Adeus, Pizzi: o homem que jogou seis anos com dores por amor ao futebol
Pizzi anunciou nesta segunda-feira o fim de uma carreira de 18 anos. Aos 36, o médio despede-se dos relvados na próxima semana, frente ao Benfica — o clube da sua vida.
Luís Miguel Afonso Fernandes – para o mundo do futebol, simplesmente Pizzi – cresceu em Bragança, numa cidade do interior transmontano onde os sonhos de bola começam cedo e as raízes ficam para sempre. Nesta segunda-feira, aos 36 anos, anunciou nas que vai retirar-se do futebol profissional no final desta temporada, ao serviço do Estoril Praia.
A notícia chegou com a voz embargada e as palavras certas. “Hoje sento-me aqui com o coração apertado, mas com um enorme sentimento de gratidão.”
Seis anos a jogar com dores
Por detrás dos títulos e das assistências, havia uma história que poucos conheciam. Pizzi jogou as últimas seis épocas da carreira com dores intensas na anca – uma condição crónica que resistiu a todos os tratamentos e que, no final, o obrigou a tomar a decisão mais difícil da sua vida.
“Infelizmente, há seis anos que jogo com dores intensas na anca e, apesar de ter feito vários tratamentos, esta é uma condição que me impede de ser o Pizzi que todos conheceram. Ainda assim, estive sempre disponível para ajudar todos os clubes por onde passei. Dei o máximo de mim em cada treino, em cada jogo, em todos os momentos”, afirmou no vídeo de despedida.
É o retrato de um profissional que nunca desistiu – mesmo quando o corpo pedia para parar.
Bragança, Braga e o salto para Madrid
Formado no GD Bragança, Pizzi assinou pelo Braga em 2007, com passagens por Ribeirão, Covilhã e Paços de Ferreira antes de dar o salto para o Atlético de Madrid. Em Espanha, jogou ainda no Deportivo da Corunha e no Espanyol por empréstimo, antes de regressar a Portugal em 2014 para assinar pelo Benfica — o clube que o haveria de consagrar.
Sete épocas e meia na Luz
O Benfica foi a casa de Pizzi durante sete épocas e meia, entre 2014 e 2022. Nesse período, disputou 360 jogos oficiais pelos encarnados, conquistou vários títulos nacionais e tornou-se um dos médios mais completos do futebol português – reconhecido pela visão de jogo, pela qualidade técnica e pela liderança silenciosa dentro do campo.
Pela Seleção Nacional, soma 17 internacionalizações, tendo representado Portugal em momentos marcantes do futebol nacional.
Depois da Luz, seguiram-se o Basaksehir, o Al Wahda nos Emirados Árabes Unidos, o regresso ao Braga por duas épocas, uma passagem pelo APOEL do Chipre e, por fim, o Estoril Praia, onde nesta segunda-feira anunciou o adeus.
Despedida com simbolismo
O destino quis que a última jornada da Liga Betclic, agendada para a próxima semana, oponha exatamente o Benfica ao Estoril. Para Pizzi, não podia ser mais perfeito.
“O meu último jogo será contra o Benfica e conto com o vosso apoio uma última vez neste jogo que tem um significado tão especial para mim. Despeço-me dos relvados, mas não do futebol, porque o futebol continuará sempre a fazer parte da minha vida”, declarou.
Maria, Afonso e Francisco: a família que o manteve de pé
Por detrás do jogador, há um homem. Pizzi e Maria de Barros conhecem-se desde crianças – as suas mães chegaram a estar grávidas ao mesmo tempo em Bragança. Namoraram desde o 11.º ano, partilharam a aventura de sair da terra natal e construíram juntos uma vida que atravessou cidades, países e clubes.
Casaram-se numa cerimónia inesquecível – Maria confessou que cantou ao marido no altar, interpretando Amor Para a Vida Toda, de Carolina Deslandes. São pais de dois filhos: Afonso e Francisco, hoje com cerca de dez e sete anos.
No vídeo de despedida, Pizzi não esqueceu quem esteve sempre ao seu lado: “Obrigado à minha esposa e aos meus filhos, por tornarem tudo mais leve. Obrigado a toda a minha família: aos meus pais, ao meu irmão, aos meus sogros e cunhados, por estarem sempre presentes em todos os momentos e em todas as decisões.”
Fim de uma era, início de novo capítulo
Pizzi despede-se dos relvados com 18 anos de carreira, mais de 700 jogos, vários títulos e uma reputação construída à base de trabalho, profissionalismo e respeito. Mas faz questão de deixar uma promessa: o futebol não sai da sua vida.
O que vem a seguir, só o tempo dirá. Por agora, basta o aplauso.
Luís Martins; WiN
Imagem redes sociais