Salários no privado cada vez mais perto do mínimo: o alerta do Banco de Portugal

Os salários em Portugal em 2026 revelam uma realidade preocupante: o salário mínimo já equivale a 91% do salário mediano no setor privado, o valor mais elevado de toda a zona euro. O Banco de Portugal alerta para os riscos desta evolução.

Salários no privado cada vez mais perto do mínimo: o alerta do Banco de Portugal

Em Portugal, quem recebe o salário mínimo ganha quase o mesmo que o trabalhador típico do setor privado. É este o retrato que emerge do Boletim Económico de junho do Banco de Portugal, divulgado nesta segunda-feira. O índice de Kaitz, que mede o rácio entre o salário mínimo e o salário mediano, subiu para 91% em 2025, comparado com 87% em 2019.

De acordo com o Structure of Earnings Survey do Eurostat, Portugal registava em 2024 o valor mais elevado deste indicador entre os países da área do euro, onde a média se situa nos 69%.

Em termos práticos: um trabalhador que receba o salário mínimo de 920 euros brutos ganha apenas 9% menos do que o trabalhador que está exatamente a meio da distribuição salarial do setor privado. É uma situação sem paralelo na zona euro.

O que explica esta situação

Os salários registaram aumentos significativos nos últimos anos. Em 2025, o crescimento anual do salário médio por trabalhador foi de 5,6% em termos nominais, após 6,2% em 2024 e 6,4% em 2023. Em termos reais, descontando a inflação, os salários cresceram 3,1% em 2025, 3,4% em 2024 e 1,5% em 2023.

O problema é que estes aumentos não foram distribuídos de forma uniforme. Em 2025, os trabalhadores no primeiro decil da distribuição salarial, junto do salário mínimo, registaram um crescimento médio do salário base superior a 8%, enquanto no último decil, próximo dos 3.000 euros, esse crescimento foi próximo de 5%.

O resultado é uma pirâmide salarial cada vez mais achatada pela base. Quem ganha menos viu o seu ordenado crescer mais depressa do que quem ganha mais, o que reduz a desigualdade, mas também reduz os incentivos à progressão e à qualificação.

Privado vs. público: a diferença que persiste

Os salários no setor privado continuam muito abaixo dos da função pública. Em 2025, a remuneração total média na Função Pública foi de 2.244 euros mensais, tendo aumentado 6,3% face a 2024. No setor privado, foi de 1.483 euros, tendo subido 5,4%. A diferença entre os dois setores é de cerca de 760 euros por mês, o equivalente a quase um salário mínimo.

O salário mínimo na função pública é também ligeiramente superior ao do setor privado. Para 2026, o Governo fixou o salário mínimo no setor privado em 920 euros, enquanto para os funcionários públicos o valor é de 934,99 euros. A diferença nominal é pequena, mas os funcionários públicos beneficiam ainda de maior estabilidade contratual, progressão automática nas carreiras e outras condições laborais mais favoráveis.

Portugal na cauda da zona euro nos salários

Apesar dos aumentos recentes, Portugal mantém-se na metade inferior da tabela salarial europeia. O salário médio bruto ronda os 1.483 euros no setor privado, muito abaixo da média da UE. Segundo dados do Eurostat relativos a 2024, o salário médio anual ajustado a tempo inteiro em Portugal foi de 24.818 euros, contra uma mediana de 39.800 euros na UE, menos de dois terços da média europeia. Em termos mensais, e com base em dados de 2023, o salário médio mensal bruto na UE situava-se nos 3.155 euros, enquanto Portugal registava 1.911 euros.

O salário mínimo nacional subiu 5,7% em 2026, passando de 870 para 920 euros, e essa atualização está a pressionar toda a base da pirâmide salarial no setor privado. O salário mediano no setor privado situa-se agora em torno dos 1.010 euros mensais, o que explica o rácio de 91% identificado pelo Banco de Portugal.

O que alerta o Banco de Portugal

O banco central não se fica pela descrição dos dados. Nas suas palavras, “a distribuição salarial em Portugal tem registado uma compressão gradual nos últimos anos, refletindo aumentos salariais mais elevados nos níveis salariais inferiores”. “Esta evolução traduziu-se numa redução da desigualdade salarial, num contexto em que o salário mínimo nacional desempenha um papel central na formação dos salários. A compressão da distribuição salarial em torno do salário mínimo nacional levanta questões importantes relativamente aos incentivos dos trabalhadores e à dinâmica da produtividade da economia.”

Em linguagem simples: quando a diferença entre ganhar o mínimo e ganhar mais do que o mínimo se torna demasiado pequena, os trabalhadores perdem motivação para se qualificar ou progredir. E as empresas perdem incentivos para pagar mais a quem tem mais competências.

O que muda para os trabalhadores

Para quem ganha o salário mínimo, a evolução recente é positiva: o poder de compra subiu. Mas para quem ganha um pouco acima do mínimo, a questão coloca-se de outra forma: os aumentos do salário mínimo aproximam progressivamente os colegas do nível seguinte, tornando a progressão salarial menos visível e menos compensadora.

Muitos trabalhadores que estão logo acima do mínimo podem ver a diferença entre os seus salários e o novo mínimo a reduzir-se, criando uma sensação de injustiça dentro das equipas. Para as empresas, isto significa que as tabelas salariais precisam de ser revistas regularmente, sob pena de perder trabalhadores qualificados para concorrentes que paguem melhor.

Luís Martins; WiN
Imagem Pexels

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