Morreu Mário Zambujal: O Adeus ao Autor de Crónica dos Bons Malandros
Mário Zambujal faleceu aos 90 anos. Recorde a carreira do icónico jornalista, presidente do Clube de Jornalistas e autor do clássico Crónica dos Bons Malandros.
O jornalismo e a literatura portuguesa estão hoje mais pobres. Mário Zambujal faleceu este dia 12 de março de 2026, aos 90 anos, deixando um legado que atravessa gerações de leitores e profissionais da comunicação. Nascido em Moura, no Alentejo, a 5 de março de 1936, o autor tinha acabado de celebrar nove décadas de uma vida dedicada à arte de contar histórias.
Encontrava-se em Lisboa, cidade que adotou e que o homenageou diversas vezes ao longo da carreira. O seu desaparecimento gerou uma imediata vaga de consternação e homenagens. Personalidades da cultura e da política têm sublinhado o seu “humor subtil” e a “elegância cívica” que sempre demonstrou.
Carreira forjada nas redações e no ecrã
Mário Zambujal foi, acima de tudo, um “animal de prazer” no trabalho. Começou cedo, publicando o seu primeiro texto aos 15 anos no semanário Os Ridículos. A partir daí, o seu nome tornou-se indissociável dos principais títulos da imprensa nacional. A sua trajetória profissional destaca-se por passagens marcantes em vários órgãos:
- • Foi uma figura central no jornalismo desportivo, integrando os quadros de A Bola e sendo subdiretor do Record.
- • Exerceu cargos de grande responsabilidade como chefe de redação do Diário de Notícias e de O Século.
- • Foi o primeiro diretor do semanário Se7e, um marco na imprensa de espetáculos em Portugal.
- • Presidiu ao Clube de Jornalistas durante 14 anos, onde recebeu, já em 2025, o Prémio Gazeta de Mérito.
- • Na televisão, tornou-se um rosto familiar dos portugueses como apresentador do programa “Grande Encontro” e pivô do “Domingo Desportivo” na RTP.
A sua capacidade de liderança e a sua visão ética do jornalismo serviram de escola para muitos profissionais que hoje recordam a sua “inteligência emocional” e a facilidade com que criava títulos brilhantes.
O fenómeno literário dos Bons Malandros
Embora o jornalismo fosse a sua profissão diária, foi a literatura que o elevou ao estatuto de ícone popular. Em 1980, publicou Crónica dos Bons Malandros, obra que revolucionou o estilo narrativo em Portugal com o seu humor picaresco e personagens inesquecíveis. O livro foi apenas o início de uma bibliografia vasta e premiada:
- • Clássicos da ficção: Seguiram-se títulos como À Noite Logo se Vê, Fora de Mão, Primeiro as Senhoras e Já Não se Escrevem Cartas de Amor.
- • Reconhecimento oficial: Em 1984, foi feito Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e, em 2016, recebeu a Medalha de Mérito Cultural da Câmara de Lisboa.
- • Edições comemorativas: Recentemente, por ocasião dos seus 90 anos, a editora Clube do Autor lançou novas edições de Cafuné e Dama de Espadas, com prefácios de figuras como Marcelo Rebelo de Sousa.
Zambujal dizia frequentemente que “a palavra de que mais gosto é liberdade”. Viveu de acordo com esse princípio, escrevendo até ao fim e mantendo uma lucidez crítica sobre o mundo moderno.
O velório e as cerimónias fúnebres deverão ser anunciados nas próximas horas, prevendo-se uma última despedida à altura da sua relevância para a cultura nacional.