Por que bocejamos quando vemos alguém a bocejar? A resposta diz muito sobre si
Está a ler este artigo e provavelmente vai bocejar a meio. Não é coincidência nem falta de educação. O bocejo contagioso é um dos fenómenos mais estudados da neurociência e a explicação diz muito sobre a forma como o cérebro humano se liga aos outros.
Acontece em reuniões, em salas de cinema, em casa ao jantar. Alguém boceja e, segundos depois, outra pessoa faz o mesmo. Às vezes até basta ouvir falar em bocejos para a vontade surgir. O bocejo contagioso é um reflexo tão automático que durante muito tempo foi ignorado pela ciência como pouco mais do que uma curiosidade. Hoje sabe-se que bocejo contagioso.
O que é o bocejo contagioso
O bocejo contagioso ocorre quando o gesto surge após ver, ouvir ou até imaginar outra pessoa a bocejar. É diferente do bocejo espontâneo, que aparece com o cansaço ou o tédio. Os dois têm a mesma aparência exterior, mas surgem por caminhos neurais distintos no cérebro.
O bocejo contagioso é mais do que um reflexo. É uma forma ancestral de comunicação não verbal, uma maneira de transmitir a mensagem implícita de “fica alerta, eu não consigo”, segundo investigadores da área. Esta hipótese comunicativa é hoje a mais aceite pela comunidade científica.
Os neurónios-espelho e a empatia
A explicação mais sólida para o bocejo contagioso passa pelos neurónios-espelho, grupos de células nervosas que se ativam tanto quando realizamos uma ação como quando observamos outra pessoa a fazê-la. Quando vemos alguém a fazer um movimento, partes do cérebro simulam internamente esse movimento. Se o movimento observado for um bocejo, essa simulação pode transbordar para a ação.
A neurociência aponta que o bocejo por contágio está diretamente ligado à capacidade de interpretar os estados emocionais e as intenções de outras pessoas. Quando alguém boceja, o cérebro de quem está por perto capta isso como um sinal de sonolência, tédio, fome ou stress e aciona automaticamente um estado de alerta.
É aqui que entra a empatia. Diversos estudos indicam que indivíduos mais sensíveis às emoções alheias tendem a bocejar com mais frequência ao ver outras pessoas bocejando. O gesto seria um reflexo de alinhamento emocional automático do cérebro social.
Quanto mais próximo, mais contagioso
Um estudo da Universidade de Pisa acompanhou grupos de pessoas em contextos naturais e concluiu que os bocejos contagiosos surgiam muito mais entre amigos e familiares do que entre desconhecidos. Quanto maior a proximidade emocional, maior a probabilidade de se formar uma cadeia de bocejos.
Ou seja: se boceja ao ver um amigo ou familiar bocejar com mais facilidade do que ao ver um estranho, não é acidente. É o cérebro a revelar a intensidade do vínculo afetivo.
Por que as crianças pequenas não pegam bocejos
A capacidade de pegar bocejos desenvolve-se por volta dos quatro ou cinco anos, coincidindo com o amadurecimento das redes neurais ligadas à empatia. Bebés e crianças pequenas, que ainda estão a desenvolver a empatia, geralmente não pegam bocejos.
Da mesma forma, pessoas com condições que afetam a empatia e a cognição social, como o autismo e a esquizofrenia, apresentam menor suscetibilidade ao contágio.
A teoria que a ciência já descartou
Durante décadas, a explicação mais popular para o bocejo era simples: o corpo precisava de mais oxigénio e o bocejo servia para o fornecer. Estudos controlados mostram que pessoas em ambientes bem ventilados continuam a bocejar com a mesma frequência, mesmo quando os níveis de oxigénio e dióxido de carbono são mantidos dentro da normalidade. Isso reforça a ideia de que a explicação tradicional não se sustenta sozinha.
O que isto diz sobre si
Se bocejou algures durante a leitura deste artigo, não se preocupe. É sinal de que o seu sistema de empatia do cérebro está a funcionar. E se está a bocejar agora, é porque o bocejo contagioso funciona também através da palavra escrita.