O rasto de sangue do Kremlin: A cronologia dos crimes políticos atribuídos a Vladimir Putin
A recente revelação sobre a utilização de uma rara toxina de sapo para silenciar Alexey Navalny volta a colocar o regime de Vladimir Putin sob os holofotes do escrutínio internacional. De envenenamentos com substâncias radioativas a “quedas” de janelas, recordamos a lista de opositores que ousaram desafiar o ‘Czar’ moderno.
A morte de Alexey Navalny numa prisão no Ártico continua a gerar ondas de choque. Se inicialmente se falou em “síndrome de morte súbita”, novas investigações apontam agora para um método muito mais sinistro: o uso de uma toxina de sapo (especificamente, bufotenina), uma substância que causa paragem cardíaca sem deixar vestígios óbvios. Este caso, já detalhado pela Impala, é apenas o capítulo mais recente de uma longa história de desaparecimentos e assassinatos que moldaram a Rússia de Putin.
A cronologia de silenciamento: 2003-2024

Para compreender o presente, é preciso olhar para o padrão. Ao longo de mais de duas décadas, críticos do regime, jornalistas e ex-espiões encontraram destinos trágicos.
2003: Sergey Yushenkov
O co-presidente do partido Liberal Russia foi abatido à porta de casa, em Moscovo. Yushenkov estava a investigar a possível participação do FSB (sucessor do KGB) nos atentados em apartamentos russos em 1999, que serviram de pretexto para a Segunda Guerra na Chechénia.
2004: Paul Klebnikov
O editor da Forbes Russia, que investigava a corrupção e a vida dos oligarcas, foi morto num tiroteio à saída do seu escritório. O crime nunca foi totalmente esclarecido.
2006: Anna Politkovskaya
Talvez o caso mais emblemático de perseguição à imprensa. A jornalista, que denunciou abusos de direitos humanos na Chechénia, foi morta a tiro no elevador do seu prédio, precisamente no dia do aniversário de Vladimir Putin.
2006: Alexander Litvinenko
O ex-espião russo que desertou para o Reino Unido morreu em Londres após beber chá contaminado com , uma substância radioativa raríssima. Uma investigação britânica concluiu que a operação foi “provavelmente aprovada” por Putin.
2009: Sergei Magnitsky
O advogado que denunciou um esquema de fraude fiscal de 230 milhões de dólares por parte de oficiais russos morreu sob custódia, após meses de tortura e negação de assistência médica. O seu nome batizou leis de sanções internacionais contra violadores de direitos humanos.
2015: Boris Nemtsov
O líder da oposição e ex-vice-primeiro-ministro foi assassinado com quatro tiros nas costas numa ponte a poucos metros do Kremlin. Nemtsov estava prestes a publicar um relatório sobre o envolvimento militar russo na Ucrânia.
2018: O Atentado de Salisbury (Sergei Skripal)
Embora não tenha resultado em morte imediata para o alvo principal, o uso do agente nervoso contra o ex-agente duplo Sergei Skripal e a sua filha, em solo britânico, confirmou a disposição do Kremlin em usar armas químicas contra “traidores”.
O ‘Caso Navalny’ e a evolução dos métodos
Alexey Navalny já tinha sobrevivido a uma tentativa de envenenamento por Novichok em 2020. Contudo, a sua morte em fevereiro de 2024 revela uma sofisticação macabra. A utilização de toxinas orgânicas, como a de sapo, sugere uma procura pelo “crime perfeito”: aquele que mimetiza causas naturais, dificultando a condenação internacional.
Tal como acontece noutros casos de perseguição política na Rússia, o padrão é a negação sistemática. O Kremlin mantém a narrativa de que estas mortes são coincidências ou conspirações ocidentais, mas os factos recolhidos por organizações como a Amnistia Internacional e o apontam numa direção oposta.
Casos semelhantes e a ‘Epidemia de quedas’
Desde o início da guerra na Ucrânia em 2022, registou-se um aumento anómalo de mortes entre oligarcas e executivos russos. Figuras como Ravil Maganov (presidente da Lukoil) morreram após “cair de janelas” de hospitais ou edifícios de luxo. Estes incidentes, embora menos “políticos” no sentido clássico, mostram a fragilidade de qualquer voz que não esteja em total alinhamento com o Kremlin.