Cabaz alimentar no valor mais baixo desde março: por que sobe e desce o preço dos alimentos

O cabaz alimentar da Deco Proteste desceu para 253,63 euros, o valor mais baixo desde março. Mas desde 2022 subiu 38%. Por que sobe e desce o preço dos 63 produtos essenciais que compõem este indicador?

Cabaz alimentar no valor mais baixo desde março: por que sobe e desce o preço dos alimentos

O cabaz alimentar composto por 63 bens essenciais monitorizado pela Deco Proteste atingiu nesta semana o valor mais baixo desde março: 253,63 euros, depois de descer 3,17 euros. É a segunda semana consecutiva de descida. Este alívio pontual não apaga uma realidade mais pesada: desde janeiro de 2022, o mesmo cabaz ficou 38% mais caro, o que representa mais 71,61 euros para encher o mesmo carrinho de compras.

Para perceber por que sobe e desce o preço dos alimentos essenciais de semana para semana, é preciso perceber as forças que atuam em simultâneo sobre o sistema alimentar.

Sazonalidade: frutas e legumes ditam o ritmo

Causa mais imediata das oscilações semanais no cabaz é a sazonalidade dos produtos frescos. Frutas, legumes e peixe fresco variam de preço com a oferta disponível em cada momento do ano. No inverno, produtos como couve, cenoura e cebola são mais baratos. No verão, entram alimentos como melancia, tomate e pepino. Quando há excesso de produção, os preços descem. Quando a oferta escasseia, por seca, geada ou doença das culturas, sobem.

Este efeito é visível nos dados desta semana: a cebola subiu 9% e o alho seco 8%, dois produtos sensíveis às condições climáticas e à época de colheita. Já o arroz carolino subiu 29% desde o início do ano, o peixe-espada-preto 27% e a dourada 24%.

Energia: motor oculto de todos os preços

Os custos de produção agrícola, refrigeração, embalagem e transporte dependem fortemente da energia, e estes aumentos acabam por repercutir-se no preço final do cabaz alimentar. Quando os preços do petróleo sobem, o impacto chega ao supermercado com desfasamento: primeiro encarecem os transportes, depois as embalagens, depois a produção agrícola intensiva, e por fim o preço na prateleira.

A descida recente do preço do petróleo, com o Brent a recuar nos últimos dias, é um dos fatores que contribui para o alívio no cabaz.

Geopolítica e cadeias de abastecimento

O conflito no Médio Oriente e a instabilidade das cadeias de abastecimento globais têm sido dois dos principais motores da inflação alimentar desde 2022. Os fertilizantes encarecem quando os preços do gás natural sobem, o que pressiona os custos agrícolas e, por consequência, o preço dos produtos no supermercado. Segundo dados do Público, o cabaz alimentar aumentou 38,15% entre janeiro de 2022 e junho de 2026, uma subida de 71,61 euros.

Fiscalidade: o IVA que voltou

Em 2023, o Governo aplicou IVA zero a cerca de 46 categorias de alimentos essenciais, o que reduziu temporariamente o preço do cabaz. A medida terminou em dezembro de 2023 e não foi renovada para 2024. O regresso às taxas normais de IVA explica parte da subida acumulada que os consumidores sentiram em 2024 e 2025.

Inflação acumulada: o que os números escondem

Em maio de 2026, a inflação situava-se nos 3,3%. A descida desta semana é positiva, mas precisa de contexto. Desde 2022, o cabaz subiu mais de 35%, o que significa que cada descida semanal de 3 euros é pequena correção num ciclo de subida muito mais longo. Alguns produtos concentram a pressão de forma desproporcionada: desde 2022, a carne de novilho para cozer subiu 126%, os ovos 84% e a couve-coração 77%. São subidas que não se desfazem em poucas semanas.

Por que desce agora

A descida atual resulta da conjugação de vários fatores favoráveis em simultâneo: preço do petróleo a recuar, sazonalidade favorável a alguns produtos frescos e efeito de base comparativo após período de máximos. O cabaz atingiu os valores mais altos desde o início do acompanhamento em 2022 no início de maio de 2026, chegando a ultrapassar os 261 euros. A descida para 253,63 euros é real, mas parte de patamar historicamente elevado.

Aproveitar os momentos de descida para comprar produtos não perecíveis, comparar preços entre superfícies e privilegiar os produtos da época, que são invariavelmente mais baratos e mais frescos, são medidas simples que fazem diferença na fatura mensal.

Luís Martins; WiN
Imagem Lusa

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