O que se passa na Crimeia: a estratégia ucraniana para transformar a península numa ilha
A Crimeia está a ser alvo de uma campanha intensa de drones ucranianos. Pontes destruídas, comboios parados, postos de combustível fechados, cortes de energia. O objetivo declarado de Kiev é claro: transformar a península numa ilha. Mas porquê agora e o que está realmente em jogo?
Nas últimas semanas, a Crimeia tornou-se o principal teatro da guerra de drones entre a Ucrânia e a Rússia. As imagens de pontes destruídas, postos de combustível fechados e comboios parados são a face visível de uma estratégia militar deliberada e sistemática que Kiev está a executar com crescente eficácia. Os bombardeamentos russos respondem com ataques a Kiev, mas a iniciativa estratégica na frente da Crimeia está, neste momento, do lado ucraniano.
Por que é tão importante a Crimeia
A Crimeia é o coração logístico da presença militar russa no sul da Ucrânia. Desde a sua anexação ilegal pela Rússia em 2014, a península transformou-se na principal base de operações da Frota Russa do Mar Negro e num hub de abastecimento fundamental para as forças russas que operam no sul da Ucrânia, incluindo as regiões de Kherson e Zaporizhzhia.
A Ponte de Kerch, construída pela Rússia em 2018 para ligar a Crimeia ao território russo continental, é o símbolo desta dependência logística. Por ela passam combustível, munições, reforços militares e bens civis. Destruí-la ou torná-la inutilizável seria um golpe decisivo na capacidade russa de sustentar a guerra no sul.
A Ucrânia ainda não destruiu a Ponte de Kerch. Mas está a fazer algo que pode ser igualmente eficaz: destruir todas as alternativas, uma a uma, até a ponte ser o único ponto de ligação restante entre a Crimeia e a Rússia.
A cronologia das últimas semanas
7 a 13 de junho • A campanha começa com intensidade. Drones ucranianos atingem a ponte de Chonhar, a principal ligação terrestre entre a Crimeia e o território continental da Ucrânia ocupada. Na mesma semana, são atacadas quatro pontes perto de Armiansk, a travessia entre Henichesk e Arabat Spit, e o posto de controlo de Dzhankoi, nó ferroviário central da península. O tráfego para a Crimeia cai 71% em relação aos níveis anteriores, segundo dados do comando ucraniano.
21 de junho • O maior ataque da campanha até à data. A Ucrânia lança 239 drones contra a Crimeia e a região de Krasnodar, no sul da Rússia. Cinco pessoas morrem e 29 ficam feridas. Os alvos incluem instalações em ambos os lados da Ponte de Kerch: a logística marítima de transporte de petróleo em Krasnodar e um depósito de petróleo na cidade ocupada de Kerch. Os postos de combustível em toda a Crimeia suspendem as vendas ao público. A Ponte de Kerch fecha durante mais de nove horas, atrasando 11 comboios. O serviço de balsas pelo Estreito de Kerch é suspenso. “Tudo isso é uma resposta justa aos brutais ataques russos contra o nosso povo”, escreve Zelensky.
23 de junho • O golpe mais cirúrgico da campanha. As Forças de Operações Especiais da Ucrânia anunciam a destruição da ponte ferroviária sobre o Canal Norte da Crimeia, perto da aldeia de Rozdolne. “Lamentamos, mas temos um anúncio urgente oficial: a ponte ferroviária sobre o Canal Norte da Crimeia já não existe. A primeira desapareceu”, escreve o comando ucraniano, numa declaração que deixa subentendido que haverá mais. A Rússia suspende de imediato todos os serviços de comboio dentro da Crimeia. Na mesma noite, drones atingem 60 alvos na península, incluindo depósitos de petróleo na central térmica de Kerch e a subestação elétrica de Crimeia Ocidental, no aldeia de Karierne.
24 de junho • Kiev reivindica novos ataques na Crimeia.
A estratégia: transformar a Crimeia numa ilha
O objetivo da Ucrânia não é segredo. O comandante ucraniano Robert Brovdi afirmou abertamente à Reuters que a campanha de drones visa perturbar a logística e o abastecimento russo e que Kiev pretende isolar completamente a Crimeia. “A península vai transformar-se numa ilha”, declarou um responsável ucraniano à CNN Portugal.
A lógica militar é simples: uma Crimeia isolada é uma Crimeia que não consegue abastecer as forças russas no sul da Ucrânia. Sem combustível, sem munições, sem reforços, as linhas da frente russas ficam vulneráveis. E uma Crimeia em crise de abastecimento é também politicamente embaraçosa para Moscovo, que a apresenta à sua população como uma conquista permanente e segura.
O que a Rússia está a fazer
A resposta russa tem sido dupla. No plano militar, intensificou os ataques de mísseis e drones contra o território ucraniano, incluindo Kiev. Putin acusou a NATO de se estar a preparar para atacar a Rússia e descreveu os ataques ucranianos como tentativas de “perturbar a sociedade” russa.
No plano diplomático, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, afirmou que Moscovo está pronta para retomar as negociações de paz a partir do ponto onde foram interrompidas, sem alterar as exigências russas de controlo das regiões do Donbass ainda sob controlo ucraniano. Kiev rejeitou estas condições, como sempre fez.
O que acontece a seguir
A Ponte de Kerch continua de pé. É o objetivo final, mas também o mais protegido. A Rússia investiu fortemente na sua defesa aérea em torno da ponte e dos pontos de acesso ao Estreito de Kerch. A Ucrânia sabe que destruir a ponte seria um golpe decisivo, mas também o mais difícil de executar.
Por agora, a estratégia ucraniana consiste em apertar o cerco: destruir tudo o resto, criar uma crise de abastecimento e de mobilidade na Crimeia, e forçar a Rússia a concentrar recursos na defesa de uma península cada vez mais difícil de sustentar. É uma guerra de desgaste logístico, travada maioritariamente por drones, a centenas de quilómetros das linhas de trincheira do Donbass.