A ciência percebeu finalmente como se faz uma abelha rainha e a resposta surpreende

Durante séculos, a ciência acreditou que a geleia real era o único ingrediente que transformava uma larva comum numa abelha rainha. Um estudo publicado na revista Nature pela Universidade da Califórnia Riverside deita por terra esse mito e revela uma maquinaria social muito mais sofisticada por detrás da coroa.

A ciência percebeu finalmente como se faz uma abelha rainha e a resposta surpreende

A receita parecia simples: pegar numa larva, colocá-la numa célula rainha, alimentá-la com geleia real em abundância, e uma abelha rainha emerge. É no que os cientistas acreditavam há séculos. Um estudo publicado a 3 de junho na revista Nature, conduzido pelo Centro de Investigação Integrativa das Abelhas da Universidade da Califórnia Riverside, demonstrou que a realidade é muito mais complexa e fascinante.

“O velho conceito era relativamente simples”, explicou Boris Baer, entomologista e diretor do centro de investigação. “O que descobrimos é que existe toda uma maquinaria por trás deste processo. É muito mais sofisticado do que imaginávamos.”

A abelha rainha e o papel esquecido dos berços reais

Uma abelha rainha e uma operária começam a vida de forma praticamente idêntica: como ovos quase indistinguíveis. E, no entanto, a rainha cresce maior, matura mais rapidamente e vive até 20 vezes mais do que as operárias. A diferença foi durante muito tempo atribuída exclusivamente à geleia real, a substância secretada pelas abelhas operárias que alimenta as larvas destinadas a tornarem-se rainhas.

O que o novo estudo revelou é que as câmaras onde as futuras rainhas se desenvolvem, conhecidas como células rainha ou “berços reais”, não são simples contentores protetores. São ambientes hábil e cuidadosamente construídos, com propriedades físicas e químicas únicas que desempenham um papel determinante no desenvolvimento da abelha rainha.

Estas células têm uma forma característica semelhante a um amendoim, completamente diferente das células hexagonais habituais da colmeia. Mas a diferença vai muito além da forma.

As construtoras dos berços reais

Os investigadores identificaram uma classe de abelhas operárias jovens anteriormente desconhecida pela ciência, a que chamaram “construtoras de células rainha”. Estas abelhas parecem especialmente adaptadas para a tarefa: constroem os berços reais com um tipo de cera diferente da cera normal da colmeia, mais flexível e menos densa, com um perfil único de ácidos gordos e sinais químicos específicos.

Durante a construção, estas operárias mantêm uma temperatura corporal mais elevada do que as restantes abelhas da colmeia e apresentam padrões distintos de ativação genética. Constroem mais lentamente e com mais cuidado do que as construtoras de células normais, e os berços que produzem mantêm temperaturas e níveis de humidade superiores, criando um microclima que acelera o desenvolvimento da larva destinada a abelha rainha, reduzindo o período de 21 dias necessário para uma operária para apenas 16 dias.

A prova decisiva: trocar as tampas

A equipa de investigação realizou uma experiência reveladora para confirmar a importância do material dos berços reais. Após quatro dias de desenvolvimento em geleia real dentro de células artificiais, substituíram as tampas das células de larvas destinadas a rainhas por cera de células de operárias, e vice-versa.

O resultado foi claro: até dois terços das larvas cobertas por cera de células de operárias morreram, contra apenas um terço das larvas cobertas por cera de células rainha. As que sobreviveram sob cera de operária desenvolveram-se em ‘pupas’ significativamente menores. A cera não é apenas embalagem. É parte essencial do processo de fazer uma abelha rainha.

Uma colmeia que pensa como um organismo

A descoberta reforça uma visão cada vez mais aceite pela entomologia: uma colmeia não é uma simples coleção de indivíduos. É um sistema biológico integrado, capaz de gerar o seu próprio ambiente. As abelhas são animais com capacidades extraordinárias, e esta nova descoberta acrescenta mais uma à lista.

“Este trabalho destaca quanta sofisticação existe nas sociedades de insetos”, afirmou Baer. “As colónias de abelhas não são simplesmente coleções de indivíduos. Funcionam como sistemas biológicos integrados capazes de produzir os seus próprios ambientes.”

As mesmas estratégias foram encontradas tanto nas abelhas europeias como nas asiáticas, o que indica que estes mecanismos são profundamente enraizados na evolução das abelhas e não um traço adquirido recentemente.

Por que isto importa além da biologia

As abelhas são muito mais do que curiosidades naturais. São essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas e para a produção de alimentos. O declínio das populações de abelhas a nível global é uma das maiores preocupações ambientais da atualidade, e compreender melhor como as colónias criam a sua abelha rainha é fundamental para as proteger.

A radiação do Wi-Fi está a desorientar as abelhas, os pesticidas afetam a sua capacidade de navegar, e os habitats naturais estão a diminuir. Iniciativas como a que levou Oliveira no Hospital a distribuir cinco toneladas de alimento para abelhas mostram como a proteção das abelhas pode surgir dos lugares mais inesperados.

Se alguma vez foi picado por uma abelha e perguntou-se porquê, a resposta tem uma lógica biológica fascinante. E se quer saber como tratar uma picada, pode encontrar orientações práticas para o verão.

Por enquanto, a lição principal desta investigação é clara: durante séculos pensámos que sabíamos como se faz uma abelha rainha. Afinal, mal sabíamos o que não sabíamos.

Luís Martins; WiN
Imagem Pexels

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