Meia dúzia de ovos mais cara 50 cêntimos: A cronologia da subida
A meia dúzia de ovos está 50 cêntimos mais cara. Analisamos a escalada de preços desde 2025, as causas da crise no setor e o impacto no cabaz das famílias portuguesas.
Ir ao supermercado tornou-se um exercício de gestão de crise para muitos portugueses. Um dos alimentos mais básicos e essenciais na dieta mediterrânica, o ovo, está a registar aumentos históricos. Se recuarmos ao início de 2025, a tendência era clara, mas o cenário atual de 2026 consolida uma subida que sufoca o orçamento familiar: o preço dos ovos subiu bastante – a meia dúzia está, em média, 50 cêntimos mais cara do que há um ano.
Para ler depois
Ovos todos os dias: De vilão do colesterol a superalimento essencial para o cérebro
O salto no preço dos ovos: de 2025 até hoje
A subida não aconteceu da noite para o dia. Segundo dados da DECO PROteste e indicadores de mercado, o preço dos ovos tem sido o vilão do cabaz alimentar. Em março de 2025, uma dúzia de ovos já tinha passado de 1,61€ para 2,05€. Agora, em 2026, a pressão sobre os produtores reflete-se com ainda mais força nas prateleiras.
Cronologia da escalada
Janeiro de 2022: Meia dúzia de ovos custava, em média, 1,14€.
Março de 2025: O preço dispara quase 80% face a 2022, fixando-se a dúzia acima dos 2€.
Fevereiro de 2026: A tendência de alta mantém-se, com a meia dúzia a custar mais 50 cêntimos do que no período homólogo, aproximando-se perigosamente da barreira dos 2,50€ em algumas superfícies.
As cinco razões para o ‘ovo de ouro’
Não se trata apenas de inflação genérica. Existem fatores específicos que criaram a tempestade perfeita no setor avícola:
Custos das rações: O milho e a soja, bases da alimentação das galinhas, continuam com preços instáveis devido a conflitos internacionais e secas severas.
Gripe aviária: Surtos na Europa (Bélgica e Países Baixos) obrigaram ao abate de milhões de aves, reduzindo a oferta global.
Energia e logística: O transporte e a manutenção das explorações avícolas estão mais caros.
Procura externa: A elevada qualidade do produto português tem atraído mercados estrangeiros (como os EUA), o que pode desviar stock do mercado nacional.
Seca em Portugal e Espanha: A falta de água afeta a produção local de cereais, encarecendo toda a cadeia.
Casos semelhantes no cabaz alimentar
O ovo não está sozinho nesta subida. Outros produtos que compõem a dieta básica dos portugueses têm seguido um caminho semelhante de inflação acentuada. No site da Impala, temos acompanhado de perto estas variações que afetam o seu bolso:
Azeite: Outro ‘ouro líquido’ que registou subidas superiores a 50% em menos de dois anos.
Carnes de novilho e de porco: Com aumentos que chegam aos 49% devido aos custos de produção.
Arroz e tomate: Produtos que, tal como os ovos, sofreram o impacto direto das alterações climáticas e da seca na Península Ibérica.
O que esperar no futuro?
Embora os produtores esperem uma estabilização, o futuro permanece incerto. A necessidade de vacinação contra a gripe aviária e a dependência dos preços dos cereais no mercado internacional são as variáveis que ditarão se o preço do ovo voltará a valores mais acessíveis ou se este será o novo normal.
Para já, o consumidor português continua a ter de escolher: paga mais pelo essencial ou procura alternativas proteicas que, infelizmente, também não estão a dar tréguas.
Portugal é o país da União Europeia onde o preço dos ovos mais subiu?
Para compreender como Portugal se posiciona no contexto europeu, é necessário analisar não apenas o preço final na prateleira, mas também a velocidade da inflação no setor. Embora os portugueses sintam um peso crescente no bolso, os dados do Eurostat e de relatórios de mercado de 2025 e início de 2026 mostram que Portugal tem estado, em certos períodos, abaixo da média de subida da União Europeia (UE).
Comparação detalhada
1. A velocidade da subida: Portugal vs. União Europeia
De acordo com os indicadores do Eurostat de 2025, a inflação dos ovos em Portugal foi, curiosamente, mais moderada do que a média europeia em momentos críticos:
Março de 2025: Enquanto o preço médio dos ovos na UE subiu 6,7% (em comparação com o ano anterior), em Portugal a subida foi de apenas 2,9%. Neste período, Portugal ocupava a 12.ª posição entre os 27 países da UE no ranking de aumentos anuais.
2. Quem paga mais na Europa? (Os extremos)
A crise de preços não afetou todos os países da mesma forma. As nações do Leste registaram as subidas mais dramáticas devido à proximidade com conflitos e cadeias de abastecimento mais frágeis:
Maiores aumentos: Chéquia (quase 46%), Eslováquia (29,8%) e Hungria (26,1%).
Onde o preço baixou: Houve países que conseguiram contrariar a tendência em 2025, como os Países Baixos (-3,6%), o Luxemburgo (-3,2%) e a Grécia (-2,0%).
3. Índice de preços harmonizado (novembro 2025)
Em termos de índice de custo (onde 100 seria a base histórica), os dados de novembro de 2025 mostram Portugal numa posição intermédia-alta:
Hungria: 227 pontos (o custo mais do que duplicou face à base).
Portugal: 196,9 pontos.
França: 132,6 pontos.
Luxemburgo: 135,6 pontos.
Isto significa que, embora o preço nominal em Portugal possa parecer mais baixo do que em países como a Dinamarca, o esforço financeiro (o aumento relativo face ao que se pagava antes) em Portugal foi muito superior ao de economias como a francesa ou a luxemburguesa.
4. Fatores que explicam a diferença
Produção interna: Portugal tem uma produção avícola forte, o que ajuda a amortecer choques de oferta externos, ao contrário de países que dependem quase totalmente da importação.
Pressão das retalhistas: Em Portugal, as grandes superfícies têm feito um esforço de “esmagamento de margens” para manter os preços competitivos e não perder volume de vendas num mercado com baixo poder de compra.
Exportação: O facto de Portugal ser um exportador de ovos (inclusive para os EUA em períodos de escassez lá) gera uma tensão: por um lado, garante stock; por outro, se o preço lá fora sobe muito, o preço interno tende a acompanhar para equilibrar o mercado.
Em resumo, Portugal não é o país onde os ovos mais subiram na Europa, mas está longe de ser um refúgio de preços baixos. O consumidor português sente mais a subida porque o peso dos alimentos no rendimento disponível é maior do que a média europeia.