais. Há aqueles que aparecem ligados a aventuras improváveis, como um falcão ferido levado para casa, tardes de cinema de autor que, na altura, pareciam uma valente “seca”, ou idas ao centro comercial transformadas em testes públicos à vergonha alheia. Outros surgem associados a gestos simples, mas que ficam para sempre: uma ida ao estádio, uma dança improvisada, um almoço de família ou o apoio incansável de quem acreditou desde o primeiro dia.

Entre o pai prático que consulta o menu do restaurante da rua à janela, o que fazia partidas, o que enchia a casa com anedotas repetidas até elas ganharem um novo encanto, ou o que transformou uma lição de condução numa pequena tragédia automóvel, há um traço comum nestas histórias: a presença. Umas vezes ruidosa, outras discreta, mas quase sempre marcante. Mais do que grandes discursos, estas memórias mostram como os pais ficam gravados nos detalhes. No humor, nos hábitos, nos ensinamentos e até nas manias. E talvez seja isso que as torna tão especiais: falam de amor, mas sem precisar de o dizer de forma solene. Bastam um cachecol do Sporting, um robalo pescado no mar ou uma frase dita em voz alta no sítio mais embaraçoso possível para se perceber que há histórias que ficam para a vida.

Vanessa Oliveira

Um falcão chamado Raider

O meu Pai é Oficial da Marinha Mercante e, quando eu era pequenita, andava embarcado nos petroleiros e ficava bastante tempo fora. Quando voltava era uma festa. Levava-me a passear quase todos os dias. Uma das vezes, trouxe um falcão que encontrou ferido e cuidou dele. Chamámos-lhe Raider. Como não era possível manter um falcão em casa, fomos doá-lo ao jardim Zoológico. Eu recebi uma carta em como era dona de um animal e que poderia, até ao final da vida, entrar no Zoo sempre que quisesse. Claro que nunca usámos essa carta pois sabíamos que o dinheiro das nossas entradas seria para a comidinha do Raider mas todos os anos lá voltávamos para o ver. Mesmo quando ele já lá não devia estar, o meu Pai mantinha a ideia de que o estávamos a ver.

 

Herman José

Lavagante e festa em dose XL

A festa de anos em que o meu fazia precisamente a mesma idade que eu faço este mês: 72. Com Ana Bola, ofereci-lhe um almoço com uma dose XXXL aquilo que ele mais gostava (logo a seguir ao Sporting): lavagante!

 

Paula Neves

O menu visto da janela

Esta foto é o meu pai na sua casa a ver o menu do dia da tasca do fundo da rua! Acho isto delicioso. Ele tem um espírito muito prático. Ele mora numa zona muito típica de Lisboa, e isto é uma coisa que acontece frequentemente. Isto é ele no seu melhor, desempoeirado prático, artístico e com graça! Eu fui almoçar com ele e ele pergunta-me se eu preferia ir almoçar fora, nisto pega na sua máquina fotográfica profissional, abre a janela e começa a dizer-me qual é o menu do dia! Estive uns bons minutos a rir antes de conseguir responder. Foi, também, com ele que comecei a dançar, foi ele que me ensinou e dançámos danças de salão juntos.

 

Ricardo Azedo

Vergonha alheia em modo máximo

Sou daqueles casos felizes em que um filho tem como um dos melhores amigos o pai. Damo-nos lindamente. Somos próximos, confidentes e muito presentes na vida um do outro. Tenho muitas e variadas histórias com o meu pai. Mas há uma compilação de que gosto particularmente de me lembrar. O meu pai é uma pessoa divertida, bem disposta. E gosta de humor, de o provocar. Vimos de uma família discreta que não chama a si atenções e assim mantemos a nossa vivência até hoje. Mas o pai adora provocar. Lembro-me de virmos para Lisboa os dois às compras, para um centro comercial – daquelas onde havia sempre gente conhecida – e o meu pai adorava provocar-me. Eu sempre fui tímido. Ele não. Durante as voltas para fazer compras, nomeadamente em zonas de caixas, o pai levantava a voz e perguntava-me se tinha guardado bem os porcos, ou se as galinhas tinham ficado todas no galinheiro, ou se eu tinha apanhado o estrume dos cavalos. E fazia isto, para além da voz elevada, com pronuncia. Depois perguntava-me se tinha tintol suficiente no carrinho de compras. E, de repente, toda a gente estava a olhar para nós. Fazia-me coisas destas vezes sem conta. E sempre em sítios onde a compostura tinha um significado maior. Eu morria de vergonha. Ele ria imenso. Ao dia que vos conto esta memória, ele está provavelmente a pensar na próxima partida que me vai pregar. E que assim seja ainda durante muito tempo.

 

Inês-Castel-Branco

Fins de semana de jogo

As melhores recordações do meu pai são estarmos todos a fazer desporto. Ele sempre gostou muito, então jogávamos todos futebol, basquetebol… ao fim de semana tínhamos muito este plano, que eu adorava.

 

João Maneira

O pai que acreditou primeiro

O meu pai fez tudo para eu hoje estar aqui, para ser a pessoa que sou e deveria muito isso. Acreditou muito em mim desde pequenino, e aos três anos deu-me uma moto, e é por isso que sou apaixonadíssimo por motos. Acompanhou-me todos os dias das gravações. Saía do trabalho e ia comigo ao futebol, à natação, retirou muito tempo da vida dele para me acompanhar.

 

Matilde Reymão

Às cavalitas em Alvalade

O momento alto da minha semana era ir ao estádio de Alvalade com o meu pai, e tenho recordações e fotografias lindas às cavalitas dele, com o cachecol do Sporting ou com a t-shirt pequenina que ele me ofereceu. A minha família sempre foi muito ligada ao Sporting Clube de Portugal.

 

Iva Lamarão

Peixes, cantorias e um anzol na perna

Lembro-me de acompanhar o meu pai na aventura da pescaria desportiva, num dia de praia. E de ter ficado com muita pena dos peixes e com vontade de os lançar de volta ao mar. Mas também me recordo da família reunida a comer os robalos assados no forno, pescados pelo meu pai. E das danças e cantorias junto ao mar. E, de um dia, por distração, ter acabado com o anzol espetado na minha perna.

 

Marta Gil

A seca que afinal era brilhante

Quando era mais nova, entre os meus 12 e 16 anos, o meu pai levava-muito ao cinema King e ao Quarteto. Ambos já não existem hoje em dia na cidade de Lisboa. Normalmente era ao domingo à tarde, e a partir do segundo ou terceiro filme que fui ver, comecei a perceber o que me esperava. Na altura, achava aquele tipo de filmes uma seca, gostava da ideia da ida ao cinema, mas não percebia porque não íamos aos cinemas comerciais. Vi muitos filmes franceses, e vi o filme Existenz que ainda hoje ficou gravado na minha memória. Mais tarde percebi o quão importante foi o meu pai me ter levado a estes cinemas, a ver coisas diferentes, a aguentar o silêncio nos filmes de autor e a ser mais exigente com aquilo que consumia. Hoje, tenho a certeza que esses momentos contribuíram para o meu gosto pela arte. E acho que dentro da arte cabe muita coisa, mas aquilo que aos 12 anos achava uma seca, hoje acho brilhante e, talvez, isso se deva um bocadinho ao meu pai.

 

José Carlos Malato

As anedotas de sempre

Tenho muitas saudades dele e do seu sentido de humor. O meu pai António – Totai, como era carinhosamente tratado pela família – adorava contar anedotas. Vinham umas atrás das outras para delícia da plateia improvisada. Tinha grande repertório, mas só de vez em quando é que o atualizava. Isso aborrecia-me muito quando era miúdo: “outra vez a mesma anedota” pensava eu. Com o passar dos anos, fui achando cada vez mais graça às mesmas anedotas de sempre e, no fim da sua vida, já era eu que pedia “pai, conte lá aquela do alentejano…” e ria a bandeiras despregadas. O que eu gostava daquele ritual. Eu, que não tenho jeito para a comédia, às vezes, dou por mim a dizer, numa roda improvisada de amigos, “sabem aquela do alentejano que…” Quem me dera poder ouvir, neste dia tão bonito, a sua sonora gargalhada e poder dizer “conte lá mais uma, pai!”

 

Duarte Síopa

Uma aula de condução para esquecer

Antes de eu tirar a carta, o meu pai deixou-me conduzir o carro dele, estava a ensinar-me. Ele ia ao meu lado e, de repente, diz “trava” e eu, em vez de travar, acelerei e bumba, levei uma série de carros à frente. Ele meteu as mãos à cabeça e dizia a gritar: “nunca mais vai conduzir um carro meu”. E a verdade é que nunca mais me deixou pegar no seu carro.

 

Fique a par das histórias de Herman José, Matilde Reymão Nogueira, Inês Castel-Branco e muito mais na NOVA GENTE desta semana. Já nas bancas!

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Texto: Ana Filipe Silveira, Inês Neves e Luís Duarte Sousa; Fotos: D.R.

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