Político moçambicano Mondlane diz que xenofobia exige responsabilidade partilhada
O político moçambicano Venâncio Mondlane afirmou hoje que não se pode responsabilizar apenas a África do Sul pela atual onda de xenofobia no país, apontando também falhas na gestão da imigração no continente.
“A África do Sul está a pedir fronteiras fechadas, é um facto. Não podemos apontar um dedo para a África do Sul enquanto quatro apontam para nós. Nenhum país consegue gerir hospitais, escolas e empregos se as suas leis forem quebradas ou ignoradas, isso é governação, cada sul-africano, [da cidade] de Mamelodi aos Cape Flats, tem o direito de exigir um sistema que funcione”, assinalou o político, em nota divulgada hoje.
Venâncio Mondlane alertou que há também outro lado do conflito, já que, enquanto muitos defendem fronteiras abertas no continente, vários países vizinhos da África do Sul enfrentam graves dificuldades internas. Segundo o político, abrir totalmente as fronteiras nessas condições pode aumentar a pressão sobre a África do Sul, atraindo pessoas de regiões em crise para o único país com maior estabilidade relativa.
“Devemos trabalhar com a África do Sul, não lutar contra ela, para aliviar parte desse peso. A resposta tem de ser dos dois sentidos, corrigir o sistema de imigração da África do Sul e corrigir os Estados falidos ao lado”, defendeu, na mensagem.
Para Venâncio Mondlane, líder do partido Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (Anamola), os sul-africanos não são um povo inimigo, mas “família”.
“Lembrem-se disto, Berlim traçou as linhas. Em 1884, europeus sentaram-se numa sala e cortaram África com uma régua. Separaram famílias, aldeias, reinos. Essas fronteiras são deles, não são nossas. Nós herdámo-las”, declarou.
A mensagem surge numa altura em que a África do Sul enfrenta uma nova vaga de ataques xenófobos contra cidadãos estrangeiros residentes naquele país, um problema recorrente que já motivou o repatriamento de numerosas comunidades de imigrantes pelos seus países de origem, como Moçambique e Nigéria.
Mondlane apelou aos moçambicanos residentes na África do Sul para priorizarem a sua segurança face à atual onda de violência e recomendou que, aqueles que tenham condições para sair do país, o façam, independentemente da situação documental, sublinhando que a vida deve estar acima de qualquer formalidade.
Para os que não tiverem alternativa senão permanecer, aconselhou cautela redobrada, evitando deslocações desnecessárias e zonas consideradas de maior risco, como Joanesburgo, Durban e Cidade do Cabo, além de reforçar a necessidade de proteger as famílias.
Mondlane referiu que os estrangeiros acabam por ser “vítimas duas vezes”, primeiro ao serem forçados a sair dos seus países de origem por causa de crises internas e, depois, ao enfrentarem violência no país de acolhimento, apontando casos registados em bairros como Soweto e Khayelitsha.
Numa outra nota, divulgada hoje, Mondlane apelou para que “todos os africanos em todo o continente e em toda a diáspora” se juntem hoje em “Oração global pela Paz na África do Sul e pela Mãe África”, a começar à meia-noite.
Venâncio Mondlane prometeu transmitir, a partir das 22:00 (21:00 em Lisboa), uma mensagem de “encorajamento e inspiração” antes da oração.
Na terça-feira, o Governo moçambicano admitiu desafios relativos ao repatriamento e reintegração de cidadãos nacionais vítimas de xenofobia na vizinha África do Sul, quando nove moçambicanos já foram mortos e 738 repatriados devido aos ataques.
Manifestantes anti-imigração sul-africanos deram até 30 de junho, terça-feira, para todos os estrangeiros abandonarem o país e o Governo da África do Sul anunciou nos últimos dias restrições às políticas migratórias e o reforço da segurança.
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By Impala News / Lusa