Ricardo Fernandes O português que quis ir à Suíça para morrer

Esteve tetraplégico durante 17 anos. Criou uma empresa e dois filhos, mas perdeu os “gostos pela vida” e por isso tomou a decisão de viajar até à Suíça e partir por morte medicamente assistida. Aos 44 anos, o empresário voltou a abrir a discussão sobre a eutanásia em Portugal, antes do seu último suspiro.

Ricardo Fernandes O português que quis ir à Suíça para morrer

A vida de Ricardo Fernandes foi marcada por uma decisão rara, difícil e profundamente pessoal: escolher quando e como morrer. Não se tratou de um impulso momentâneo, mas de um caminho longo, construído ao longo de quase duas décadas, desde o dia em que um acidente de viação transformou por completo a sua existência.

Aos 44 anos, o empresário português concretizou aquilo que durante anos descreveu como um “direito individual”. Viajou até à Suíça e, no passado dia 24 de abril, recorreu à morte medicamente assistida, uma prática legal naquele país, mas ainda sem enquadramento em Portugal. Fê-lo com serenidade, com preparação e com uma ideia que repetiu inúmeras vezes: “Diz-se morte medicamente assistida, para mim é liberdade.” Nas redes sociais deixou uma fotografia de olhos fechados e fones nos ouvidos com uma frase curta: “Até já.”

O ponto de viragem aconteceu a 9 de maio de 2009, um dia antes de celebrar mais um aniversário. Ricardo adormeceu ao volante. O carro despistou-se violentamente e o impacto deixou-o gravemente ferido. Ficou preso no local, sem conseguir mexer-se, durante cerca de 17 horas, até ser finalmente encontrado e socorrido. Seguiu-se um longo e complexo processo hospitalar. Enfrentou várias complicações médicas: infeções, intervenções cirúrgicas, uma traqueostomia e até uma paragem cardiorrespiratória. Sobreviveu, mas com uma lesão medular irreversível. Ficou tetraplégico, com cerca de 95% de incapacidade. A partir desse momento, passou a depender de terceiros para praticamente todas as tarefas do dia a dia. “Percebi logo que a minha vida como eu a conhecia tinha acabado”, contou no ano passado em entrevista à revista Sábado.

Pouco tempo depois do acidente, ainda em fase de recuperação, Ricardo tomou uma decisão que o acompanharia durante os anos seguintes. “Em 2010, iniciei o processo sozinho. Informei a família, tratei de tudo. Não podem querer que eu esteja cá só por estar”, explicou no podcast Animal que Ri em 2025.

 

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Texto: Andreia Valente; Fotos: D.R.

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