Alunos de doutoramento exigem pagamento de bolsas em atraso em manifestação
Duas dezenas de alunos de doutoramento, que estão a trabalhar sem receber, exigiram hoje o pagamento das bolsas de investigação científica em atraso, numa concentração em frente ao Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), em Lisboa.
“É inadmissível que as pessoas fiquem quatro, cinco meses sem receber e a trabalhar. Estamos no final de janeiro, a grande maioria dos bolseiros não sabe quando é que vai começar a receber”, disse à Lusa a presidente da Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC), Sofia Lisboa, destacando que os atrasos acontecem todos os anos.
Nos concursos anuais da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) para bolsas de doutoramento foram atribuídas 1.553 bolsas, mas Sofia Lisboa disse que apenas algumas dezenas de alunos já começaram a recebê-las.
Na manifestação, convocada pela ABIC, por volta das 12:30, em frente ao MECI estavam manifestantes que seguravam cartazes com palavras de ordem como “tenho mais orientadores do que direitos” e “precariedade científica é uma escolha política”.
A Lusa falou com alguns alunos e todos disseram que para fazer face às despesas precisam de ter poupanças, apoio familiar ou pedir empréstimos, sendo que a bolsa é atribuída em regime exclusivo, ou seja, os beneficiários não podem ter outra fonte de rendimento.
“É assim que a maior parte dos bolseiros lidam [com o problema], é ter algum dinheiro de parte e tentar viver com isso no tempo que for necessário”, disse à Lusa o aluno de doutoramento em Física, João Neves.
Na concentração, também estava presente a aluna de doutoramento Marta Batista, que sublinhou a importância dos trabalhos desenvolvidos pelos doutorandos que não estão a ser valorizados.
“O trabalho que nós fazemos e que vamos desenvolvendo ao longo deste tempo é super importante, mesmo para as próprias instituições de investigação, as nossas publicações e há ainda a pressão constante para publicar. Depois olhamos para trás e estamos quatro meses ou cinco meses ou seis meses sem receber”, referiu Marta Batista.
Muitos alunos questionaram as instituições que ficaram responsáveis por gerir a atribuição de bolsas da FCT, sendo que um dos manifestantes, o aluno de doutoramento em História Contemporânea Afonso Silva, disse que há um “grande silêncio e não se percebe o porquê dessa demora”.
A presidente da ABIC disse que quando questionam a FCT e as instituições sobre os atrasos não existe um consenso e que as entidades empurram as responsabilidades entre si.
Sofia Lisboa disse ainda que o objetivo da concentração de hoje, que terminou por volta das 13:30, era pressionar o Ministério da Educação, que dinamizou a atribuição das bolsas, a dar esclarecimentos.
No início da manifestação, Sofia Lisboa entrou do edifício do ministério e deixou um pedido para marcar uma reunião com a tutela na próxima semana.
Os concursos anuais da FCT para bolsas de doutoramento destinam-se a financiar a investigação científica durante quatro anos para efeitos de concessão do grau académico de doutor por parte de uma instituição universitária.
Em 2025, as instituições contratantes (universidades, laboratórios colaborativos, centros de tecnologia e inovação, entre outras) passaram a tratar da contratualização das bolsas, isto é, os estabelecimentos de ensino têm de enviar toda a documentação necessária à FCT e transferir o prémio monetário para os beneficiários.
A FCT financia as bolsas após a assinatura dos contratos-programa com as instituições contratantes, ou seja, os contratos celebrados, entre a fundação e os estabelecimentos.
Até ao final de 2025, a FCT transferiu 11,4 milhões de euros para as instituições e até 26 de janeiro foram assinados 71 contratos-programa que correspondem a 1.521 bolsas de doutoramento.
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By Impala News / Lusa