Tiago Castro e Marine Antunes Celebram a sua relação diariamente: “Percebemos que somos muito mais fortes juntos”
Cruzaram-se em alturas complicadas: ele enfrentava uma depressão; ela, depois de um cancro na adolescência, a morte de um namorado. Deram-se a conhecer e nunca mais se largaram. Juntos há 11 anos, dizem-se românticos, pirosos mas não assinalam o Dia de São Valentim. Quanto à pergunta sobre ter filhos, a resposta é a mesma de sempre: “Estamos bem assim, mas se acontecer será uma bênção.”
Fazem 11 anos de namoro e cinco de casamento. Celebram o Dia dos Namorados?
Tiago Castro – [risos] Não, mas eu acho que isto já vinha também do nosso próprio historial. Eu nunca celebrei o Dia dos Namorados porque sempre acreditei que uma relação, se for saudável, celebra-se todos os dias, como o Natal. Devemos celebrar durante o ano e não esperar pela data para comemorar. Eu também gosto de sentir que não espero pelo fim de semana para fazer coisas boas, nem pelos 15 dias do verão para poder ir à praia.
Mas será que nos dias que correm, e devido a todo o stress, estas datas fazem falta para chamar a atenção dos mais distraídos?
Marine Antunes – É como as datas de sensibilização para alguma coisa importante. Eu concordo plenamente, mas no nosso caso, eu e o Tiago não temos uma vida rotineira nem muito stressante. Somos freelancers, donos do nosso tempo e para nós não faz sentido. O Tiago também se esqueceu de dizer que eu faço anos a 13 de fevereiro e sou aquela pessoa que dá muito trabalho no aniversário porque tudo é motivo para festejar, e consigo entender que as pessoas chegam ao 14 e já estão um bocado saturadas [risos]. Mas, se tivéssemos outro tipo de vida, se calhar daríamos mais valor e percebo perfeitamente a importância.
Portanto, não condenam, nem criticam?
M.A. – Nada. Nós somos um casal assumidamente piroso, nós adoramos gestos românticos e esse tipo de coisas, não somos anti nem dizemos que é uma foleirada. O amor é foleiro e é mesmo para ser.
Como é que definem a vossa relação? Românticos, pirosos, cheios de humor…
T.C. – Eu acho que nós trazemos o melhor um do outro e empoderamo-nos muito um ao outro. Jogamos como equipa, percebemos que somos muito mais fortes juntos e isso resume-se à vida pessoal e profissional. Somos uma parte gigante daquilo que é o sucesso do outro e não nos conseguimos dissociar. Falamos muito, somos os melhores amigos, adoramos a companhia um do outro…
M.A. – Somos a pessoa com quem mais nos divertimos.
T.C. – E temos a mesma forma de estar na relação, sentimos sempre que há espaço para crescer e evoluir. Não somos as mesmas pessoas que éramos há um ano, há cinco… Somos pessoas completamente diferentes e daí acreditarmos que a monogamia pode ser muito interessante, porque temos este espaço para crescer não só como pessoas individuais mas como casal. Ela é testemunha dos meus esforços para melhorar, para ser uma pessoa diferente, e eu sou testemunha dessa forma de estar da Marine.
É uma relação também feita de altos e baixos como todas as relações?
M.A. – Exatamente e a nossa é uma relação em que somos felizes na nossa imperfeição. Eu acho que isso é muito importante. Aquilo que é basilar é termos os mesmos valores, esses são inegociáveis e iguais. Mas somos muito diferentes nas personalidades. Eu, se calhar, fico muito histérica quando estou muito feliz e o Tiago fica sem reação. Eu digo muitas vezes isto às minhas pessoas: o Tiago está na minha vida porque a minha vida é muito melhor com ele e quando temos maus momentos ou dificuldades, e todos passamos por obstáculos, é muito interessante que a relação nunca está em causa. Às vezes, faz-me confusão – e sou muito feminista – as mulheres que se encolhem para caber nas expectativas dos outros ou porque parece mal. O Tiago, quando me conheceu, sabia que eu era uma pessoa expansiva, que gostava de me rir, de me divertir, de dançar e ele muitas vezes, não sendo como eu, acompanha-me e diz-me: “Não estás a abrir a pista porquê?”
Portanto, não a retrai?
M.A. – Não. Há individualidade, mas o nosso casamento é a nossa prioridade. E nunca há anulação, pelo contrário, há sempre crescimento. Nós trabalhamos juntos, vamos ao ginásio juntos, divertimo-nos juntos e as pessoas perguntam-nos: “Vocês não se fartam?” Não, porque, nós encontramos espaço para a nossa individualidade e para a nossa relação.
Recorde-nos o dia em que conheceu a Marine…
T.C. – Tenho uma imagem muito clara da primeira vez que vi a Marine porque eu tinha vindo há pouco tempo dos Estados Unidos. Estava a ensaiar um espetáculo, vivia no Porto, mas vinha a Lisboa muitas vezes para ensaiar, e estávamos à porta de casa de um amigo em comum. A Marine tinha estado a almoçar com ele e ia apanhar a camioneta para ir para Fátima, para casa, e aquilo ia ser um encontro de dois minutos. Naquele instante, não sei porquê, porque eu não tenho iniciativa de chamar ninguém, muito menos naquela altura em que estava a passar por uma depressão, mas gostei da luz dela, da energia, e convidei-a a participar no ensaio. A verdade é que não houve ensaio nenhum porque passámos três horas a conversar.
M.A. – Esquecemos o nosso colega e só reparámos que estávamos na casa dele quando ele começou a sacudir tapetes e a limpar a casa. Nós somos muito parecidos ao nível da distração. Claro que perdi a camioneta, não houve ensaio e ficámos juntos até hoje.
Como o Tiago contou, no início do vosso namoro, ele passava por uma depressão e a Marine tinha perdido um namorado. Estava aberta a uma relação ou foi uma supresa?
M.A. – Não estava nada aberta a uma relação. Quando nos conhecemos, eu disse-lhe que não estava disponível a sofrer nem a perder tempo. Eu sou muito exigente e até um bocadinho inflexível, porque vinha com o coração destruído, tenho muito respeito por mim e nunca pensei que fossemos ter uma relação. Mas também já me habituei a perceber que a vida é absolutamente extraordinária e eu estou aberta à imprevisibilidade da vida. Eu digo muito esta máxima: da mesma forma que não escolhi ter cancro, que não escolhi perder um namorado nem passar por tantas tormentas mas tive que as aceitar e viver, quando vêm as coisas boas eu também não fujo delas.
T.C. – Enquanto estava a passar pela depressão, eu tinha muita resistência à alegria, como se não a merecesse, e depois encontrei uma pessoa que tem esta forma de estar e foi completamente inspirador. Foi um trabalho diário e hoje já incorporei essa forma de estar, de permitir que a alegria entre na minha vida nos dias mais tristes. É tradicionalmente português, parece que temos de sofrer porque se não os outros pensam que não estamos a honrar aqueles que partiram ou a história que nos levou a sofrer.
Troca de elogios e defeitos
Como é que define o seu marido?
M.A. – Bem, o meu marido é perfeito. Eu casei com o meu melhor amigo, além de ser ótimo cozinheiro e de cuidar muito de mim, o Tiago é a pessoa mais humilde, mais espontânea, mais divertida, mais bondosa que eu conheço, ou seja, eu sou fã do meu marido. Da forma como ele é para os pais, o tio que é, o irmão que é, de todos os papéis que ele agrega. Não me interessava ter um excelente marido, mas depois vê-lo a não ser um bom amigo, cunhado, filho… Só gostava que ele se visse como eu o vejo e que fosse ainda mais seu amigo, mas está nesse caminho da autoestima. É a minha pessoa favorita do mundo.
Ele tem algum defeito?
M.A. – [Risos]. Nós somos diferentes, por exemplo, quando nos chateamos. Eu quero logo resolver as coisas, ele precisa de tempo para pensar. E é muito distraído, muito mais que eu.
E como é que descreve a Marine?
T.C. – Eu acho que a Marine é quase a junção de uma alma antiga com olhos de criança, ou seja, é uma pessoa que parece que já tem uma experiência de vida gigante, mas vê sempre tudo com uma vulnerabilidade e predisposição como se estivesse a vivê-la pela primeira vez. É uma pessoa extremamente generosa, a mais generosa que conheço, é uma pessoa que, de um momento para o outro, se lembra de mandar uma mensagem para saber de um amigo ou familiar. Ela acredita que o doar lhe acrescenta e é extremamente afetuosa.
Além de distraída, ela tem mais defeitos?
T.C. – A Marine está a trabalhar muitas coisas e o que admiro nela é esta forma que ela tem de não ceder perante as coisas mais difíceis que tem a trabalhar e tentar melhorar nesses pontos. A Marine tem muita dificuldade em ler os ambientes, por exemplo.
M.A. – Este ano descobri que tenho PHDA [Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção], faço terapia e está a ser muito transformador porque percebemos alguns comportamentos que não são feitio. Tenho dificuldade em me posicionar e ler a sala. O Tiago é muito mais rápido nisso porque é mais observador e eu, como sou hiperativa, vou agir antes de pensar e tenho que trabalhar essa calma.
E como é trabalhar juntos? Funciona?
T.C. – Sim, o ano passado começámos um projeto que foi o culminar de algo que já vínhamos a alimentar há algum tempo, que era a vontade de eu interpretar textos escritos pela Marine. Já tínhamos começado com uns poemas que viralizaram nas redes sociais…
M.A. – Até que culminou na peça Agora Noutro Lugar, escrita por mim, interpretada brilhantemente pelo Tiago, encenada pelo Marco Medeiros, que é um encenador que admiramos muito.
Uma peça que fala de amor, dor, luto?
M.A. – Sim, a premissa é muito gira. É um homem que está de luto e vai ao cemitério pedir o divórcio à mulher morta. É uma metáfora e uma viagem ao luto e ao desespero deste homem que faz de tudo para odiar a mulher. É uma tragicomédia e a reação do público tem sido absolutamente extraordinária. Estivemos no dia 30 no Olga Cadaval, em Sintra, e as receitas reverteram a favor da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos que assinala o seu 30º aniversário. Ainda vamos fazer outro espetáculo solidário para eles, porque é uma causa que está no meu coracão, que me toca e que acompanho.
Sentiu falta de apoio de associações quando enfrentou a sua doença?
M.A. – Eu fui diagnosticada com um linfoma, que é um cancro de sangue, aos 13 anos e tive todo o apoio familiar, de amigos, nunca me senti tão privilegiada no afeto. Eu costumo dizer que há uma culpa do sobrevivente que o leva a pensar: “Porquê eu? Porque é que tive a doença?” Eu sempre perguntei porque é que eu sobrevivi? São questões que não nos levam a lado nenhum, mas o facto de ter sobrevivido fez-me querer honrar esta estadia mais prolongada. Eu, na altura, não tive um nutricionista, tive uma psicológa porque a minha mãe foi à procura, as coisas eram mais difíceis. Estas associações agora permitem cuidados e fazem um trabalho complementar ao Estado extraordinário. Voltando ao espetáculo Agora Noutro Lugar, vamos estar a 12, 13 e 14 no Centro de Artes de Lisboa, sendo que estes dias não revertem para a associação.
Ou seja, vai estar em exibição no seu aniversário e no Dia dos Namorados.
M.A. – Exato, venham todos dar-me os parabéns e festejar o Dia dos Namorados connosco. Depois vamos para Famalicão, Ansião, mas nós trabalhamos juntos em muitas outras coisas.
Como, por exemplo, nas palestras que dá com o projeto que criou Cancro Com Humor?
M.A. – Eu faço as palestras sozinha, há 12 anos, em contexto hospitalar, empresarial, com associações, galas solidárias, e o Tiago acompanha-me sempre que pode. É ele que filma, edita, até me penteia [risos]. Quando ele apresenta o espetáculo Daqui de baixo e eu posso, também vou, mas não sou tão útil [risos].
O que ainda lhes falta fazer
Fale-nos do espetáculo Daqui de Baixo.
T.C. – É o que tenho andado a fazer nestes últimos anos, é um stand up em que falo do meu percurso de vida. Tem duas conotações, uma sobre a altura e de eu ser um homem baixo, e de tudo aquilo que foi a montanha russa da minha vida, as depressões… É olhar para as tragédias com tempo e humor. Além disso, temos o Agora Noutro Lugar, como a Marine já referiu, tenho os meus trabalho nas redes e dois projetos na RTP. Uma colaboração transatlântica com a Porta dos Fundos, do Fábio Porchat, faço parte do núcleo de atores portugueses, e o Homens de Honra, uma série sobre a vida de Álvaro cunhal e Mário Soares em que interpreto o Jaime Gama.
Tem uma longa carreira. Falta-lhe fazer alguma coisa?
T.C. – Falta-me sempre fazer alguma coisa.
Que convite agarrava agora sem hesitar?
T.C. – Desde que me aventurei em criar os meus próprios projetos, que a minha carreira passa mais por ter essa vontade e imaginação para criar algo com que me identifique e ter a abertura de alguém que queira investir nesse projeto. A minha premissa é sempre trabalhar com bons profissionais e com quem me sinta bem a trabalhar.
E o que falta à Marine? Quatro livros, já venceu prémios…
M.A. – Falta-me fazer tudo! Viajar, estamos a finalizar um quinto projeto e vou continuar a escrever mais peças, livros, apresentar mais palestras lá fora, levar a nossa peça lá fora. Tudo o que gosto de fazer quero fazer mais. Quando me pressionam e querem saber quando é o próximo projeto, eu respondo que estou a adorar e quero só prolongar o que estou a fazer.
É como a pergunta sobre os filhos, em que vocês respondem sempre: “Estamos bem assim”?
M.A. – Estamos bem assim, mas não fechamos portas.
E não é um tabu falarem deste tema?
T.C. – Não, ainda anteontem estivemos uma hora a falar disto.
M.A. – Vou fazer 36 anos e não estou a passar pelo mesmo processo que muitos amigos que é a pressão. O que tiver de ser será, se um dia acontecer será uma benção e poderá mesmo ser uma criança interessante com a junção de mãe histérica com um pai calmo [risos].
T.C. – E até já apanhámos aquilo que se diz que é um susto e foi interessante a nossa reação.
M.A. – Eu comecei a dizer que me estavam a doer as costas [risos]. Mas o Tiago é muito leve, ele fez daquilo uma piada. Depois percebemos que afinal foi só um susto e reagimos bem. Estamos muito bem resolvidos e as nossas pessoas também. No fundo, tenho algum medo de estragar o que conquistei, ou seja, tenho uma boa saúde e estamos tão bem assim. Não vou mentir que tenho um bocadinho de trauma pelo que passei e o facto de os meus pais terem tido uma filha doente. Eu não desejo isso a ninguém e é algo que também deixa marcas.
Texto: Neuza Gomes; Fotos: Tito Calado: Produção: Zita Lopes; Maquilhagem/Cabelos: All About Makeup; Agradecimentos: Antarte – Flagship Store Alfragide – antarte.pt