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Afinal até os tubarões têm amigos e evitam quem não gostam

Durante anos foram vistos como caçadores solitários e implacáveis. Um estudo de seis anos prova agora que os tubarões-touro têm preferências sociais, constroem laços estáveis e evitam ativamente certos congéneres.

Afinal até os tubarões têm amigos e evitam quem não gostam

Os tubarões têm reputação de caçadores implacáveis e figuram entre as espécies mais temidas dos oceanos. Um novo estudo publicado em 2026 vira do avesso essa imagem: estes animais não andam pelo mar de forma isolada e caótica. Constroem redes sociais, escolhem companhias e evitam ativamente quem não apreciam.

Seis anos, 184 tubarões e mais de 3.000 mergulhos

A investigação foi desenvolvida numa parceria entre o Laboratório de Tubarões de Fiji e as universidades britânicas de Exeter e Lancaster. Ao longo de seis anos, os cientistas acompanharam 184 tubarões-touro na Reserva Marinha Shark Reef, em Fiji, recolhendo dados em mais de 3.000 mergulhos. É uma das investigações mais extensas alguma vez realizadas sobre o comportamento social destes animais.

O que encontraram surpreendeu. Os tubarões não nadam juntos por acaso. Criam laços estáveis, têm parceiros preferidos e evitam certos indivíduos de forma consistente, num comportamento que os investigadores comparam ao das redes sociais humanas.

A investigadora Natasha D. Marosi, da Universidade de Exeter e fundadora do Fiji Shark Lab, é direta. “Como seres humanos, cultivamos uma variedade de relacionamentos sociais, desde conhecidos casuais até os nossos melhores amigos, mas também evitamos ativamente certas pessoas. E estes tubarões-touro estão a fazer coisas semelhantes.”

As fêmeas são o centro de tudo

Um dos resultados mais inesperados foi o papel das fêmeas. Tanto os machos como as fêmeas passam muito mais tempo na companhia de fêmeas, que funcionam como eixo social dentro do grupo. São maiores, mais dominantes e a sua presença estabiliza as interações, reduzindo conflitos entre os machos.

Os adultos ocupam o centro desta rede. Os juvenis e os tubarões mais velhos ficam mais à margem, num padrão que, curiosamente, também se observa em algumas sociedades humanas.

Para os investigadores, estas relações têm vantagens concretas para a sobrevivência: partilha de estratégias de caça, proteção dentro do grupo e redução de tensões internas.

Amizade ou estratégia?

Os próprios investigadores pedem cautela antes de falar em “amizade”. Aplicar conceitos humanos a animais é sempre uma simplificação. O que o estudo prova é a existência de padrões de associação estáveis e preferenciais, semelhantes aos que se observam em golfinhos ou em certas espécies de aves. Se há afeto ou apenas estratégia de sobrevivência, a ciência ainda não sabe.

O que já não tem resposta possível é a velha imagem do tubarão como predador errante e solitário. O tubarão-branco surpreendeu os cientistas ao demonstrar capacidade de curar as próprias feridas e tubarões já foram filmados em praias portuguesas, lembrando que estes animais estão mais próximos de nós do que imaginamos.

Muito mais do que dentes

A ciência tem mostrado, de forma consistente, que os tubarões são muito mais complexos do que a reputação que carregam. O levantamento de biodiversidade de tubarões e raias em Cabo Verde é um exemplo de como estas espécies desempenham papéis fundamentais nos ecossistemas marinhos, muito além do papel de vilões que o cinema lhes atribuiu.

Têm memória, preferências, relações e estratégias. O estudo de Fiji acrescenta mais uma camada a esse retrato: têm também aquilo que, em linguagem humana, chamaríamos de vida social.

Luís Martins; WiN
Imagem Pexels

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