Moçambique/Ataques: Jornalista responsabiliza em livro indústria petrolífera
O jornalista norte-americano Alex Perry – autor de um livro no qual detalha ataques de extremistas islâmicos e violações dos direitos humanos por soldados em Moçambique, em 2021 -, responsabiliza a indústria petrolífera pela situação no país.
Por iniciativa própria, Perry investigou durante cinco anos a verdadeira dimensão dos ataques em 24 de março de 2021 em Palma, descobrindo que o número de mortos rondava os 1.200, em vez das “dezenas” comunicadas pelas autoridades moçambicanas.
Os números, adiantou, foram confirmados pela organização independente Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED na sigla inglesa) e pelo Governo holandês, o que faz deste “o segundo maior atentado terrorista de sempre”, depois do 09 de setembro de 2001 em Nova Iorque.
Os ataques tiveram lugar junto ao megaprojeto de Gás Natural Liquefeito (GNL), em Cabo Delgado, liderado pela francesa TotalEnergies.
“O que acho estranho é a insistência da Total em afirmar que a insurgência não tem nada a ver com o projeto, porque, quer se trate de islamistas ou de grupos antirrepressão e antigovernamentais, todos apontam o dedo ao projeto, que tem o Governo como parceiro”, afirmou à agência Lusa, a propósito da apresentação do livro “Blood Will Flow” em Londres.
Na sua opinião, tanto a petrolífera francesa TotalEnergies como as autoridades moçambicanas “estão desesperadas por apresentar a situação como algo internacional e fora do seu controlo, e ainda mais empenhadas em fazer crer que não tem nada a ver com o projeto de gás”.
No entanto, continua, os ataques “têm tudo a ver” com o projeto de extração de gás em Cabo Delgado e os sentimentos de marginalização e exclusão criados na população local pela “ganância” da multinacional.
“Temos um campo de gás com um terço da área da Bélgica. Tem potencial para transformar o país. Se essa riqueza fosse distribuída, não só acalmaria a insurgência, como melhoraria a vida de toda a população. No entanto, isso ainda não aconteceu”, lamentou.
Segundo Perry, “da forma como está a ser gerido atualmente, neste momento, trata-se de gerar lucros para acionistas a cinco mil milhas [oito mil quilómetros] de distância e para um punhado de ministros do Governo”, enquanto “apenas 0,41% vai para a população local”.
“Mesmo o pouco que chega ao terreno está repleto de problemas. Existe um regime de indemnização para compensar as 2.500 pessoas que tiveram de ser desalojadas do complexo da Total. Esse regime está viciado por corrupção”, denunciou.
Para o jornalista, nestas condições, as hipóteses de o megaprojeto “beneficiar Moçambique são minúsculas”.
No livro, Perry revela como os soldados moçambicanos responsáveis por garantir a segurança do complexo da TotalEnergies não saíram para defender os civis dos ataques de grupos associados ao Estado Islâmico.
“Quando o ISIS atacou, eles não fizeram nada. Os soldados, os poucos soldados e polícias que se encontram na cidade, alguns foram mortos, a maioria tirou os uniformes e fugiu. Ouvi várias histórias de soldados, homens, que se disfarçaram com burcas, como mulheres, para escapar”, contou durante a apresentação.
A TotalEnergies “basicamente finge que este ataque nunca aconteceu”, lamentou, e ainda não reconheceu que 55 trabalhadores subcontratados morreram, 54 moçambicanos e um britânico.
Em 2023, sobreviventes e as famílias das vítimas apresentaram uma queixa contra o gigante francês em Paris por homicídio involuntário e omissão de socorro, usando muita da informação da investigação de Perry.
No ano passado, a organização jurídica europeia Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e Humanos (ECCHR), acusou a multinacional de “cumplicidade em crimes de guerra, tortura e desaparecimentos forçados” em Moçambique entre julho e setembro de 2021.
Em causa está o financiamento às forças armadas moçambicanas, que, nesse período, terão detido, torturado e assassinado dezenas de civis nas instalações de gás da TotalEnergies.
Alex Perry, antigo correspondente da revista Time em África e autor de vários livros sobre conflitos, enquadra o comportamento da TotalEnergies na história de uma indústria de petróleo e gás à qual estão associadas 182 mil mortes entre 1950 e 2014.
As empresas do setor beneficiam de um “livre-trânsito para fazerem o que for preciso” devido à dependência energética e financeira dos governos, pelo que a maioria das empresas do setor opera sem cuidado pelo ambiente ou populações locais, disse.
“A Total vale dez vezes mais do que [a economia de] Moçambique. Isso mostra onde reside o poder”, resumiu.
O jornalista norte-americano, atualmente radicado no Reino Unido, está confiante de que os processos judiciais em curso têm o potencial de “mudar para sempre o mundo dos negócios”, referindo os casos da francesa cimenteira Lafarge e da sueca Lundin.
Em abril, a Lafarge foi considerada culpada de financiamento do terrorismo na Síria entre 2013 e 2014 por pagar a movimentos extremistas, entre eles o grupo Estado Islâmico (EI), para manter a atividade de uma cimenteira naquele país.
Entretanto, dois antigos executivos da Lundin Oil estão a ser julgados em Estocolmo por cumplicidade em crimes de guerra com o regime sudanês de Omar al-Bashir, entre 1999 e 2003, ao pagar ao exército local pela segurança de uma instalação petrolífera, resultando numa ofensiva militar que causou mortes de civis.
“É esse o destino que aguarda a direção da TotalEnergies”, garantiu, sendo que “pode demorar 10 anos”, admitiu.
BM // JMC
By Impala News / Lusa