O comprimido falso que melhora a memória mesmo quando se sabe que não tem nada

Noventa adultos tomaram comprimidos sem qualquer ingrediente ativo durante três semanas. Uns pensavam que eram suplementos reais. Outros sabiam que não tinham nada. Os que sabiam melhoraram mais. Um estudo da Universidade Católica de Milão acaba de provar que o efeito placebo funciona mesmo quando não há engano nenhum.

O comprimido falso que melhora a memória mesmo quando se sabe que não tem nada

A ideia sempre pareceu impossível: se sabe que está a tomar um comprimido que não tem nada, como pode funcionar? A lógica diz que o efeito placebo depende da crença, e que a crença desaparece quando se sabe a verdade. Um estudo publicado no International Journal of Clinical and Health Psychology por investigadores da Universidade Católica de Milão prova que essa lógica está errada.

O estudo envolveu 90 adultos saudáveis com mais de 65 anos, divididos aleatoriamente em três grupos. O primeiro não recebeu qualquer intervenção. O segundo recebeu comprimidos placebo, mas foi informado de que continham ingredientes ativos capazes de melhorar o bem-estar e o funcionamento cognitivo. O terceiro recebeu os mesmos comprimidos, mas foi informado honestamente de que não tinham nada, explicando-se apenas que os placebos podem desencadear respostas benéficas do organismo mesmo assim.

Três semanas depois, os investigadores mediram memória de curto prazo, atenção seletiva, desempenho físico e stress percebido.

O efeito placebo que não precisou de enganar ninguém

O grupo que sabia que o comprimido não tinha nada foi o que mais melhorou. A memória de curto prazo melhorou significativamente em relação ao grupo de controlo. O stress percebido diminuiu mais do que nos outros dois grupos. O desempenho físico também melhorou.

O grupo enganado, que pensava estar a tomar suplementos reais, também melhorou nalguns parâmetros. Mas o grupo honesto foi superior em vários dos resultados medidos. Em alguns casos, saber que o comprimido não tinha nada produziu um efeito maior do que acreditar que era real.

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Por que funciona

A explicação está na expectativa e na atenção. Quando alguém é informado de que um comprimido sem ingredientes pode ajudar mesmo assim, começa a prestar mais atenção ao próprio estado, a monitorizar o seu bem-estar com maior cuidado e a interpretar pequenas melhorias como confirmação da teoria. Este processo de automonitorização ativa mecanismos psicológicos reais que têm efeitos mensuráveis no funcionamento cognitivo e físico.

Os investigadores sublinham que o estudo sugere que a expectativa, a atenção e a autoperceção podem influenciar aspetos do envelhecimento mais do que se assume habitualmente. O cérebro não precisa de ser enganado para beneficiar do efeito placebo. Precisa apenas de acreditar que o corpo pode melhorar.

O que isto significa para a saúde e o envelhecimento

Os autores do estudo são cuidadosos nas conclusões. O estudo é pequeno, durou apenas três semanas, e não substitui tratamentos reais. Mas abre uma perspetiva fascinante: numa altura em que o envelhecimento saudável é uma das grandes preocupações de saúde pública, a ideia de que intervenções simples, baratas e completamente honestas possam ter efeitos cognitivos mensuráveis merece ser investigada com muito mais profundidade.

“O efeito placebo de rótulo aberto pode ser uma ferramenta poderosa”, concluem os investigadores. “E não requer que ninguém seja enganado.”

Luís Martins; WiN
Imagem Pexels

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