Zoo quase centenário de Maputo procura investidores para nova cara

Com o centenário, em 2029, perto, o Jardim Zoológico de Maputo tenta negociar com investidores o apoio para uma nova cara ao último grande pulmão verde da capital moçambicana, entre os últimos macacos e crocodilos que ali vivem.

Zoo quase centenário de Maputo procura investidores para nova cara

“É o único pulmão verde que a gente tem dentro da cidade (…). Queremos uma espécie de jardim com uma componente de entretenimento para crianças, para escolas. Nós aqui somos rodeados de muitas escolas primárias públicas e não têm condições nem para ir a um parque”, começa por explicar à Lusa Samuel Bila, médico veterinário do zoo há 34 anos.

Aos 57 anos, trata do zoo juntamente com mais cinco funcionários, sendo hoje uma espécie de gestor no dia-a-dia. Por ali já tratou, há muito tempo, de elefantes, hipopótamos e rinocerontes, entre dezenas de espécies. Hoje restam macacos, serpentes e crocodilos, numa área atual, vedada, de 40 hectares, em que a maioria dos espaços interiores, a começar pelo fosso dos leões, foi ficando deserta.

“Isto é pertença da Associação do Jardim Zoológico de Moçambique desde o tempo colonial. O que acontece é que nós, depois da independência, começámos a ter alguns problemas na gestão dos animais”, reconhece.

Os grandes animais, como os elefantes, desapareceram até 1987, período em que a preocupação do país era a guerra civil. O último chimpanzé foi transferido para a África do Sul. Depois, há 15 anos, morreram os últimos leões e o hipopótamo, e antes o exótico urso, popularmente conhecido como do Tibete.

“Na verdade, a senilidade é que levou a maior parte dos nossos animais e nunca houve reposição”, admite o veterinário.

Atualmente, o espaço, próximo ao centro de Maputo, conta com seis macacos-cão, 18 macacos cinzentos, incluindo duas crias, e três crocodilos: “Alguns tivemos que ceder, mesmo pela dificuldade de alimentá-los, como eles são carnívoros, não era fácil fazer esta manutenção”.

O animal mais velho, chamado carinhosamente de macaco asiático, já conta 34 anos, mas o Zoo guarda ainda serpentes, uma naja e uma jiboia, ambas não expostas, para já.

A idade e a alimentação, juntamente com a falta de financiamento, condicionaram o zoo de Maputo nas últimas décadas, marcadas também pela perda dos terrenos envolventes.

“Um elefante precisa de comer 150 quilos de capim por dia. Então não era fácil fazer a manutenção. Já tínhamos rinocerontes naquela altura, os rinocerontes comiam também à volta de talvez uns 20, 30 quilos de capim. Então as coisas começaram a desaparecer, porque grande parte do jardim também foi começando a ficar habitada”, recorda Samuel Bila.

Esse é precisamente outro problema que afeta o zoo de Maputo, que contava com uma zona para alargamento e que, como o restante espaço, produzia o capim cortado para alimento dos animais, mas que começou a ser ocupado, e mesmo usurpado, pelos habitantes dos bairros vizinhos, que também cortam diariamente caminho pelo seu interior.

“Já chegámos a ter quase 80 hectares, que era essa parte da reserva também incluída”, lamenta Bila, admitindo o desafio dessa gestão diária, em que contam com o apoio do Município de Maputo.

A associação que o gere, que sobrevive apenas de quotas e alguns apoios, tem mantido contactos com potenciais parceiros para um investimento que mude a estética do espaço e lhe dê outro sentido, incluindo uma área para entretenimento para as crianças, e uma “parte pequena” para animais.

“Patos, cabrito cinzento, macacos como estes que a gente tem aqui, algumas serpentes, alguns pássaros. Para manter esta parte do zoo ainda funcional. Mas o que nós gostaríamos de ter neste momento era uma parte mesmo para o entretenimento infantil”, sublinh Samuel Bila.

O futuro passa por ter ali também aves exóticas ou galinhas do mato, para estudantes, crianças e adultos “darem valor à diversidade biológica” do país.

“A gente tem a disciplina de biologia, que ensina mais ou menos como são os animais, e a componente prática eles [crianças] não têm. Então, quando vêm para aqui, já têm a oportunidade de perceber porque é que a gente preserva, porque é que a gente dá valor aos animais, o que é que eles fazem na vida selvagem”, justifica.

Grandes animais, como os que vivem a poucos minutos de distância, no Parque Nacional de Maputo, é que estão fora de causa.

“Já fica muito complicado. A manutenção deles é um bocadinho difícil, tanto pela alimentação, pelos próprios recursos do tratamento deles, são animais com cinco, seis toneladas, então é um bocadinho difícil manter”, conta.

Com cinco meticais (seis sentimos de euro) por entrada, que as crianças não pagam, não é com a bilheteira que o zoo sobrevive, embora os visitantes variem entre 150 a 300 por semana.

Um “número bom”, só que não chega, admite Samuel Bila: “A gente não ganha muita coisa, mas pelo menos já dá para ajudar a comprar, talvez, algumas lâmpadas, algumas pequenas coisas que a gente não tem aqui dentro do zoo. Mas que ajuda, ajuda. Quanto mais pessoas vierem, para nós já é benéfico”.

Quase a chegar aos cem anos, o espaço, que em 1929 começou com uma pequena coleção de animais e evoluiu nas décadas seguintes para um local de conservação da fauna moçambicana, procura fechar entendimentos com parceiros e investidores que financiem uma “nova vida”.

“Eu não diria só para o zoológico. É uma vida para o zoológico e também para a população. Porque a ideia, na verdade, é a gente ter um jardim zoológico e saber porque, na verdade, o jardim zoológico deve existir”, conclui.

*** Paulo Julião (texto), Fernando Cumaio (vídeo) e Luísa Nhantumbo (fotos), da agência Lusa ***

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By Impala News / Lusa

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