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A Diplomacia dos mil milhões: Por dentro do ‘Conselho de Paz’ de Donald Trump

O que é o polémico Conselho de Paz de Donald Trump? Analisamos o convite ao Papa Francisco, o custo de mil milhões de dólares por assento e o impacto na ONU e em Portugal. Saiba como esta ‘diplomacia empresarial’ está a redesenhar o Médio Oriente.

A Diplomacia dos mil milhões: Por dentro do 'Conselho de Paz' de Donald Trump

Num movimento que está a abalar os alicerces da diplomacia global, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou uma iniciativa que muitos descrevem como a tentativa mais audaciosa – e mercantilista – de redesenhar a ordem internacional desde a criação das Nações Unidas, em 1945. O Conselho de Paz, oficialmente apresentado como o braço executor de um plano de 20 pontos para a reconstrução de Gaza e a resolução de conflitos globais, tornou-se o centro das atenções após o convite endereçado ao Papa.

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A notícia de que o Sumo Pontífice está a analisar o convite coloca o Vaticano numa posição delicada entre a sua missão histórica de mediador e a participação num órgão cujas regras de adesão parecem saídas de um manual de estratégia empresarial.

1. O que é o Conselho de Paz de Donald Trump?

O Conselho de Paz (em inglês, Board of Peace) é uma organização internacional privada, mas com pretensões governamentais, desenhada para supervisionar a administração e a reconstrução de territórios em conflito, com enfoque inicial na Faixa de Gaza. No entanto, o seu estatuto vai muito além de uma simples agência humanitária.

De acordo com documentos obtidos pela agência Reuters e pelo International Crisis Group, o Conselho é estruturado como uma empresa holding de diplomacia. No topo da pirâmide está Donald Trump, nomeado Presidente Vitalício (Chairman for Life), com poderes de veto quase absolutos. O órgão funciona sob um modelo pay-to-play: enquanto cerca de 60 países foram convidados para mandatos rotativos de três anos, as nações que desejem um assento permanente e poder de decisão real devem pagar uma “taxa de entrada” de mil milhões de dólares.

2. A Génese da ideia: Como e por que surgiu?

A ideia não nasceu no vácuo diplomático, mas sim da frustração de Trump com as instituições multilaterais tradicionais. Durante o seu mandato, Trump tem sido um crítico feroz da eficácia da ONU, chegando a declarar recentemente que “as Nações Unidas nunca me ajudaram”.

O embrião do Conselho surgiu em setembro de 2025, inserido no Plano Abrangente para o Fim do Conflito em Gaza. Inicialmente, o objetivo era criar um Comité Nacional para a Administração de Gaza (NCAG) para substituir a gestão do Hamas e a influência da UNRWA. Contudo, a visão expandiu-se rapidamente. Trump percebeu que poderia criar um Clube de Grandes Potências onde a burocracia seria substituída pela velocidade das decisões executivas e pela lealdade pessoal ao seu comando.

Surgiu como resposta à necessidade de reconstrução maciça de infraestruturas (onde os seus aliados empresariais, como Jared Kushner, têm interesses declarados) e como ferramenta para contornar o Conselho de Segurança da ONU, onde a Rússia e a China bloqueiam frequentemente iniciativas norte-americanas.

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3. O Conflito com a ONU e a NATO: Diluição ou choque?

Especialistas em direito internacional alertam que o Conselho de Paz não é um complemento às instituições existentes, mas sim uma “ONU paralela”.

Choque com a ONU: O Conselho de Paz reivindica autoridade para implementar resoluções e gerir territórios, funções que pertencem legalmente ao Conselho de Segurança da ONU. Ao cobrar mil milhões de dólares por assentos permanentes, Trump está a mercantilizar o direito de veto, o que choca frontalmente com o princípio da soberania igualitária dos Estados membros da ONU.

A Relação com a NATO: No caso da NATO, o choque é mais subtil, mas igualmente perigoso. O Conselho de Paz propõe garantias de segurança baseadas em “acordos transacionais”. Países que paguem ou ofereçam concessões comerciais aos EUA poderiam, teoricamente, obter proteção através deste novo órgão, enfraquecendo o Artigo 5.º da NATO, que se baseia numa aliança de valores e defesa mútua, não em pagamentos diretos por serviço.

O resultado não é a diluição das instituições antigas, mas o seu esvaziamento. Se os países mais ricos e influentes migrarem para o ‘clube de Trump’, a ONU corre o risco de se tornar num vazio, sem financiamento nem relevância política.

4. A Geopolítica das aceitações e negas

O mapa de adesões ao Conselho de Paz reflete as atuais fraturas ideológicas do mundo:

Quem Aceitou: Até ao momento, países como Hungria (sob Viktor Orbán), Argentina (de Javier Milei) e Emirados Árabes Unidos foram os primeiros a manifestar entusiasmo. Milei declarou que é uma “honra” estar ao lado de quem defende a “liberdade e a propriedade”. A Bielorrússia, representada por Lukashenko, também já se juntou ao grupo, vendo nele uma forma de influenciar o fim da guerra na Ucrânia.

Quem Negou ou Demonstra Cautela: Reino Unido e França têm sido os críticos mais vocais. O primeiro-ministro Keir Starmer expressou preocupação com o papel de Vladimir Putin na estrutura, enquanto Emmanuel Macron recusou o convite, o que terá levado Trump a ameaçar com tarifas sobre o vinho francês. A China confirmou a receção do convite, mas mantém uma postura de “esperar para ver”, focando-se na estabilidade das relações bilaterais.

5. O Caso de Portugal: Entre o alinhamento e a soberania

Portugal encontra-se numa encruzilhada diplomática. Sendo um dos países que recentemente reconheceu o Estado da Palestina (em rutura com a linha dura de Netanyahu e Trump), a adesão ao Conselho de Paz de Gaza poderia parecer contraditória. Fontes diplomáticas indicam que Lisboa vê com bons olhos qualquer esforço para a paz e reconstrução, mas existe uma enorme resistência à ideia de pagar para ter voz ativa na diplomacia mundial.

O governo português, tradicionalmente defensor do multilateralismo e das Nações Unidas (especialmente com um português como António Guterres no cargo de Secretário-Geral), dificilmente aceitaria integrar um órgão que visa enfraquecer a própria ONU. Contudo, a pressão económica e os laços transatlânticos obrigam a uma resposta diplomática “em cima do muro”, evitando uma nega direta que possa prejudicar as relações comerciais com Washington.

O Conselho de Paz de Donald Trump representa a derradeira aplicação da lógica de The Art of the Deal (A Arte da Negociação) às relações internacionais. Se o Papa aceitar integrar este conselho, dará legitimidade moral inestimável a uma estrutura que, na sua essência, substitui a diplomacia de direitos pela diplomacia de dólares. O mundo aguarda agora a decisão do Vaticano, que poderá ser o fiel da balança entre a ordem mundial que conhecemos e este novo “Mar-a-Lago global”.

Redação WiN

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