Virgílio Castelo Abre o jogo sobre excessos e amores do passado: “O sexo foi sempre o mais determinante…”
No livro Consumo Obrigatório, o ator conta pela primeira vez o que viveu na noite lisboeta, fala das paixões que teve e do impacto profundo que o fim dessas relações lhe causaram. O casamento com Alexandra Lencastre e o amor que vive há mais de 20 anos com Maria Lucena também foram abordados.
Aos 72 anos, Virgílio Castelo não escreve para se justificar nem para chocar. Consumo Obrigatório é o retrato pessoal (e geracional) de quem atravessou intensamente a noite portuguesa entre os anos 1970 e 90,
numa época em que tudo parecia possível. Nesta entrevista à NOVA GENTE, o ator fala com frontalidade sobre os excessos que viveu, sobretudo com o álcool, assume que o sexo foi o elemento mais determinante – e também o mais perigoso – da sua vida noturna, e explica por que nunca romantizou o descontrolo. Reflete ainda sobre os amores que marcaram o seu percurso, incluindo o casamento com Alexandra Lencastre, e sobre a relação atual com Maria Lucena, que descreve como um “milagre”. Sem saudosismo, mas com lucidez, faz um balanço sereno de quem viveu muito… e soube parar.
Há alguma história no livro que ficou de fora por ser demasiado delicada?
Há várias. Embora algumas das histórias que estão no livro também sejam delicadas. Há outras que não poderia de maneira nenhuma falar, porque há pessoas com quem eu já não tenho contacto e que, se fosse falar delas agora, seria muito complicado.
Divertiu-se muito a escrever este livro, imagino…
Muito mesmo. Sempre quis escrever uma coisa sobre a noite, porque não percebo porque é que não há muita coisa escrita sobre isso, quando a noite é uma coisa pela qual todos nós passamos em determinadas fases das nossas vidas. O que eu procurava na noite, enquanto pessoa, é aquilo que eu também procurei no Consumo Obrigatório enquanto autor, que é divertir-me. Eu ia para a noite para me divertir. E as pessoas já me têm dito que o livro é atravessado por um humor permanente. Há histórias que aconteceram porque a noite tem essa componente lúdica, sobretudo, e – e não propriamente no meu caso – introspetiva. Há pessoas para quem a noite é muito boa conselheira, no sentido de fazer melhor reflexão, outras que estudam melhor à noite. Mas eu não. Eu sou completamente diurno. Quanto mais cedo acordo, mais energia tenho para as coisas realmente importantes. A noite sempre foi um departamento, para mim, de pura diversão.
Quem conhece o Virgílio como figura pública vai ficar surpreendido com o homem que aparece nesse livro?
Talvez fiquem surpreendidas por algumas histórias da minha vida pessoal. O livro vai desde os meus 13 até aos 49 anos, portanto, há muita coisa sobre a qual nunca falei porque nunca se proporcionou. Por exemplo, a primeira história talvez seja uma revelação para muita gente: nunca me tinha passado pela cabeça ser ator e, com 13 anos, queria ser músico. E o primeiro conto é um relato de uma atuação em público que eu fiz e que determinou o fim da minha carreira musical. Foi tão boa que acabou logo ali. Há esse tipo de coisas com que as pessoas se podem surpreender. Mas há outras que não, como os meus casamentos, filhas, tudo isso é público.
E quem ler o livro vai ficar surpreendido com os excessos que teve ou com a naturalidade com que eles foram vividos?
Eu acho que não haverá uma grande surpresa, mas nunca se sabe… Criou-se esta ideia de que isto era uma espécie de autobiografia de toda uma geração, e é por isso que acho que as pessoas não vão ficar chocadas com os meus excessos, porque são os excessos próprios de toda aquela geração. No meu modesto entender, o ideário do sexo, drogas e rock n’roll não veio para Portugal quando rebentou em todo o mundo – o que aconteceu nos anos 60 no mundo só aconteceu cá dez anos depois, nos anos 70, que é quando eu tenho 20 anos. Portanto, o excesso que houve – e houve algum, está relatado, não escondo nada – é o excesso de grande parte dos homens e das mulheres da minha idade, que viveram intensamente nos anos 70. E também é preciso não esquecer o 25 de Abril, tinha eu 21 anos. O 25 de Abril não tem que ver propriamente com a noite, mas tem que ver com uma maneira nova dos portugueses olharem para o País, para o quotidiano, e havia um entusiasmo de viver que nunca mais houve. Em 1974, em Portugal, tudo era possível. E isso, para os miúdos de 20 anos, foi muito bom.
“Não tenho o gene da adição”
Há alguma versão de si próprio neste livro da qual já não gosta?
Não, não. Eu sempre me assumi na minha totalidade, com aquilo que sou. Por exemplo, no segundo conto, relato uma situação que aconteceu na discoteca Van Gogo, quando eu tinha 14 anos, e é um encontro com duas raparigas, em que eu sofro um determinado desgosto, porque percebi, naquela altura, que não estava a ser completamente sincero nestes jogos de solução. E isso, o eu não me mostrar exatamente como era, criou uma distância com elas e uma ironia, e não correu bem.
Qual foi o maior excesso da sua vida, aquele que hoje já não romantiza?
Acho que os excessos grandes que tive foram com o álcool. As drogas foram muito ligeiras, mas existiram, também. Há, inclusive, uma história que conto, sobre uma palavra – havia uma boate (odeio chamar discoteca, para mim era tudo boate) no Marquês de Pombal, chamada Indelével. Houve um jantar, do final das gravações da telenovela Origens… estamos a falar do ano 83 ou 84. E fomos todos para esse jantar, e a seguir fomos todos beber um copo ao Indelével no Marquês. E eu acordei, no dia a seguir, num banco de jardim, em frente à igreja. E não me recordo de nada do que aconteceu. E escrevi um conto, exatamente sobre o não recordar de nada. A ideia do Indelével, que, supostamente, é uma coisa que não desaparece… e a mim desapareceu tudo. Fiz um trocadilho entre o Indelével e o que fica e o que não fica. Mas essa noite, por exemplo, foi uma noite de excesso de álcool, de perder a noção de tudo.
Houve alguma fase em que percebeu que estava a ir longe demais?
Não. Eu não tenho o gene da adição em relação a nada. Enquanto estive no ativo do excesso, digamos assim, só me interessava pelo que me dava prazer. A partir do momento em que sentia que, para ter prazer, tinha de me viciar, eu parava. Toda a vida fiz isso. Parava com o tabaco, com o álcool, com o sexo… Sempre tive essa facilidade e sorte.
Há alguma dessas histórias da noite em que olha para trás e pensa “isto podia ter corrido mesmo mal”?
Diria que não. Tenho esta coisa que é estar sempre a observar tudo. Mesmo quando me estava a divertir, havia uma espécie de periscópio… estava sempre a ver onde é que está aquele tipo interessante que vai dar um boneco para fazer dele um dia destes. Via as pessoas e começava a imaginar histórias: de onde vinham, o que faziam… Esse treino do olhar permitia-me sempre antecipar o perigo e estar mais alerta. E, quando percebia que havia situações que me podiam comprometer de algum modo, como com cenas de porrada à noite – por acaso, descrevo duas no livro, em que numa delas levei um murro no olho e fui parar ao Hospital de São José, mas aí não consegui evitar – , na maior parte das vezes, consegui fazer o one step behind [em português, dar um passo atrás].
Entre sexo, drogas e rock n’roll, qual foi o mais determinante e qual o mais perigoso?
O mais determinante foi sempre o sexo. E é também o mais perigoso porque é o que cria laços. No meu caso, as drogas nunca criaram nada e o álcool só criou memórias – muita coisa de que eu falo no livro tem a ver com essas memórias provocadas pelo álcool, que era bebido numa dimensão em que ficava só no nível de euforia. E, quando se está num nível de euforia, acontecem coisas que não acontecem quando estamos normais. E isso criou-me situações que mais tarde foram memórias boas que meu deu para escrever agora.
O álcool, nesse estado de euforia, também pode levar ao sexo…
Sim, sim. Mas, de facto, para mim, a noite sempre teve muito mais a ver com o sexo do que com drogas ou álcool. Claramente, havia um lado namoradeiro em mim nos momentos em que não estava a viver com ninguém… Era curioso, porque algumas das mulheres com que eu vivi, e foram só quatro, pareciam não acreditar nisso: quando estive casado ou a viver com uma mulher, era completamente fiel, não saía, não havia traições, nada. Quando acabava, passava para o outro lado.
A noite deu-lhe mais liberdade ou confusão?
Diria que mais liberdade. Eu sou um tipo estupidamente regrado, mesmo não parecendo. As minhas filhas passam a vida a chatear-me porque estou sempre a citar aquela coisa dos romanos, in medio virtus (a virtude está no meio), ou seja, eu sou um tipo capaz de fazer muitos jejuns para poder fazer depois muitos excessos. Mas há um equilíbrio nisto. Portanto, a liberdade da noite sempre foi para mim uma coisa fantástica. A noite inspirava-me a esse nível. A noite não me permitia refletir bem, mas permitia-me, do ponto de vista da escrita, apanhar ideias. O primeiro romance que escrevi, tentei escrever qualquer coisa a partir de um delírio da noite. Mas não deu. Em compensação, uma ideia surgida durante a noite e depois desenvolvida durante o dia resultou. Eu sou um bocadinho essa mistura. A mistura entre inspiração e transpiração.
“Adoro dançar. Fico horas”
Fala da noite com saudosismo?
Não, não. Eu acho que o corpo, o físico, vai-nos ensinando aquilo que tem de ensinar. E, por muito bem que eu me sinta, felizmente, para a idade que tenho, é evidente que hoje em dia eu sair à noite já me faria imensa confusão, porque me habituei a deitar-me muito cedo. A única coisa que ainda tenho, que é muito forte em mim é, nas festas, nos casamentos, o dançar. Adoro dançar. Fico horas. Eu e a Maria, que também adora dançar, ficamos os dois a dançar até nos porem na rua. Mas, por exemplo, o que eu fazia muito, até aos 45 anos, era diretas. Estava a gravar uma novela em que havia um exterior que era um circo e eu podia, nas cenas do circo, usar óculos escuros. Na noite anterior, estava a divertir-me e depois punha os óculos e estava tudo bem. Hoje em dia, se for sair e se me deitar às duas da manhã, já é toda uma confusão. Habituei-me a deitar cedo. Como tive filhas mais tarde, habituei-me a levantar muito cedo para levá-las à escola. Eu, a partir das 6h30, já estou acordado.
O casamento com Alexandra Lencastre acabou, mas a ligação não. O que é que sobrevive quando o amor acaba?
Acho que sobrevive uma intimidade, mesmo que não haja amizade – que neste caso até há. Depois de todos os casamentos, de todas as ligações fortes, fica sempre uma intimidade, mesmo que se rejeite. Estivemos íntimos com aquela pessoa durante algum tempo, podemos até estar zangados, afastados, mas isso não desaparece. No caso da Alexandra, felizmente, não. Somos amigos. Ainda agora nos cruzámos durante uns dias, porque estive a ensaiar uma peça no Teatro da Trindade onde ela estava também a ensaiar uma outra peça, que entretanto estreou, e continuamos a ter as mesmas brincadeiras e cumplicidades. Não há mágoa, não há ressentimento e gostamos de estar com o outro.
O fim do casamento foi libertador ou devastador?
Devastador. É sempre.
Sofre sempre assim tanto no fim das suas relações?
Sempre, foi sempre horrível.
Leia a entrevista na íntegra na edição que está nas bancas!

Texto: Inês Neves; Fotos: Helena Morais e Arquivo Impala; Produção: ZITA lOPES; Agradecimentos: The One Palácio da Anunciada: hotelstheone.com