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O que os idosos mais precisam não é de dinheiro nem de médicos

Sete em cada dez portugueses com mais de 65 anos são afetados pela solidão. Portugal é o segundo país mais envelhecido da UE e um dos que menos investe no bem-estar dos idosos. A ciência confirma o que a intuição já sabia: o que os idosos mais precisam é de contacto humano.

O que os idosos mais precisam não é de dinheiro nem de médicos

Portugal é o segundo país mais envelhecido da União Europeia, com idade mediana de 47,3 anos em 2025, apenas ultrapassado pela Itália, segundo dados do Eurostat divulgados em fevereiro de 2026. Há mais de dois milhões e meio de portugueses com mais de 65 anos – 24,1% da população total – e esse número continuará a crescer nas próximas décadas. Segundo o Observatório da Solidão, cerca de 70% das pessoas com mais de 65 anos são afetadas pela solidão.

A geração que hoje envelhece sozinha é, em grande parte, a geração que criou filhos únicos, que viu os filhos emigrar e que assistiu ao desaparecimento progressivo das redes de proximidade.

O que diz a ciência

A solidão nos idosos não é apenas uma questão emocional. É um problema de saúde pública com consequências físicas documentadas. Estudos publicados em revistas científicas internacionais associam o isolamento social a perda de funções cognitivas, menor mobilidade, depressão, enfraquecimento do sistema imunitário e maior risco de mortalidade.

Uma revisão sistemática da literatura sobre solidão e isolamento em idosos portugueses, publicada na revista INFAD, identificou os principais determinantes do problema: a morte do cônjuge, o enfraquecimento da relação com os filhos, viver sozinho e a presença de doenças crónicas. A perda do cônjuge é o fator mais referenciado, não apenas pela dor da perda, mas pelo isolamento que se instala depois, especialmente nas mulheres.

Um estudo realizado com mais de 600 residentes no Porto, publicado na revista científica Health & Place em janeiro de 2026, revelou que viver próximo de espaços verdes está associado a menores níveis de solidão nos idosos, descoberta que reforça a ideia de que o ambiente urbano pode tanto gerar como mitigar o isolamento.

O que têm em comum as pessoas que vivem até aos 100 anos

Portugal no contexto da OCDE e da UE

Os números internacionais pintam um retrato preocupante. Portugal é o segundo país da UE com maior proporção de idosos e o que mais envelheceu nos últimos dez anos, com a idade mediana a subir 3,7 anos desde 2015. Cerca de 55% das pessoas que vivem sozinhas são idosas, colocando Portugal como o quarto país da UE com maior percentagem de idosos a viver só.

No ranking europeu de bem-estar sénior, Portugal ocupa a 14.ª posição entre os 27 países da UE, com uma nota de 31,27 em 100, segundo o estudo Senior Economy Tracker da Fundação Mapfre. O país está abaixo da média europeia na participação dos idosos na sociedade, no envelhecimento saudável e ativo e na segurança financeira dos idosos.

Um estudo da OCDE publicado em outubro de 2025 revela que a solidão e a falta de relações sociais estão associadas a 870 mil mortes prematuras por ano nos países da organização. Entre os idosos, 11% referem nunca encontrar amigos pessoalmente num ano normal, mais do dobro da taxa da população em geral. A OCDE destaca como exemplos positivos Alemanha, Dinamarca, Finlândia, Países Baixos, Suécia e Espanha, que já introduziram estratégias nacionais para combater a solidão. Portugal ainda não tem uma estratégia nacional equivalente.

Segundo o relatório Health at a Glance 2025 da OCDE, até 2050 um terço da população portuguesa terá 65 ou mais anos. Apesar deste envelhecimento acelerado, Portugal dispõe apenas de 3,9 camas por cada 1.000 pessoas com 65 anos ou mais e de 0,8 trabalhadores por cada 100 idosos, valores muito abaixo da média da OCDE. Atualmente, 70% dos lares portugueses têm lotação esgotada, com preços médios que superam os 1.900 euros mensais.

Um relatório do PaRIS coordenado pela OCDE e pela DGS, publicado em abril de 2026, confirma que Portugal está abaixo da média da OCDE em quase todos os indicadores de saúde, com as diferenças mais acentuadas nos grupos mais vulneráveis: idosos, mulheres, pessoas com baixa escolaridade e em privação económica.

O que os idosos mais precisam

Não é dinheiro. Não é medicação. É contacto humano. É sentir que ainda importam. É ter a quem contar o que aconteceu durante o dia. O sentimento de utilidade é apontado pelos investigadores como um dos fatores mais determinantes para o bem-estar dos idosos após a reforma. Quem mantém rotinas, responsabilidades e relações; sejam elas com filhos, netos, vizinhos ou grupos de convívio; envelhece de forma mais saudável e com maior qualidade de vida do que quem se fecha em casa.

Os projetos intergeracionais têm mostrado resultados consistentes em Portugal. O projeto Pedalar sem Idade tem como missão combater a solidão de seniores com mobilidade reduzida através de passeios em bicicleta adaptada. O impacto vai muito além do exercício físico: é a conversa, o encontro, o sentir-se parte de algo. A tendência para o exercício físico é também transmitida de pais para filhos de forma mais eficaz em famílias onde há convívio regular entre gerações.

O que as famílias podem fazer

A investigação é clara: a perda ou enfraquecimento da relação com os filhos é o segundo maior determinante da solidão nos idosos portugueses. Não são apenas os idosos que vivem em lares ou em isolamento total. São também os que têm família, mas que a veem cada vez menos.

Uma chamada telefónica. Uma visita inesperada. Um almoço partilhado. Um convite para sair. Pequenos gestos que, para um idoso sozinho, podem fazer toda a diferença entre um dia com sentido e um dia sem ninguém.

Portugal vai ter, em 2070, cerca de um milhão de pessoas com mais de 75 anos que, no máximo, terão uma pessoa da família que lhes pode prestar apoio. São pessoas que hoje têm entre 30 e 40 anos. O problema já está a construir-se.

Luís Martins; WiN
Imagem Pexels

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