Ministro alerta para impacto da desinformação no tratamento da cólera em Moçambique

O ministro da Saúde moçambicano alertou hoje para o impacto da desinformação sobre a cólera, sublinhando que 74% das mortes provocadas pela doença ocorrem nas comunidades, porque os doentes não procuram os serviços de saúde.

Ministro alerta para impacto da desinformação no tratamento da cólera em Moçambique

“Ficamos muito preocupados. 74% da mortalidade por cólera acontece nas comunidades”, o que “significa que as pessoas não estão a ir para os hospitais”, disse Ussene Isse, ao prestar informações à Assembleia da República, em Maputo.

Segundo o governante, as unidades sanitárias dispõem de condições para tratamento imediato e eficaz da doença e pediu à população que recorra rapidamente aos serviços de saúde sempre que surjam sintomas.

Isse reforçou ainda que as autoridades continuam a trabalhar na expansão dos meios de diagnóstico e transporte de emergência para melhorar a resposta hospitalar, quando Moçambique regista mais de 7.263 infetados na atual epidemia da doença, que já totaliza 82 óbitos desde setembro, indicam dados oficiais.

Durante a sua intervenção no parlamento, o ministro da Saúde admitiu ainda que o setor enfrenta desafios no abastecimento de medicamentos e outros materiais para as unidades de saúde, resultante da combinação entre cortes no financiamento externo, um incêndio que destruiu o armazém nacional de medicamentos e o aumento dos casos de desvio de fármacos.

O governante explicou que Moçambique “perdeu cerca de 70,5% do financiamento para medicamentos”, na sequência da redução do apoio dos parceiros internacionais, situação que o Estado tem tentado mitigar, embora sem capacidade para suprir totalmente a necessidade, já que “a lacuna que está ali é enorme e o Estado nunca irá conseguir superar”.

A situação da falta de material médico nas unidades sanitárias agravou-se com o incêndio que destruiu em 23 de dezembro de 2024 o armazém central, onde estavam armazenados ‘stocks’ para três a quatro anos, uma perda total de reservas que levou o sistema a operar em regime de emergência, segundo o ministro.

O ministro da Saúde também alertou para o impacto do roubo e desvio de medicamentos no sistema público, afirmando que esta prática continua a ser um dos fatores que agravam a escassez de “produtos essenciais”, mesmo quando o Estado assegura a reposição das compras.

“Mesmo que o Estado compre tudo que é medicamento, se não controlarmos em conjunto esta parte do roubo, teremos sempre falta de tudo”, assinalou Ussene Isse, classificando o problema como persistente e pedindo cooperação das comunidades e dos deputados na denúncia dos envolvidos.

O ministro afirmou que o setor conhece a existência de comércio ilegal de medicamentos e tratamentos realizados fora das unidades sanitárias, mas que a falta de denúncias impede ações mais rápidas.

“Quem vende medicamento lá fora, quem trata pessoas lá fora, sabemos quem são. Mas nós não denunciamos”, declarou o ministro.

A primeira-ministra moçambicana, Maria Benvinda Levi, também disse, no parlamento, que a prioridade da ação governativa para o setor da saúde é garantir um maior acesso e qualidade na prestação de serviços de saúde à população, para assegurar que o país “tenha um capital humano saudável”.

“É assim que a nossa aposta se centra na construção, reabilitação, requalificação das unidades sanitárias, sem descurar o respetivo apetrechamento em equipamentos consumíveis médicos, bem como a afetação de mais recursos humanos qualificados no Serviço Nacional de Saúde e, desta forma, reduzir a sobrecarga de trabalho”, explicou.

Levi reconheceu, contudo, os desafios “conjunturais e estruturantes” que o país ainda ultrapassa para assegurar efetivamente o acesso universal a cuidados de saúde de qualidade a todos os moçambicanos.

Entre as medidas implementadas para ultrapassar estes desafios, a primeira-ministra destacou consolidação do sistema comunitário de saúde e o reforço dos mecanismos de aquisição de medicamentos e consumíveis.

LCE // VM

By Impala News / Lusa

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