Governo são-tomense promove concursos para travar desaparecimento do carnaval tradicional

Uma dúzia de grupos de carnaval tradicional ainda existente em São Tomé e Príncipe terminam um concurso promovido pela Direção-geral de Cultura, numa iniciativa governamental para evitar a “decadência” desta manifestação cultural.

Governo são-tomense promove concursos para travar desaparecimento do carnaval tradicional

São Tomé, 28 fev (Lusa) — Uma dúzia de grupos de carnaval tradicional ainda existente em São Tomé e Príncipe terminam hoje um concurso promovido pela Direção-geral de Cultura, numa iniciativa governamental para evitar a “decadência” desta manifestação cultural.


“Há dois anos lançámos o concurso nacional do carnaval tradicional, como forma de estimular a permanência, desenvolvimento e que as pessoas possam participar mais ativamente na construção dessas memórias”, disse a Lusa o diretor Nelson Pontes.


Segundo Nelson Pontes, o ministério da educação, cultura, ciência e comunicação tem um “plano de revitalização” desses grupos culturais, através do qual pretende travar “a decadência” de uma das primeiras manifestações culturais que poderá ter sido levada ao arquipélago pela colonização portuguesa.


“Não se sabe ao certo se terá sido trazido pelos portugueses, porque nós não temos o historial, mas tudo indica que sim, porque desde a época de povoamento em 1470, já em Portugal havia essa manifestação cultural, designada “Entrudo”, explica Nelson Pontes.


O carnaval tradicional são-tomense que vulgarmente se chama de “Tlundo”, é constituído por grupos de três a quatro elementos, que durante três dias percorrem diferentes localidades do país, atuando em estilo de sátira fortemente social e comédia, em quintais e em via pública, a troco de um valor monetário.


Eram três dias de animação, antes de Quaresma, promovidas por mais de uma centena de grupos carnavalescos que mostravam suas habilidades satíricas e cujos alvos das críticas sociais eram, na sua maioria mulheres. Paulatinamente esses grupos foram-se desaparecendo.


Há dois anos o próprio ministro da cultura, Olinto Daio iniciou uma campanha destinada a revitalizar os grupos culturais mais antigos do país. Visitou vários deles, ofertou equipamentos e materiais e deu assistência.


A intenção do executivo de São Tomé e Príncipe, segundo o diretor da cultura, é permitir que esses grupos culturais “possam perpetuar-se e transmitir os ensinamentos as gerações mais novas”.


Mas os mais novos não parecem muito interessados em manter as tradições e preferem tentar “copiar” o carnaval brasileiro.


“É uma cópia muito mal feita, que em nada combina com a nossa realidade. Pior do que isso, desvirtua a nossa tradição, os nossos usos e costumes”, lamenta Faustino Lima, de nome artístico Valuma, personagem principal do mais antigo carnaval tradicional ‘Nocentxe’ (Inocente) existente há 55 anos na localidade de Boa Morte, periférica da capital são-tomense.


“Os jovens de hoje não querem aprender connosco, preferem copiar essas coisas de lá fora que eles vêm na televisão”, diz Faustino Lima, cujo grupo vai participar no concurso promovido pela direção de cultura.


“O nosso carnaval é vibração, tem vida e arranca toda malta jovem em casa. Animamos as ruas e damos alegria a juventude” diz, por seu lado, Sólito Sousa, da organização do Skool Dance um dos vários grupos que desfilam nas ruas da capital são-tomense.


Nos últimos oito anos em cada 28 de fevereiro, vários grupos desfilam nas ruas das duas maiores capitais distritais do país, nomeadamente Agua Grande e Mé Zochi, com cânticos e danças, usando trajos considerados “levianos” ou “indecentes” por uma franja da sociedade mais conservadora do país.


São dezenas de desfiles desorganizados, em que participam na sua maioria alunos do género feminino de diferentes escolas secundárias, dos liceus e bairros, mobilizados por associações juvenis. Em contraste com as suas indumentárias, a suas canções fazem apelo ao combate a violência doméstica, gravidez na adolescência e outros crimes de natureza sexual.


“O carnaval desfile é fruto da globalização (…) a globalização quando entra influência e se não houver uma política para o acompanhamento dessa realidade, o que acontece é que manifestações culturais morrem, comportamentos sociais se alteram, novas práticas vão se inserindo, disseminando e o estado tem o poder de controlar esse convívio entre o tradicional e moderno”, sublinha Nelson Pontes.


“Sabem como é a juventude, querem coisas que sejam capazes de vibrar, com toda essa energia, com a ressonância, musicas, vida, é uma fase”, resume.


O estado são-tomense quer resgatar e fazer com que as duas realidades possam concorrer, explica Nelson Pontes.


“Não vamos matar o que é moderno e deixar o tradicional e também não vamos matar o tradicional de deixar o moderno. Vamos fazer com que as duas manifestações possam existir”, acrescenta.



MYB // PJA

By Impala News / Lusa