Preço das casas sobe 17,8% mas pela primeira vez em dois anos o ritmo está a abrandar
Os preços da habitação em Portugal aumentaram 17,8% no primeiro trimestre de 2026 em termos homólogos. O ritmo de subida abrandou pela primeira vez desde o segundo trimestre de 2024. As casas continuam a ficar mais caras, mas o mercado está a dar os primeiros sinais de mudança.
Os preços da habitação em Portugal continuam a subir a dois dígitos, mas há uma novidade nos dados divulgados hoje pelo INE: pela primeira vez desde o segundo trimestre de 2024, o ritmo de crescimento abrandou. O Índice de Preços da Habitação cresceu 17,8% em termos homólogos no primeiro trimestre de 2026, menos 1,1 pontos percentuais do que no trimestre anterior, que tinha registado 18,9%.
O aumento foi mais expressivo nas habitações existentes, que subiram 19,7%, do que nas habitações novas, que aumentaram 12,6%. São as casas usadas que estão a puxar os preços para cima, reflexo de uma escassez estrutural de oferta nova no mercado.
O que explica a desaceleração
A desaceleração não significa que as casas estão a ficar mais baratas. Significa que estão a ficar mais caras a um ritmo ligeiramente inferior ao dos trimestres anteriores. E há várias razões que explicam esta mudança.
A primeira é o efeito de exaustão da procura. A compra de casas em Portugal atingiu máximos históricos em 2025, e as famílias, confrontadas com preços cada vez menos acessíveis, estão a adiar decisões de compra. Os especialistas chamam-lhe “fadiga do comprador”: quem queria comprar já comprou, e quem quer comprar agora está a aguardar sinais de estabilização.
A segunda razão é a incerteza económica. O impacto da guerra no Médio Oriente nos preços da energia e da construção também encareceu os custos do setor imobiliário, tornando os projetos novos mais lentos e menos rentáveis.
A terceira é a própria matemática dos preços. “Trata-se de um ajuste natural num mercado que não é elástico e que dificilmente poderá sustentar, de forma prolongada, variações na ordem dos dois dígitos”, disse a presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal, Patrícia Barão.
Portugal continua em segundo lugar na UE
Apesar da desaceleração, Portugal mantém-se entre os países da União Europeia onde os preços da habitação mais sobem. No quarto trimestre de 2025, os preços das casas aumentaram 5,1% na zona euro e 5,5% na UE em termos homólogos, enquanto Portugal registava 18,9%, o segundo valor mais elevado da UE, apenas atrás da Hungria, com 21,2%.
A comparação é reveladora: enquanto a média da UE ronda os 5%, Portugal está a crescer a uma velocidade mais de três vezes superior. Portugal tornou-se o segundo país da UE com maior aumento nos preços da habitação desde 2020, com uma subida acumulada de 24,1%, apenas atrás da Grécia, com 29%.
Desde 2015, os preços das casas em Portugal mais do que duplicaram, com uma subida acumulada de 169%, a maior da UE a par da Lituânia. É um crescimento muito além do aumento dos salários e do poder de compra médio das famílias portuguesas.
O défice estrutural que não se resolve
Por detrás de todos estes números está um problema que não tem solução rápida: Portugal constrói muito menos do que precisa. Apenas são disponibilizadas cerca de 25 mil novas habitações por ano quando a procura real exigiria um volume próximo das 70 mil, segundo a APEMIP. Entre habitação pública, nova construção e reabilitação, Portugal terá um défice habitacional na ordem de 800 mil a um milhão de casas.
Enquanto a oferta não crescer de forma significativa, a pressão sobre os preços não vai desaparecer. A desaceleração de hoje é um sinal, não uma solução.
O que esperar para os próximos trimestres
Os especialistas apontam para uma continuação da desaceleração ao longo de 2026, mas sem inversão da tendência. “Não sendo expectável uma inversão a curto prazo, é razoável antecipar uma desaceleração do ritmo de subida dos preços, ainda que 2026 continue a registar crescimentos, embora mais moderados”, afirmou a presidente da APEMIP.
Para quem está à espera que as casas fiquem mais baratas, a mensagem dos dados é clara: ainda não é esse o cenário. O que pode mudar, nos próximos trimestres, é o ritmo a que ficam mais caras.